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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A simplicidade a serviço de uma boa história em Um conto chinês

O cinema argentino é corriqueiramente relacionado às histórias simples, que falam mais ao coração e à alma do que aos olhos ávidos de visuais estonteantes. Nessa esteira, pequenos grandes filmes já puderam ser degustados pelo público brasileiro, e Um conto chinês (Un cuento chino, 2011) vem se somar a eles. Como acontece com vários outros dessa nacionalidade, a trama do longa-metragem de Sebastián Borensztein se sustenta por meio de acontecimentos simples, mas que são capazes de mudar meios de vida e perspectivas de quem passa por eles. Os protagonistas são dois homens de comportamentos e realidades distintas e, muitas vezes, antagônicas. Roberto (Ricardo Darín) é um rabugento dono de uma loja de ferragens que implica com tudo. Ele é capaz de perder o dia ao descobrir que a quantidade de parafusos contidos em uma caixa não condiz com a que está indicada na caixa.



Essa personalidade irritadiça do personagem passa a ser moldada depois de seu cruzamento, ou melhor, trombada, com Jun (Ignacio Huang), um chinês desesperado que chegou a Buenos Aires sem saber uma palavra de espanhol. Sensibilizado com a crueldade que o rapaz sofre, ele decide ajudá-lo, mas a barreira linguística entre os dois gerará uma série de conflitos e impasses que movimentam a narrativa e demonstram um roteiro muito bem escrito pelo próprio diretor. Tudo começa de um modo insólito: na primeira cena, Jun e sua namorada estão prestes a se tornar noivos durante um agradável passeio de barco. De repente, cai uma vaca do céu e causa uma tragédia na vida do rapaz, que, pouco tempo depois, estará em solo argentino disposto a refazer sua vida. A grandeza de Um conto chinês está em se fixar sobre os laços de amizade que vão se estreitando entre Roberto e Jun, mesmo com as circunstâncias adversas que os circundam. Eles confirmam o provérbio bíblico que diz para se amar o amigo em todo tempo e que na angústia nasce o irmão.

Foi uma grande ideia de Borensztein apostar na dificuldade de entendimento literal e metafórico entre os personagens. O fato de um não entender absolutamente nada do idioma do outro promove desencontros às vezes engraçados, e acentuam a personalidade difícil de Roberto, que é metódico o extremo e não suporta facilmente a desordem que Jun traz à sua rotina sempre tão sob o seu controle. Além da contagem de parafusos, ele repete diariamente ritual de dormir às 23h, mesmo que já esteja com sono antes disso. Para ele, descolar-se dos seus hábitos é como dar um salto no escuro, mas seu novo amigo o faz ver essa necessidade, ainda que ele demore a admiti-la. Com isso, demora também a perceber o grande amor que despertou em Mari (Muriel Santa Ana), uma mulher simples que parece ser a única capaz de entender suas manias. Durante o transcorrer do filme, percebe-se o quanto aquela amizade é enriquecedora para ambos. Amizades podem ser mesmo assim, como pontes para o mundo. Ainda que não possam perceber de imediato, Roberto e Jun têm muito a aprender um com o outro.



Chama a atenção também a qualidade do roteiro de Um conto chinês. As pontas que vão sendo colocadas nos primeiros minutos vão sendo muito bem amarradas com o prosseguimento da narrativa, sem soar excessivamente didático e contribuindo para que se demonstre orgânico e fluido. O filme só tem a reforçar a onda de prestígio que o cinema argentino tem vivido há alguns anos, bem como ratifica o carisma de Ricardo Darín como intérprete. Por mais que seu personagem seja uma grande resmungão que vê a vida com olhos austeros, é quase impossível não se deixar levar por toda a sua humanidade. Suas repetições chegam a ser cômicas, involuntariamente risíveis diante da condução ligeira que o diretor dá a elas, e ajudam a compor seu modo de agir para além de esquemas e enviesamentos. Jun, por sua vez, também não se restringe ao arquétipo do oriental ligado a tradições milenares, e conquista pela simpatia, pela prestatividade e pela gratidão que sente pelo amigo que o ajuda em meio às vicissitudes.

A comunicação entre eles se dá mormente por gestos e expressões faciais. As conversas, sempre raras, são mediadas por um entregador de um restaurante que sabe falar chinês. Nos instantes de folga do rapaz, Roberto faz dele seu intérprete para se dirigir a Jun, a quem tenta encaminhar para sua família custe o que custar. As sequências que mostram esses diálogos mediados são uma mescla de sutileza com diversão, que comovem pelo que têm de tentativa. Um conto chinês também vale pela capacidade de apontar para a necessidade do diálogo como fonte de entendimento: ainda que as fronteiras linguísticas estejam ali, elas podem ser suplantadas. Com isso, o filme também debate, ainda que indiretamente, a questão da dificuldade de comunicação nos dias atuais. Os ouvidos estão surdos para as vozes alheias, e só parecem ouvir os sons produzidos pelos seus próprios donos. A carência de vínculos afetivos ans grandes cidades está inscrita nessa história, e a crença na existência de pessoas que são capazes de se doar ao outro, ao menos um pouco. Nesse sentido, Borensztein nos outorgou um filme bastante esperançoso.

Entre várias tentativas de “despachar” Jun de sua vida, Roberto vai aprendendo pequenas e importantes lições, que o fazem ver que a vida pode ter muito mais sabor se se descontam os desajustes que a atravessam. Por muitas vezes, ele tenta entregar o chinês aos parentes que o rapaz procura, mas equívocos da embaixada atrapalham o êxito da empreitada. Em determinado momento, é Jun que vai retribuir a grande ajuda de Roberto, livrando-o de uma situação de apuros, assegurando a validade da teoria que preceitua que gentileza gera gentileza. E a paixão de Mari por Roberto também acaba encontrando um rumo, garantindo a inserção de romantismo da história, assim como a sua leveza. A exemplo de tantos outros exemplares de sua pátria, Um conto chinês é um filme de revoluções interiores, que pede licença para entrar no coração do público e ali permanece para quem se deixar fisgar por sua forma e conteúdo adoráveis.

2 comentários:

  1. Grande texto, Patrick! Gostei muito do filme, não na mesma intensidade que você. Mas achei muito divertido e bem produzido, e teu texto é sensacional! Parabéns!

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