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terça-feira, 24 de abril de 2012

Jovens adultos, o côncavo e o convexo do espelho


“Sei lá / Tem tanta coisa que a gente não diz / E se pergunta se ainda é feliz / Com o rumo que a vida tomou, no trabalho e no amor / Se a gente é dono do proprio nariz / Ou se o espelho é que se transformou / A gente não se reconhece ali”

As palavras da canção Já é, entoadas por Lulu Santos, caem como uma luva para Mavis Gary (Charlize Theron), a protagonista de Jovens adultos (Young adult, 2011). Ela já passou dos 30 há tempos, mas demonstra ignorar essa verdade em cada uma de suas atitudes inconsequentes. Sua vida tomou rumos que não são exatamente os que ela esperava ou desejava, e isso lhe causa uma extrema apatia: ela dorme longas horas, assiste a várias bobagens na televisão e só se importa com seu cãozinho, apesar de tratá-lo muito mais como um bicho de pelúcia do que como um animal. A sacudida do seu cotidiano sem graça de ghost writter é provocada por um simples e-mail. Buddy Slade (Patrick Wilson) é o autor da mensagem, que contém fotos de sua filha recém-nascida. Mavis não é a única a receber as fotos, pois ele as enviou para todos os antigos colegas dos tempos de escola. No entanto, ela é a única a reagir como ofendida diante das imagens e a decidir voltar à sua antiga cidade para ver essa história de perto.

A premissa do longa denuncia levemente os nomes envolvidos em seus bastidores. Trata-se de uma nova parceria entre Jason Reitman e Diablo Cody, a dupla vitoriosa de Juno (idem, 2007), que também tinha relação com o ambiente escolar, embora este tivesse relação mais direta com o assunto. O reencontro do cineasta com a roteirista possibilitou a concepção de mais um filme pontuado por tiradas de humor negro e estrelado por uma protagonista cínica e muitas vezes desbocada, que, ainda assim, consegue estabelecer algum tipo de empatia com o público. Com Jovens adultos, o diretor dá continuidade ao que vem se demonstrando a tônica de sua obra: examinar de perto tipos detestáveis, mas cheios de humanidade e verossimilhança. Nas canalhices de seus protagonistas, somos capazes de enxergar um pouco de nós mesmos, o que permite que perdoemos parte ou todos os desvios praticados por eles. Mavis é totalmente mexida com a notícia de que seu antigo namorado se tornou pai, e coloca na cabeça que precisa ter volta o seu homem, sem se importar com o fato de, além de ser pai, estar muito bem casado com Beth (Elizabeth Reaser), uma simpática e pacata dona de casa típica do Minesota.

O lugar não traz boas recordações a Mavis, e é péssimo para ela constatar que todos ali parecem estar com a vida mais organizada do que a dela, embora boa parte dos moradores locais a considerem uma estrela pelo ofício que exerce. E ela faz questão de posar de importante, bancando a ofendida quando vai a uma livraria e vê os livros que escreve em uma bancada de ponta de estoque. Nem mesmo oferecendo o seu autógrafo, que, segundo ela, valorizaria o produto, o vendedor parece acreditar no sucesso das vendas. Esses pequenos momentos vão mostrando para a personagem que o tempo passou, mesmo que tenha sido à sua revelia. Nem Buddy nem qualquer outro personagem é o mesmo de anos atrás, ao passo que ela insiste em adotar uma postura de recém-saída da adolescência. Guardada as devidas proporções, ela age e pensa como uma espécie de alter ego de Cody, muito mais do que Juno no filme homônimo. Por mais descolada que seja, Mavis quer e precisa de uma vida ordeira, comum, e só consegue enxergar essa possibilidade na figura de Buddy, que não corresponde mais às suas investidas. E é duro observar a personagem dando murro em ponta de faca a cada nova tentativa de enredá-lo em sua teia. Até que caia a sua ficha, ela vai colecionando gafes dignas de causar vergonha alheia, gerando uma vontade do público de intervir em suas atitudes constrangedoras.



É claro que o roteiro, distante de esquematismos a maior parte do tempo, auxilia muito, mas o mérito de trazer veracidade a Mavis é muito mais de Theron. Totalmente à vontade no papel, ela faz misérias interpretativas calcada no jogo da oscilação entre a detestabilidade e o compadecimento. Por mais que tenha uma penca de defeitos, a atriz não torna a personagem indefensável, fazendo-nos ver que, por trás de sua postura equivocada, esconde-se uma mulher no apogeu de sua carência, extremamente vulnerável. Infelizmente, a Academia esnobou a composição da atriz, não concedendo sequer uma indicação ao seu desempenho fantástico de garota do tempo que se foi. Com Mavis, ela deu nova prova de sua grande versatilidade, apoiada em caras e bocas que não resvalam para o caricatural e demonstram a agrura de uma mulher sem lugar, que tateia seu próprio espaço e permanece sem eira nem beira. Nem de longe ela lembra personagens pesados como a Aileen de Monster – Desejo assassino (Monster, 2003) e a Josey de Terra fria (North country, 2005). Talvez o segredo de suas indicações ao Oscar por esses papéis, e a sua vitória pelo primeiro, tenha sido o fato de ela ter se enfeiado. Em Jovens adultos, ela surge exuberante e charmosa, uma irresistível cafajeste.

O humor politicamente incorreto, que o diretor vem cultivando desde Obrigado por fumar (Thank you for smoking, 2006) fica por conta da amizade de Mavis com Matt (Patton Oswalt). Ele é deficiente físico – portador de necessidades especiais, no jargão das relações artificiais – e isso rende piadas infames, por vezes agressivas. Cody parece ser daquelas que perde o amigo mas não perde a piada, a julgar pela sua escrita como roteirista. De qualquer modo, não há como negar a honestidade de boa parte dos diálogos, que se parecem muito com o que muitos de nós poderia dizer informalmente entre amigos ou em off durante alguma confissão. E todas essas características já se tornaram marca registrada do diretor, respondendo pelo charme de sua obra, para alguns, e pelo seu tédio, para outros. De qualquer modo, dizer que Jovens adultos passa perto de ser um grande filme não é exagero. Por mais que um outro clichê surja discretamente ao longo da narrativa, cada um deles é perdoável porque a obra consegue ganhar o público em seus primeiros minutos. E, em seu conjunto final, o filme se traduz como um benvindo sopro de vitalidade veraz em tempos tão cínicos.

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