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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O trato ácido dos bastidores do cinema em O jogador


Cinismo e amoralidade caminham lado a lado em O jogador (The player, 1992), um dos mais deliciosos olhares da sétima sobre si mesma concebidos na última década do século passado. Dirigido por Robert Altman, o longa é uma bem costurada colcha de referências ao mundinho das celebridades que transitam pelo cinema em frente e atrás das câmeras, reunindo um elenco potente e com toda a disposição para tirar sarro de suas condições. A espinha dorsal é o cotidiano de Griffin Mill (Tim Robbins), um executivo de um dos grandes estúdios de Hollywood, que lida sempre com o assédio de pseudoescritores que lhe enviam roteiros para sua avaliação. Pela posição que ocupa, ele é um dos manda-chuvas dessa indústria do entretenimento, e nem sempre se dá ao trabalho de ler os textos que lhe chegam, preferindo delegar a tarefa a terceiros. Em meio a essa saraivada diária de ideias escritas, pode até mesmo existir alguém de talento, mas seu lado pragmático e interesseiro não lhe deixa prestar atenção nisso.

Os problemas de Griffin começam quando ele passa a receber estranhas ameaças anônimas. O teor dessas ameaças, entretanto, deixa notar que se trata de um dos escritores que teve seu roteiro recusado por Griffin há algum tempo, e que deseja se vingar dele em breve, dando avisos prévios de que executará a sua desforra. A partir daí, Altman engendra um atraente enredo que se abre em narrativas múltiplas, bem ao estilo de filme painel que tanto o consagrou, sobretudo em seus últimos trabalhos. A trama de Griffin conduz a narrativa, mas não é a única que chama a atenção, visto que o protagonista circula pelas mais alta roda de celebridades, as quais têm parte de seu dia a dia revelado pela câmera engenhosa do diretor. Com isso O jogador vai se mostrando como uma espécie de filme policial metalinguístico, que revela as facetas de um homem que não está em dia com a ética e que lida diariamente com os bônus e os ônus da fama, ainda que, para o grande público, ele permaneça uma figura desconhecida.

São várias as grandes sacadas de O jogador. A primeira de todas elas está no longo plano de abertura, uma sequência de vários minutos sem cortes, em que a câmara passeia pelos espaços do estúdio em que Griffin trabalha para dar ao público um panorama do que é aquele lugar. Nesse plano, conhecemos as pessoas que ditam as regras e mexem os pauzinhos dessa fábrica de grandes produções, e o roteiro, escrito por Michael Tolkin com base em seu próprio romance, já escancara o quanto, dali para a frente, o filme será guiado por um espírito azougue. Simultaneamente, surgem os créditos, e o espectador já pode ser pego de jeito ali mesmo. Altman demonstra grande interesse em desconstruir o glamour que circunda o mundo do cinema, apresentando gente que joga sujo para alcançar seus objetivos e colocando no papel principal um anti-herói interpretado com perícia por Robbins, um ator que, por vezes, é subestimado por público e crítica – felizmente, já recebeu ao menos um Oscar, por seu nobre desempenho em Sobre meninos e lobos (Mystic river, 2003). Ele é a principal peça desse jogo de xadrez cujos peões se movimentam para onde a maré se lhes apresentar mais favorável, sem se importar em se manter rentes à correção e à probidade. Inclusive no título da obra existe essa referência ao jogo. Sendo assim, Griffin é um irresistível cafajeste, para o qual é até mesmo possível iniciar uma torcida e que, ao longo da narrativa, flerta com a impunidade por seus atos escusos.


Nesse painel de ciclos, acasos e premeditações, existe espaço para uma constelação de atores e atrizes tarimbados darem o ar de sua graça, como uma inspirada Whoopi Goldberg na pele de uma detetive que permanece no encalço de Griffin para descobrir seus podres. Alguns atores, como John Cusack e Anjelica Huston ainda dão expediente como eles mesmos, em aparições fugazes e bem-humoradas. O jogador é daqueles filmes que esbanja charme e competência de todos os envolvidos, e exibe função dúplice: além de um entretenimento que se acompanha sem que sua duração seja sentida, traz à tona uma vasta gama de reflexões pontuais sobre um âmbito de forte poder atrativo, sem falar nas reinvenções propostas pelo diretor em forma de diálogos e movimentos de câmera. O realizador nascido no Kansas e que nos deixou em 2006 sempre fez questão de destilar o seu humor ácido nas produções que levaram a sua assinatura, e aqui não é diferente.

A metralhadora giratória de O jogador não poupa quase ninguém, questionando os limites da sanha pecuniária em um mundo de astros e estrelas. Hoje, ele já nos faz falta, entre outras coisas, pela notável capacidade de zombar de seu próprio métier, exercido ao longo de anos em títulos já clássicos como Nashville (idem, 1975) e recentes como Assassinato em Gosford Park (Gosford Park, 2001). Entre os prêmios recebidos pelo filme, estão dois BAFTA: melhor diretor e roteiro adaptado, láureas muito justas para um trabalho de escopo relevante e calibre potente. Quem mais sai ganhando nessa brincadeira com os signos hollywoodianos é o público, que tem à sua disposição uma trama inteligente e ágil, com peripécias e diálogos que só poderiam ser pensados pelos grandes contadores de histórias. Sabemos que em cinema tudo é ilusão mas, ainda assim, embarcamos na proposta dos filmes. Com esse aqui é exatamente assim, e ainda sobra um bocado de verossimilhança e argúcia no tratamento dos bastidores do fazer cinematográfico. Com um talento único, Altman soube tirar grande proveito de seus anos de estrada para elaborar uma radiografia das manias e estratagemas da comunidade cinematográfica.

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