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terça-feira, 21 de agosto de 2012

A alma tomada de assalto em Fausto


A ambição e a vaidade cortejam o tempo todo a alma. De que valeria ao homem ganhar o mundo inteiro e perdê-la? Dialogando com esse questionamento, Aleksandr Sokurov concebeu mais uma adaptação cinematográfica da obra de Johann Wolfgang von Goethe, e o resultado é Fausto (Faust, 2011), que completa a tetralogia idealizada pelo diretor, composta anteriormente por Moloch (Molokh, 1999), Taurus (Telets, 2001) e O sol (Solntse, 2005). O que une o quarteto de filmes é a proposta de retratar personalidades importantes do século XX, reais ou fictícias. No caso específico da adaptação, o diretor demonstra interesse em descortinar sentimentos torpes na figura do protagonista que dá título ao longa, encarnado com magistral propriedade por Johannes Zeiler. Comerciante da Rússia oitocentista (um detalhe dissonante do texto original), Fausto tem sede de conhecimento, e suas investigações se direcionam para a procura pela alma humana.

Após um plano de abertura deslumbrante, a câmera de Sokurov focaliza as experiências de contornos científicos do protagonista ao lado de um parceiro. Diante da decrepitude de um cadáver, exposto sem qualquer reserva para o público, ele inquire sobre a localização exata dessa parte imaterial constante em cada um de nós, ao menos tempo em que se pergunta se ela verdadeiramente existe. De certa forma, essa primeira sequência com diálogos funciona como um resumo do percurso a ser desenvolvido posteriormente pelo diretor, que escolheu filmar uma versão livre do clássico literário, o que talvez seja até uma redundância – no fundo, toda adaptação é uma versão mais ou menos livre do original, uma leitura particular de quem adapta. Com isso, o realizador russo escancara as portas do questionamento e mostra um homem em estado de tormenta, cuja busca por satisfazer sua necessidade de ir a fundo em questões metafísicas o aproximará de um sujeito estranhíssimo, o Agiota (Anton Adasinsky), alguém cuja ocupação se confunde com sua própria nomenclatura.

Uma vez tendo se aproximado desse ser que aciona o paradoxo da definição imprecisa, Fausto permanecerá sendo rondado pela sua presença, como quem se vê – eis outro paradoxo – sutilmente tomado de assalto. O Agiota apresenta o mundo ao protagonista, na concepção mais ampla do termo. Leva a crer que Fausto pode conhecer o que quiser, pode ser o que quiser: não há limites para a sua vontade e a sua ganância. Diante de uma temática como essa, a obra de Goethe reflete a sua atemporalidade e Sokurov soube se apropriar muito bem da premissa, que acaba por conferir o mesmo aspecto ao seu filme. Fausto abarca emoções universais, que residem na complexa composição do ser humano e orbitam ao redor de sua mente com maior ou menor intensidade, a depender de outras circunstâncias. E a escolha se encontra totalmente nas mãos do personagem: os prazeres terrenos e a ciência do mundo ou o enlevo do espírito? Inquieto, ele procura experimentar ao máximo as possibilidades que se lhe apresentam, em contato constante com a figura grotesca do Agiota, sempre pronto a emitir aforismos sobre instâncias diversas, peremptórios como habitualmente são os aforismos.


O rigor formal de Fausto agradou o júri do Festival de Veneza, onde foi exibido. Tanto que o Leão de Ouro da edição de 2011 lhe foi endereçado, em mais uma clara demonstração do quanto a mostra é pródiga em conceder láureas a produções que verdadeiramente são dignas delas. Desde o tal plano de abertura já comentado até o último fotograma, o filme se revela estupefaciente. A assinatura coube a Bruno Delbonnel, cujo currículo apresenta títulos variadíssimos como O fabuloso desntino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d’Amélie Poulain, 2001) e Across the universe (idem, 2007) Cada detalhe foi cuidadosamente pensado, o que, vindo de Sokurov, não chega a ser uma novidade. Afinal de contas, estamos nos referindo a um diretor que prima pela beleza plástica na sua arquitetura cênica e já foi responsável por um dos exercícios de estilo mais ousados da década passada, o plural Arca russa (Russkiy Kovcheg, 2002). Sem falar na estonteante paleta sépia impressa a Pai e filho (Otets i Syn, 2003), talvez sua obra mais polêmica.

No Brasil, ele continua sendo pouco conhecido, e boa parte de seus filmes sequer chegam a conquistar um espaço no circuito. Muito provavelmente, a distribuição de Fausto foi assegurada por conta de sua vitória em Veneza. Antes, só alguns de seus trabalhos estiveram em cartaz, sobretudo nos cinemas cariocas. Ainda assim, não é todo mundo que se propõe a conferir uma sessão do filme, haja vista a horda de plateias lobotomizadas pelos anos de exposição ao modus operandi hollywoodiano. Para essa parcela do público, a lentidão dos 144 minutos do filme pode soar como um programa extremamente enfadonho, que exige um tempo que muitos já não se dispõem mais a despender – há pessoas que sequer são capazes de esperar alguns minutos por um download...

As imagens de Fausto apresentam certas distorções, propositalmente colocadas como forma de assinalar a atmosfera de pesadelo que invade o cotidiano do protagonista. Sua odisseia em dupla com o Agiota é uma ponte para os males do mundo e o caminho é sempre percorrido em meio a muitos cotejos e elocubrações. Também nisso reside o fascínio da obra, que se coaduna perfeitamente com os exemplares anteriores do diretor, um obstinado pela captura de instantâneos de homens tomados pela sanha do poder, que se traduz em múltiplos focos e objetos de perseguição. De fato, não é fácil abraçar o convite de Sokurov para adentrar os meandros do coração e da alma atribulados de Fausto, mas vale ao menos tentar um mergulho na obra, que incorpora cenas lúgubres e dantescas – como a do banho nas termas, em que o corpo do Agiota é inteiramente mostrado e a estranheza do personagem se acentua- e, também por essa razão, está longe de ser palatável. Parte da crítica se referiu ao filme como vertiginoso, o que não deixa de ser uma verdade, sobretudo nos instantes espamódicos da câmera que atravessam a narrativa pouco ortodoxa. Controvérsias à parte, Sokurov aciona a esfera espiritual do espectador com Fausto, e ostenta novamente a sua diligência inserindo filigranas de reflexão e pontuando a sua leitura de um texto mítico com passagens emblemáticas.

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