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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

À prova de morte, o vale cíclico de um cineasta da colagem



Educado por um punhado de filmes que saciaram seu apetite cinéfilo, Quentin Tarantino é reconhecido, desde o início de sua carreira, como um diretor dado a muitas referências. Há quem o considere original pela forma como ele costura as referências que apresenta. Há também quem o julgue um embuste por se restringir a citações de outros filmes sem imprimir sua própria subjetividade. A despeito dessas concepções antagônicas, À prova de morte (Death proof, 2007) vale ser visto, mesmo que a motivação seja apenas a curiosidade. O filme dispensa um contato prévio com a obra de Tarantino, mas é inegável que seus trabalhos pregressos sirvam de fundamentação e diálogo para este aqui.

Antes de mais nada, é importante saber que À prova de morte está dentro de um projeto conjunto com outro diretor. Tarantino se uniu a Robert Rodriguez para dirigir uma dupla de filmes sob o título Grindhouse. A ideia básica era prestar uma homenagem aos filmes B que compuseram a juventude de celuloide de Tarantino, e que também sempre aprouveram a Rodriguez. Dentro desses espírito, cada um dirigiria um filme, e ambos seriam apresentados em uma mesma sessão, como acontecia décadas atrás, mais especificamente as de 30 e 40, verdadeiras origens desse tipo de prática. O conceito de filme B, aliás, sofreu uma certa mudança com o passar do tempo, e hoje é empregado em um sentido mais amplo. A começar pela associação com o baixo orçamento, a ideia de filme B foi reinterpretada, e hoje é erroneamente aplicada a qualquer filme de custo irrisório e ausente de astros e estrelas. De certa forma, Tarantino e Rodriguez procuraram resgatar a proposta inicial. Enquanto o primeiro trouxe À prova de morte, o segundo concebeu Planeta Terror (Planet Terror, 2007).

Descontado o anacronismo do termo, o filme de Tarantino deve ser encarado como um tributo a essa era áurea das sessões duplas, e pensado como uma grande brincadeira proposta pelo diretor, o que não o isenta de ser alvo de críticas. O que se tem aqui é a “saga” de um grupo de amigas sem rumo por estradas tão curvilíneas quanto suas anatomias que, tanto literal quanto metaforicamente, não chega a lugar algum. O filme é uma grande redundância, que não chega a ser empolgante em suas quase duas horas de duração. A câmera irrequieta do diretor flagra o percurso sem eira nem beira do trio de garotas liderado por Jungle Julia (Sidney Tamiia Poitier) cuja maior diversão é se entregar à esbórnia no cair da noite, revelando suas vontades reles e sua procura por confusão. Porém, no encalço das três, está Stuntman Mike (Kurt Russel), um dublê de filmes de ação que, de posse de sua máquina envenenada, faz miséria pelas estradas, sedento de aniquilar mocinhas incautas.



Com esse fiapo de argumento, Tarantino desenvolve um filme de cores vibrantes e uma fotografia que ajuda a compor um ambiente de frenesi constante. À prova de morte gira em torno unicamente dos passeios do trio de amigas pela noite, e pela perseguição que Mike passa a impor a elas por longos quilômetros. É simplesmente isso, como se o cineasta não tivesse mais nada a dizer ou a fazer, e optasse por resumir seu filme a um vale cíclico de colagens, que trazem para a tela uma espécie de tributo às suas paixões. Não é de hoje que ele faz isso. Na verdade, toda a sua filmografia pode ser entendida sob essa perspectiva: seja qual for o filme a que se faça menção, lá estará um punhado de referências a outras obras. Muitas vezes, as citações são menos perceptíveis, já que Tarantino sempre fez questão de assistir a títulos remotos e obscuros no tempo em que trabalhava como atendente de uma videolocadora.

Há quem aprecie seu tipo de cinema. Outros, porém, podem ficar mais ressabiados com ele. O fato é que À prova de morte não abrange um público tão amplo assim. Suas peripécias de diretor atenderão muito mais à demanda de um público com uma queda para o trash, outro termo que, revestido de certo preconceito, é repelente para uma certa parcela dos espectadores, na qual se inclui o autor desse texto. Entretanto, cabe afirmar a legitimidade de uma escolha ou preferência por esse estilo de cinema, tanto como a sua recusa. A sensação básica despertada por À prova de morte é de se estar caminhando em círculos, sem que nada realmente se desenvolva ou se sustente por tantos minutos. Com menos de uma hora de filme, a plateia pode se sentir extenuada com tamanha redundância e vazio. Até mesmo os diálogos, que poderiam ser a tônica do filme, são anêmicos e de certo coloquialismo de mau gosto.

No Brasil, o filme levou um bom tempo para ser distribuído, e a intenção de Tarantino e Rodriguez não foi concretizada. Planeta Terror chegou aos cinemas em 2007, sendo exibido sozinho, ao passo que À prova de morte só passou pelas salas de exibição em 2010, resultando no fracasso do projeto idealizado pela dupla de diretores. Na verdade, o que houve foi um grande atraso na sua distribuição pela Europa Filmes, o que resultou na perda dos direitos de exibição do filme no país, que foram comprados pela PlayArte, a qual, enfim, apresentou o filme nos cinemas. Contudo, depois de conferir o que o diretor fez aqui, entende-se que o filme não tem sobre os três anos de atraso o menor efeito compensatório. A costura tarantinesca, que funcionou tão bem em Kill Bill — Volume 1 (Kill Bill — Vol. 1, 2003) e Kill Bill — Volume 2 (Kill Bill — Vol. 2, 2004), revelou-se incipiente neste À prova de morte, cujo conjunto está fadado à descartabilidade.

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