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sábado, 20 de fevereiro de 2016

QUINTETO DE OURO: Brian De Palma

A partir de hoje, inauguro uma seção aqui no blog. Como as letras em caixa alta evidenciam no título da postagem, ela se chama Quinteto de Ouro e vai reunir os cinco melhores filmes de um diretor, um ator, uma atriz, um tema ou uma década. É um projeto não muito original, que não foge do esquema de listas no fim das contas, mas isso é mero detalhe. E, obviamente, os melhores citados serão sempre de acordo com minha preferência pessoal, já que melhores é sempre igual a meus preferidos.

A ideia é publicar um Quinteto de Ouro por mês, se assim minha rotina permitir - o que eu acredito que sim, porque tento estabelecer metas plausíveis em se tratando de quantidade e periodicidade. Outro adendo importante: na maioria das vezes, vão aparecer filmes pelos quais meu nível de amor é muito próximo, então nada de enlouquecer tentando dispô-los em ordem de favoritismo; o critério é a ordem cronológica mesmo.

Para começar, o escolhido foi Brian De Palma, e tem um significado muito forte para mim ele ser o primeiro. Trata-se de um diretor com cuja obra meu primeiro contato não foi muito positivo, através de Femme fatale. Mas olha como a gente muda: o filme que abriu as portas de seu universo na minha vida cinéfila, revisto anos depois, virou outro, e agora está aqui, ocupando um lugar merecido. 

E, antes dessa revisita ao filme, vários outros passaram diante dos meus olhos. O segundo foi Dália negra, que também não chegou a me pegar, mas o realizador ainda pedia por uma chance. Foi então que, anos depois, ele acertou pela primeira vez comigo, e o filme era Um tiro na noite, selecionado para esse quinteto. Daí para frente, DePalma nunca mais decepcionou e mostrou que um primeiro encontro desastrado não anula as chances de o segundo funcionar muito bem. E o terceiro, o quarto, o quinto... Falando em cinco, vamos aos meus cinco mais assinados por DePalma!

1. Vestida para matar (1980)


O fascínio que De Palma nutre pela imagem está escancarado nesta obra, bem como as consequências que esse encanto origina. Apostando numa estética de falseamento do visual, ele acompanha um psiquiatra encalacrado depois que uma de suas pacientes é encontrada morta. Alguém está rondando sua vida, e a identidade desse algoz é uma verdade difícil de aceitar. O recado deixado pelo cineasta para o espectador a cada fotograma, incluindo o primeiro - um banho de chuveiro carregado de sensualidade - é simples: se outros diretores estão ocupados com a trama e os diálogos, eu estou atento ao olhar, como quem vislumbra acontecimentos pelo buraco da fechadura. 

2. Um tiro na noite (1981)


Apenas um ano depois de brincar com imagens e signos à moda hitchcockiana (o cineasta inglês, afinal, é sua maior fonte de inspiração e alvo de homenagem), DePalma resolveu trazer um engenheiro de som cujos ouvidos apurados testemunham o que parece ter sido um crime. A referência maior, dessa vez, está em Michelangelo Antonioni e seu Blow up - Depois daquele beijo (Blow up, 1966), e o tal engenheiro é vivido por um John Travolta no apogeu dos seus 27 anos. Jack Terry precisa reconstruir os ecos do que seus ouvidos testemunharam e a fronteira entre paranoia e realidade parece bastante tênue. Na década anterior, Francis Ford Coppola tentou seguir um caminho parecido em A conversação (The conversation, 1974), mas só De Palma acertou em cheio.

3. Dublê de corpo (1984)


A década de 8o foi, sem sombra de dúvida, o período de demonstração mais explícita do grande talento de De Palma como ilusionista. Mais um filme dessa época aparece na lista e endossa a conclusão: aqui, o ator de filmes B Jake Skully (Craig Wasson), claustrofóbico assumido, vê demais e se torna o típico homem errado na hora errada. Em seu caminho, surge Holy (Melanie Griffith), a libido em forma de mulher que parece ter muito mais a revelar do que as curvas de seu corpo. O plano de abertura, com Jake tentando encenar um de seus personagens, é uma bela fusão entre um plano bem feito e a apropriação do discurso metalinguístico.

4. O pagamento final (1993)


A quase totalidade dos cinéfilos elege Scarface (idem, 1983) como o preferido ou dos preferidos entre os filmes dirigidos por De Palma. Este que vos escreve é a exceção. Se é para ficar com uma parceria entre o diretor e Al Pacino, respondo sem pestanejar que a jornada de Carlitos para se livrar da lama que o cobriu no passado é muito mais instigante e em forma. Não há exagero na duração e ainda rola (mais) uma alusão à obra de um grande: a cena da descida do carrinho de bebê pela escadaria em paralelo a um tiroteio é um dos momentos mais tensos do cinema, recriação do roteiro de David Koepp (que só acertaria de novo escrevendo sobre um certo super-herói).

5. Femme fatale (2002)


De Palma entrou triunfalmente nos anos 2000 flutuando entre o sonho e a realidade, reafirmando o seu posto de artesão da imagem e do olhar que já vinha sendo assegurado nas décadas anteriores. A loura fatal que enlouquece Nicolas Bardo (Antonio Banderas) é mais um diálogo com a produção de Hitchcock, e um mergulho na banheira pode mudar toda a perspectiva sobre o que tinha se mostrado a história de uma ladra cheia de artimanhas e estratagemas. Tudo que havia soado vagabundo e pretensioso na minha primeira sessão do filme se converteu em um exercício de estilo vigoroso e memorável, ante ao qual a reação mais frequente era estar boquiaberto.

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