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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Holy motors e o embaralhamento da lógica


,o Sr. Oscar (Denis Lavant) é um animal holometábolo. Desprovido de uma carapaça única que lhe possa assegurar uma identidade perene, ele transita e transmuta o tempo todo, em um esforço constate de autorreinvenção que funde as próprias bases do conceito de identidade. Em sua limusine branca, encontra-se o seu camarim, que lhe oferece um baú de possibilidades que ele aproveita e apresenta a cada vez que sai dela para as ruas movimentadas de Paris. Com uma série de encontros agendados para um único dia, ele encarna todo tipo de personagem, expondo várias facetas e suscitando o questionamento martelante: quem é aquele homem? Ele é todos, todas e nenhum. Ele é qualquer um e não é ninguém. É uma idosa que carece de esmolas, é um adepto de combates tecnológicos, é um ser que ama as profundezas podres dos esgotos, é um milionário em estado terminal, é um assassino de aluguel que precisa vencer o seu próprio ego.

São muitas as suas peripécias, todas devidamente registradas pela câmera inquieta e faiscante de Leos Carax e que compõem o argumento de Holy motors (idem, 2012), que marca o retorno do diretor às filmagens de um longa após um hiato de 13 anos – seu filme anterior é Pola X (idem, 1999). Com seu novo trabalho, o cineasta brinca de embaralhar a lógica e a realidade ao conceber uma jornada de câmbios incessantes de um homem a quem nunca se conhece em sua inteireza. Talvez a única certeza que se possa ter a respeito do protagonista é que ele seja a mudança em pessoa – até mesmo seu nome, citado anteriormente, torna-se uma dúvida à medida que o dia transcorre e ele vai se transformando em outro e outros. Compreender totalmente, porém, está muito longe de ser necessário em um filme como esse. Carax instaurou um mundo à parte, em que convenções de ordem real, social e até mesmo cinematográfica não têm a menor importância. Ao se propor a apresentar muitas faces de um mesmo homem, o diretor também traz muitas faces para o filme em si, que brinca de ser drama, suspense, musical, ficção científica e tem uma ou outra tirada e cena cômica – sobra espaço até mesmo para uma pitada de cinema trash, perceptível na cena em que o Sr. Merda – uma das encarnações do protagonista – morde a mão de uma assistente de fotografia.

Questionam-se limites em Holy motors, a ponto de nascer uma séria dificuldade em classificar o filme ou até mesmo parametrizá-lo. A produção é o inferno dos cartesianos e o apogeu dos aleatórios e instáveis, que podem se ver refletidos na figura permanentemente oscilante do protagonista, que coloca em discussão até mesmo a noção de personagem e, consequentemente, de interpretação e encenação. Afinal de contas, não estamos encenando o tempo todo? Simulamos emoções e reações, nem sempre por má fé ou canalhice premeditada mas, muitas vezes, porque nem mesmo sabemos como expor e traduzir tudo o que sentimos. E, ao nos entregarmos à empresa de nos mostrar ao outro, acabamos por forjar involuntariamente uma imagem que concebemos de nós mesmos, assim como temos uma imagem do outro que só nós temos e o outro, de si mesmo, tem uma imagem que é só dele. Estamos em um mundo espelhos e esquadros que, no afã de medir e refletir o real, acaba por deturpá-lo e recriá-lo. E ainda há que se lembrar que nossos próprios sentidos se revelam armadilhas potentes em nosso acesso à realidade. Mediados por eles, podemos ler o mundo de uma maneira só nossa, e se torna extremamente difícil delimitar onde termina o real e começa a nossa concepção acerca dele. Na figura de seu protagonista, vivido com brilhantismo com Lavant, onze vezes diferente, Carax erigiu um moumento à incerteza e à procura de uma espécie de diapasão da existência.


Cada um pode ler Holy motors como quiser, afinal. O espectador tem a sua frente um filme desapegado de eixos paradigmáticos, de prevalência imagética, uma alternativa muito eficaz à palavra em tantos momentos. Diante da insuficiência do dizer, clama-se pelo observar pura e simplesmente, extraindo-se constatações de cunho totalmente particular a partir do que se vê. O olhar, como parte da visão que é, também engana. É potencialmente perigoso se deixar levar por aquilo que se vê. Eu vejo, eu idealizo, eu construo, eu fabulo, eu fantasio. Eu-personagem: eu-maquiagem, eu-não-sou-eu. “Eu sou trezentos”. “Eu é um outro”.Perdido no mundo, eterna construção, desconstrução, reconstrução. O mimetismo, a radicalização da mudança: a metamorfose completa, enfim – de lagarta a borboleta. O desprendimento dos cânones. A deriva das sensações, a miríade das sensações, típica da sinestesia encontra o seu representante audiovisual, espargido em mil sons, cores e formas. Agora podemos ouvir cabelos ao vento, sentir a maciez e a aspereza das palavras, espalhar nosso canto azul...

Quantas vidas podem caber dentro de uma única vida? Quem é você diante do espelho? Trata-se de dois questionamentos que encerram o paradoxo da simplicidade complexa, brilhantemente abordada por Carax. Em sua passagem pelo Festival do Rio para a divulgação do filme, ele ironizou ao afirmar que seu filme é bastante simples... Em sua premissa, por vezes, ele chega a esbarrar em Cópia fiel (Copie conforme, 2010), potente e inflamada discussão sobre os mecanismos da arte e do plágio. O que responder a uma pessoa quando ela lhe pede que você a defina? O que ela pode dizer a seu respeito quando é você que faz esse pedido? Que situação... Então, somos efeito da linguagem? Eu sou o que digo ser, o que dizem de mim, o que penso ser, o que pensam que sou. O que pensam que sou? Como devo ser para que me amem? O protagonista dessa odisseia da mutabilidade talvez pudesse caminhar de mãos dadas com o de Zelig (idem, 1983). Mas, se aquele homem era camaleônico por desejo de aceitação, nosso protagonista parece estar se lixando bem pouco para o acolhimento alheio. Ele é quem bem entende e dispensa firulas como adulações e tapinhas nas costas. Encarna como quem exercita o prazer de encarnar, admitindo as consequências de ser muitos.

Quem precisa se importar com o julgamento das pessoas ao redor talvez repudie Holy motors, assim como quem procura por um cinema ancorado em postulados de gênero. O espaço aqui é de quebra, de ruptura e de constante questionamento. Não há lugar seguro, não há verdade estabelecida que não possa ser varrida por outra de status igualmente transitório. É a ânsia de se transformar, o desconforto com a sua própria condição que o impele a mil inversos e reversos. Pergunte-se mais, mas não se pergunte sobre aquilo que não tem necessidade de resposta. Carax procura a aglutinação, como quem engendra uma rapsódia de tipos e situações, em que cabe muito. Muito, não tudo. Interpretar é manter a porta entreaberta ou aberta, não escancarada. Não me venha com uma leitura físico-química de Chapeuzinho Vermelho! Mas com o muito dá pra brincar bastante. Invente o seu olhar... Em um mundo que relativiza tudo, até mesmo o conceito de relativização pode ser relativo, não? E se definir é limitar, que tal ampliar os limites da definição? Icem as velas do seu barco-alma e pule para nadar em águas profundas. Eis aqui a chance para uma experiência abissal, uma ode ao frenesi. Santos motores... Coloque sua máscara antes de voltar para casa.

10/10

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