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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O tráfego pelos recônditos sombrios da desforra em A pele que habito



A vingança contra um ato desonroso é o grande tema de A pele que habito (La piel que habito, 2011), décimo oitavo longa-metragem da carreira de Pedro Almodóvar. Ele, que passou a assinar suas obras apenas com seu sobrenome, já há muito se tornou uma grife para o cinema: o público vai às salas escuras conferir qual é a nova estripulia do diretor. Ir ao encontro do espanhol é sempre correr um risco delicioso, é caminhar na corda bamba entre o encanto e a decepção. Felizmente, na maioria esmagadora dos casos, o encanto prevalece. Anunciado como a incursão de Almodóvar pelo terror, A pele que habito também é seu reencontro com Antonio Banderas depois de um hiato de 21 anos. A soma desses dois elementos à própria assinatura do diretor são mais do que suficientes para chamar a atenção de todos, mas ele reservou muito mais para quem conferir seu novo trabalho.

Na verdade, o filme é muito mais um suspense de tirar o fôlego que propriamente um terror. Trata-se de uma adaptação de Tarântula, livro escrito por Thierry Jonquet, que o cineasta faz questão de dizer que não mantém fidelidade ao original. O centro nervoso de toda a ação se encontra na figura poliédrica de Robert Ledgard (Banderas), um cirurgião plástico que consegue criar uma pele artificial em laboratório. Essa pele é extremamente fina, mas muito resistente a agressões, e acaba sendo uma forma de compensação pela perda traumática de sua mulher, que sofreu graves queimaduras em um acidente. Entretanto, essa mesma pele ganhará uma utilização algo bizarra em determinado momento da trama, que exige do espectador uma certa atenção, já que o roteiro escrito pelo próprio diretor apresenta certos índices de não-linearidade, sendo uma das tais estripulias aprontadas por ele dessa vez. Ledgard mantém cativa em sua linda mansão a bela Vera (Elena Anaya), uma mulher que apresenta encanto e enigma na mesma proporção. Está nela a chave do grande mistério a ser revelado no filme, que responde pela motivação da vingança de Ledgard.

É muito importante lembrar que, ao mesmo tempo em que esse não é um Almodóvar típico, muitas das suas paixões cinematográficas estão embutidas em A pele que habito, assim como o desenvolvimento algo folhetinesco da trama. O diretor tem o raro dom de converter passagens de certa aura kitsch (um termo esnobe para cafona, frequentemente associável a ele) em pura arte e devaneio. Aqui, não é diferente, e isso tem sempre um sentido positivo em sua obra. Não faltam momentos de puro êxtase pela imagem, especialmente por conta da presença impávida de Elena Anaya com sua personagem em cena. Graças a seu talento, a atriz faz de sua Vera uma personagem riquíssima, da qual não se pode tirar os olhos cada vez que ela aparece. Ainda mais depois que uma tremenda surpresa que a envolve é revelada, e tira o fôlego do público. Por isso, o fascínio que ela desperta em Ledgard é absolutamente compreensível, bem como o que um outro personagem exótico fantasiado de tigre, de curta aparição, sente ao conhecê-la.



A tal vingança que permeia a trajetória de Ledgard é contra o rapaz que ele crê ter estuprado a sua única filha, Norma (Ana Mena), uma jovem que é grande vítima das circunstâncias. Não por acaso, o trailer a apresenta como um exemplo de pessoa que nasce com má sorte, característica que se justifica pela tal violência sexual praticada contra ela. O tal responsável pelo ato é Vicente (Fernando Cayo), um rapaz que tem sua vida colocada de ponta cabeça depois do cruzamento de seu caminho com o do cirurgião. Aliás, é estupefaciente perceber a correlação que existe entre ele e Vera, a qual vem à tona depois de certa altura. A maneira pela qual Ledgard se vinga de Vicente é inusualíssima, e ajuda a trazer novamente para discussão um dos temas-fetiche de Almodóvar: a sexualidade truncada. Todavia, ir além no comentário sobre esse aspecto do filme é desvelar parte do recheio de uma trama cuidadosamente elaborada pelo espanhol, que sabe como poucos exercitar um estilo provocativo que amadurece a cada novo trabalho. Com mais essa produção, é como se se pudesse observar que ele vem depurando um estilo que apresentou desde o início de sua carreira, com cada vez mais requinte e intensidade dramática.

A forte presença feminina – habitual na filmografia almodovariana – se completa com Marilia (Marisa Paredes), a governanta e fiel escudeira de Ledgard, por quem é capaz de qualquer coisa, incluindo a conivência com o cárcere privado em que ele mantém Vera, a grande cobaia de seus experimentos. Sua devoção ao patrão é demonstrada em vários momentos, e sua personalidade algo sombria é dissecada paulatinamente, à medida em que as camadas que a envolvem vão sendo retiradas. A própria atriz comentou que esse é o papel mais rico que Almodóvar lhe confiou, e que lhe permitiu enveredar por um caminho diferente das musas que ela habitualmente interpreta nos filmes do diretor, como a Huma Rojo de Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, 1999), uma das seis colaborações entre eles. De fato, a atriz, atravessada pelo trabalho do tempo, exibe uma personagem densa e distinta do que costuma fazer no universo mágico do diretor, e essa é mais uma das demonstrações de qualidade e versatilidade de ambos. Nas mãos de Marilia está mais um dos mistérios desvendados no filme, que tem seus 120 minutos de duração passados com a sensação de terem sido muitos menos. Entretanto, o destino não é muito generoso com ela, e essa constatação se dá de modo entristecedor. E seu título, aliás, é um caso à parte. Há uma grande metáfora inscrita nele, que se refere a todas as pessoas. Cada um de nós habita uma pele, e é sob ela que podemos nos transformar e nos reinventar. Ledgard se reiventa e reinventa a outro. Vera é reinventada.

Apesar de ser um suspense carregado de densidade, A pele que habito tem certos instantes de ironia, e a bizarrice típica de Almodóvar também encontra espaço. O tal personagem vestido de tigre mencionado anteriormente é uma das invenções do cineasta dessa vez, já que ele não existe no livro. De certa forma, ele é a piada que oferecida nesse filme, que vai ao encontro dos brasileiros, por trazer uma menção espirituosa ao carnaval baiano, num insight totalmente improvável ao clima construído pelo roteiro e pela direção até ali. Entretanto, tudo cabe perfeitamente ao filme, que é sempre temperado por boas reviravoltas, e ajuda a manter Almodóvar na contramão de tantos outros diretores de seu continente, contemporâneos ou não, que privilegiam os acontecimentos no plano psicológico de seus prrotagnistas. Aqui, a ação flui totalmente, em uma rotação um pouco menos acelerada mas, nem por isso, maçante. A grande verdade é que essa obra atesta a capacidade de Almodóvar de procurar novas configurações para seguir revisitando territórios que ele ama explorar, com cores mais sóbrias e frias dessa vez. As sequências finais, que eletrizam até defunto, cooperam para a proferição de uma sentença: Almodóvar percorre caminhos intrincados e promove reviravoltas como quem passeia pelas suas velhas obsessões para inebriar e suscitar solavancos na plateia.

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