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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A eternidade e um dia: sobre o tempo e as perdas

O tempo volta a ser o protagonista de um filme de Theo Angelopoulos. O realizador grego, habituado a apresentar vastas odisseias particulares, focaliza outra delas em A eternidade e um dia (Mia aioniotita kai mia mera, 1998), que conta com a presença majestática de Bruno Ganz em cena. Ele interpreta Alexandre, um escritor de obra consagrada que está se despedindo da casa em que passou boa parte de sua vida. O lugar é carregado de memórias boas e ruins, como bem cabe a um ambiente onde se esteve por tantos anos. Ao olhar para trás, ele se dá conta do tempo transcorrido e, inevitavelmente, é tomado por uma forte nostalgia de seu passado acompanhado do grande amor de sua vida, que faleceu. Seu presente é enfermo, uma vez que sua alma adoeceu de tristeza. Porém, um leve consolo surge em forma de uma carta escrita por Ana (Isabelle Renaud), sua esposa de tantos anos, e essa correspondência é o bastante para lhe renovar a vontade de viver enquanto ainda é possível.
 

No seu caminho, Alexandre acaba encontrando um garoto albanês (Achileas Skevis) que se perdeu da família e está tentando atravessar a fronteira para retornar à sua casa. Profundamente comovido com o drama do menino, ele se decide por ajudá-lo, mesmo que isso represente alguns riscos para sua vida, já que terá de enfrentar a procura da Polícia. Entre os dois, surge uma afeição quase gratuita e difícil de ser demonstrada em palavras, por conta da barreira idiomática existente: Alexandre fala grego e o menino entende bem pouco do idioma. A linguagem de comunicação que ambos adotam é bem mais universal: o olhar e os gestos. Eles sabem que precisam um do outro, cada qual por seu motivo, desde o instante em que se cruzam, e passam a ficar próximos, dividindo, assim, os seus pesados fardos. Trata-se de uma amizade que floresce de improviso, e produz transformações significativas nos amigos. O menino, cujo nome nunca é revelado, funciona como um precioso lenitivo para a melancolia de Alexandre.

Angelopoulos propõe um paralelo entre o presente, no qual o protagonista empreende esforços para conduzir o garoto de volta à Albânia, e o passado, concebido como um tempo de celebração, que é trazido à tona pela carta de Ana, a qual faz alusão a um dia inesquecível que ela viveu com o marido 30 anos antes. Nesse sentido, A eternidade e um dia se firma como um filme sobre a persistência da memória e dos laços eternos que nos ligam a pessoas queridas e importantes. A narrativa flagra essa necessidade humana de se apegar a instantes e de desejá-los ardentemente. Muitos dizem que a felicidade está nos átimos, nos poucos minutos, que são realidade por pouquíssimo tempo e lembrança para uma vida inteira e, quiçá, até depois dela (as lembranças se vão conosco quando a vida fenece?). O título do filme, portanto, faz todo o sentido, e a história caminha docemente pelos interstícios mnemônicos, sempre amparada por uma trilha sonora incidental de alta pregnância. Não há necessidade de vozes aqui, apenas a melodia ora imponente, ora melíflua das variações de piano, violino, harpa e outros instrumentos que se configuram em poema tonitruante.


Ao lidar com o tempo, Angelopoulos deixa clara a sua reverência a essa grandeza, tão maior que todos nós, em planos amplos, longos e abertos, que sublinham a pequenez humana e também a vastidão do mundo. Seu filme anterior, Um olhar a cada dia (To vlemma tou Odyssea, 1995), é pautado nessa mesma ideia, ao retratar o penoso percurso de um cineasta grego através do Bálcãs. Ali, porém, ele se perdia em divagações monótonas e a força de seu ponto de partida diluía consideravalmente até o epílogo fastidioso, sobressaindo-se a elaborada composição imagética e o desempenho formidável, de Harvey Keitel. Aliás, A eternidade e um dia também se vale de um excelente intérprete: Bruno Ganz. O ator, um dos mais transnacionais de seu tempo, passa o filme inteiro se expressando em grego, e impinge grande comoção através da jornada de seu escritor que deseja febrilmente viver enquanto vive a véspera de sua internação voluntária no hospital. Seu esforço de interpretação fora de sua língua materna é equivalente em potência e resultado ao de Tilda Swinton em Um sonho de amor (Io sono l’amore, 2009), em que atua majoritariamente em italiano.

Acima de tudo, é a lembrança que rege os contratempos (tomados aqui inclusive em sua acepção musical) do longa, cuja duração superior a duas horas está longe de torná-lo enfadonho. E a lembrança nada mais é do que a própria vida, formada de acúmulos diários que trazem aprendizado, muitas vezes apartado de qualquer didatismo e, ainda assim, nem sempre a lição se aprende. Contudo, o componente moral não perpassa a abordagem de Angelopoulos, que mostra Alexandre em erros e acertos: humano, antes de mais nada. E seu apego e carinho pelo menino são a lufada de esperança e aventura por que sua alma tanto anseia, tornando o personagem passível de comparação com o Marcel Max (André Wilms) de O porto (Le havre, 2011), fábula humanista sobre a amizade entre um escritor e um engraxate imigrante. Nesse sentido, os filmes de Theo Angelopoulos e de Aki Kaurismäki apresentam aproximações, pelo que trazem de ternura em seus subtextos. Porém, enquanto o primeiro aposta em uma visão eminentemente grave, o segundo enxerta lascas de humor obtuso através de diálogos e de composições cênicas propositalmente berrantes. No mais, a certeza despertada por A eternidade e um dia é a de que se está diande de uma portentosa sinfonia sobre a imensidão temporal e uma celebração dos corações generosos.

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