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terça-feira, 8 de julho de 2014

O confronto entre pureza e castração em Dersu Uzala

Houve quem dissesse que Akira Kurosawa foi o mais ocidental dos diretores do Ocidente. É uma afirmação categórica que, talvez, esbarre em contraexemplos surgidos após um exame mais detalhado dos vários realizadores do lado direito do mapa-múndi. Seria preferível dizer que se trata de um dos cineastas que mais aproximou sua obra de uma universalidade, abordando temáticas que alcançam um vasto público, ainda que sua condução possa afastar os espectadores mais afeitos ao frenesi visual e/ou narrativo. Entre tantos títulos de sua filmografia preciosa, Kurosawa nos legou Dersu Uzala (idem, 1975), em que discute a velha oposição entre os ambientes rural e citadino através de seu personagem-título, um idoso que vive como eremita nas gélidas paisagens russas, uma escolha que soa absurda para a maioria dos habitantes da selva urbana. 

De início, sabemos pouco a seu respeito, e muito do que está por vir ao longo de mais de 120 minutos de projeção é transmitido sob o filtro afetivo do olhar do capitão Vladimir Arseniev (Yuri Solomin), que relembra os anos de amizade com Dersu (Maksim Munzuk) ao retornar a um dos locais por que passaram em suas várias expedições frio adentro. Esse é o outro eixo sobre o qual o longa se baseia: a força e a importância do carinho em todas as horas. Depois de se conhecerem quase por acaso, quando o capitão precisa ser resgatado, Dersu e ele estabelecem um vínculo estreito, e logo percebem que podem contar um com o outro seja em que circunstância for. Cada qual a seu modo, eles representam polos opostos e estilos e meios de vida, mas as diferenças abissais que poderiam impedir um relacionamento saudável entre os dois produzem justamente o efeito contrário: um apego que resiste aos anos e aos períodos de distância.

Enquanto Dersu é a pureza e a liberdade para viver em contato com a natureza, Vladimir leva consigo a castração urbanoide, pensando a agindo conforme um código de restrições a hábitos simples, como sair para caçar e viver um dia de cada vez, sem ficar ansioso e preocupado com relação ao amanhã. Em alguns momentos, esses mundos distintos entra em choque, mas o que prevalece é o enorme afeto que os une, e servem para mostrar à plateia que boa parte das diferenças entre amigos pode ser conciliada em favor da continuidade da amizade. Paralelamente a essas e outras constatações que aciona, Dersu Uzala é um filme de belíssimas paisagens, inteiramente localizado fora do Japão natal de Kurosawa. Àquela altura, o diretor já tinha se internacionalizado de vez e recebido muitas críticas que davam conta de acusá-lo de negligenciar sua própria cultura. Pura bobagem. Ele sempre preferiu abraçar um cinema sem fronteiras, e isso é prova de que pode e deve ser encaixado no rol dos grandes realizadores, sem medo de exagerar.


A passagem mais marcante de toda a história, sem dúvida, é a que mostra Dersu e o capitão lutando contra uma nevasca que os acomete enquanto eles estão caminhando por uma estepe. Sozinhos naquele imenso espaço aberto, eles precisam somar suas forças e construir um abrigo. Inicialmente temeroso, o capitão é encorajado por Dersu, e eles lidam com uma temperatura baixíssima - inconcebível para cariocas e moradores de outras regiões tropicais - para dar cabo da empreitada. Aos poucos, o explorador russo vai entendendo o significado mais amplo do gesto, e os longos minutos gastos por Kurosawa na concepção da cena demonstram o seu zelo e a sua preocupação em dizer muito mais por imagens do que por palavras, embora ele também se valha de algumas delas quando os amigos declaram abertamente o quanto querem bem um ao outro.

Dersu Uzala é um gracioso convite para uma espécie de volta às origens, em que importavam os valores simples, a comunhão fraterna e o apreço pelos momentos cotidianos. Tudo isso sem qualquer traço de manipulação ou pieguice, fotografado com esmero por Asakazu Nakai e mais dois colaboradores. Para alguns, a narrativa se estende além do necessário, mas esse é um mal de que outro filme do diretor, muito mais celebrado, sofre: Os sete samurais (Shichinin no samurai, 1954), excessivo em retratar uma batalha e sua longa preparação para enfrentá-la, algo de que os fãs, certamente, discordam. O caso de Dersu Uzala, porém, é de um feliz encontro entre um roteiro bem construído, atores em estado de graça, cujas faces desconhecidas para a maior parte do público singularizam-nos e permitem que nossas memórias associem seus nomes aos seus personagens. A propósito do excelente texto, ele é adaptação do livro homônimo do capitão, o que deixa tudo com um sabor mais inesquecível. É maravilhoso saber que, verdadeiramente, houve um Dersu Uzala.

8.5/10

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