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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A tragédia em voz baixa de Propriedade privada


Existe uma leva de filmes franceses que falam baixinho ao público e, nesse quase silêncio, produzem reflexões de intensidade supersônica. O espectador entra em contato com uma história simples, destituída de pirotecnia, e se vê confrontado nas entrelinhas de seu pensamento. Assim o é com Propriedade privada (Nue proprieté, 2006), produção modesta dirigida por Joachim Lafosse. No centro da narrativa, está Pascale (Isabelle Huppert, novamente conjugando beleza e talento), uma mulher de cotidiano pacato que divide a casa com seus dois filhos, os gêmeos Thierry (Jérémie Renier) e François (Yannick Renier). A residência foi entregue aos rapazes pelos pais dele, o rude Luc (Patrick Descamps), que aquiesceu com a permanência da ex-mulher ali. Entre os três, existe uma relação de profunda intimidade, que inclui o uso de um vocabulário vulgar no trato um com o outro.

Não existem grandes arroubos ao longo do transcorrer de Propriedade privada. Os personagens levam a vida de modo comum e discutem sobre questões prosaicas, sobretudo à mesa, onde eles estão em várias cenas. Naquele ambiente residencial, tudo aponta para uma harmonia inquebrável, fortalecida pelo carinho normalmente presente entre pessoas que compartilham laços sanguíneos. Pascale é um livro aberto para os filhos, que também costumam se sentir completamente à vontade para se expor em falas e atitudes. Essa proximidade toda, porém, rende um clássico efeito colateral: os irmãos acreditam ter o direito de emitir opiniões sobre qualquer decisão tomada por Pascale, especialmente Thierry, cujo temperamento forte responde pelas pequenas sacudidas no dia a dia da pequena família. Ele trata a mãe de igual para igual, e simplesmente não admite quando ela anuncia que pretende vender a casa para abrir uma pousada em parceria com o namorado.

A tensão da história provém dessa escolha de Pascale, e a faz perceber que criou filhos egoístas, para os quais o próprio bem-estar ocupa, ao menos, o primeiro e o segundo lugar de importância em suas vidas. Depois de anos de dedicação aos meninos, o que incluiu muitas anulações, eles não são capazes de demonstrar algum tipo de generosidade com o sonho da mãe de começar o seu próprio negócio. E a tal harmonia entre os três começa a sofrer rachaduras que trazem consigo alguns danos irreversíveis. Certas dissensões ferem de morte as relações humanas, e suplantá-las pode ser um esforço hercúleo, quiçá vão. Pascale se vê, então, em meio a um tremendo impasse: avançar com seus planos, para os quais conta com total apoio do namorado, ou se submeter à vontade dos filhos, que exigem que ela volte atrás da decisão de se desafazer da casa?


Ao mesmo tempo em que a relação entre Pascale e os gêmeos sofre um profundo desgaste, revelando a incompreensão dos rapazes, eles também começam a se desentender entre si. Lafosse demonstra com habilidade e sutileza essas alterações, construindo cenas quase banais em aparência, mas plenas de significado em seus subtextos, seja para a harmonia inicial, seja para o começo das dissonâncias. A sequência de abertura é uma dessas: Pascale experimenta algo diante do espelho e Thierry dá sua opinião a respeito do que a mãe está vestindo, dirigindo-se a ela como se estivesse lidando uma irmã mais velha, o que revela a grande liberdade existente entre eles e, logo depois, François entra em cena para também dizer o que pensa sobre a roupa de Pascale. Primeiramente, eles debocham da mãe para, em seguida, elogiar a sua escolha, e saem correndo pela casa como se ainda fossem duas crianças – e, no fundo, eles ainda são, para o bem e para o mal.

Outra cena simples e significativa traduz a típica intimidade entre os gêmeos, mostrando-os dividindo uma banheira enquanto ajudam um ao outro a se lavar. Esses e outros momentos básicos, dali a pouco, serão parte de um passado de um relacionamento que parecia sólido o bastante para não se abalar com uma decisão, no fundo, trivial. Propriedade privada discute, com sua trama básica, questões de ordem fundamental: a necessidade do respeito e, por vezes, do incentivo aos planos do outro, a força dos vínculos afetivos, a importância de os filhos adquirirem independência e maturidade para dar um curso às suas vidas. E tudo isso é trazido à tona por meio de um elenco que se vale de interpretações naturalistas que, em parte, são derivação direta de suas vidas particulares.

É o caso dos atores que vivem os gêmeos: eles são, de fato, irmãos (mas não gêmeos), conforme seus sobrenomes idênticos induzem a pensar. Jérémie vem trilhando um ótimo caminho na seara cinematográfica, e é o ator favorito dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, com os quais já trabalhou quatro vezes. Yannick, por sua vez, tem menos tempo de estrada, e o filme em análise é sua estreia no cinema. Huppert, veterana, também está fantástica na pele de uma mãe que reavalia seu desejo em prol da calma no lar, o que, talvez, venha tarde demais. Ao longo da história, Lafosse, também roteirista em parceria com François Pirot, exibe um bom domínio narrativo e uma capacidade de implodir o espectador por dentro, retratando contradições e negatividades da personalidade humana sem cair no erro do maniqueísmo. E, a exemplo do que costumam fazer os Dardenne, em títulos como O silêncio de Lorna (Le silence de Lorna, 2008), não entrega o final da história, uma tragédia em voz baixa, de bandeja, preferindo deixá-la aberta a inferências, tão amplas como seu último e maravilhoso plano-sequência.

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