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quinta-feira, 3 de julho de 2014

BALANÇO MENSAL - JUNHO

Com um pequeno atraso, apresento o meu balanço de filmes vistos em junho. Considero este o melhor mês do ano cinematográfico, embora não tenha assistido a nenhuma produção que merecesse nota máxima. A razão de pensar assim é que não houve um só filme que fosse digno de uma nota inferior a 6.0, que considero horrorosa. A menor cotação do mês ficou com Paisà, meu segundo filme de Roberto Rossellini, que segue me devendo um filme realmente maravilhoso. A expectativa permanece para o próximo, daqui a alguns meses.

Esse junho que passou vai deixar saudades. Depois de seis meses, encerrei a saga Star wars, conferindo o terceiro episódio, o último a ser lançado nos cinemas. Segui a ordem de estreias e o resultado foi uma trama que tem sua unidade e coerência garantidas, mas agora estou órfão de uma nova série de filmes - vou resolver essa ausência dando, finalmente, uma chance para a trilogia O Senhor dos Anéis em julho, e minha opinião só vai aparecer no próximo balanço.

O tema predominante dos filmes selecionados ao longo de junho foi a amizade, encontrada nos belíssimos Conta comigo e Dersu Uzala, vistos na mesma semana. A frustração com o mesmo tema veio de última hora, com Entre nós, que encerrou o mês como um dos mais fracos dos 34 longas-metragens que passaram diante dos meus olhos em 30 dias. A seguir, a relação completa dos títulos, com notas e breves comentários:

INÉDITOS:

Longas:

1. Assassinato no Expresso do Oriente (1974), de Sidney Lumet - Não é lá muito instigante, mas um elenco desses não se reunia toda hora. Então, vale a conferida. (7.0)

2. Um lance no escuro (1975), de Arthur Penn - Hackman em uma de suas viçosas interpretações, tendo como suporte um roteiro afiado e uma direção de personalidade. Um mergulho literal e metafórico na sujeira humana. (8.0)

3. Cold fish (2010), de Shion Sono - Insanidade pura. O instinto violento que emerge depois de tantos estímulos. A realidade oferece matéria-prima para histórias como essa todos os dias. (7.0)

4. O deserto dos tártaros (1976), de Valerio Zurlini - Zurlini, o Poeta da Melancolia, vai à guerra. E o resultado não é menos que desconcertante. (8.5)

5. O serviço de entregas da Kiki (1989), de Hayao Miyazaki - Crescer e viver um novo começo, experimentar novos medos, descobrir novas habilidades, fazer amigos. A vida é isso e muito mais, como Kiki nos faz concluir em uma das animações mais fofas do mundo. (9.0)

6. Os embalos de sábado à noite (1977), de John Badhan - Entre um e outro número musical esfuziante, uma juventude oscila entre vida e morte, entre ambição e incerteza, nos quarteirões de Manhattan. (8.0)

Os embalos de sábado à noite (1977)

7. Ciao maschio (1978), de Marco Ferreri - O desconcerto do mundo sob uma ótica nonsense. Ao abrir mão do compromisso com a lógica, ideias fervem na tela e o interrogativo inscrito na parede do quarto do protagonista ecoa narrativa adentro. (8.0)

8. Corpo fechado (2000), de M. Night Shymalan - O clima soturno e a junção paciente das pontas soltas garantem uma hipnose eficaz. Daquelas histórias em que tudo se encaixa, do roteiro à direção, passando pela montagem e pelas interpretações. Sem falar nas instigantes teorias subscritas... (8.0)

9. Yojimbo - O guarda-costas (1961), de Akira Kurosawa -  Um detalhe básico dificulta a conexão com a história: o excesso de personagens. Ainda assim, vale conferir Mifune como um samurai que vive para o próprio umbigo e lida com as consequências dessa escolha. (7.0)

10. Paixão proibida (2007), de François Girard - Exibe cuidado na ambientação e na construção das paisagens, enquanto a trama em si é um típico novelão de amor e adultério. (6.5)

11. O grito (1957), de Michelangelo Antonioni - Quando há somente seres humanos envolvidos, conjugar o verbo "amar" na primeira pessoa do plural acompanhado do seu respectivo pronome oblíquo é uma arte complexa. Antonioni sempre devastador. (8.0)

O grito (1957)

12. Fervura máxima (1992), de John Woo - Haja nervos e punhos de aço para enfrentar tanto tiro, porrada e bomba. (8.0)

13. No tempo das diligências (1939), de John Ford - Oferece uma galeria de personagens marcantes e um punhado de cenas que compõem o imaginário cinematográfico para além de seu gênero. Grande acerto de Ford. (8.0)

14. Jejum de amor (1940), de Howard Hawks - A metralhadora de diálogos não para um minuto, causando uma certa tontura no espectador, que precisa ficar com os olhos fixos nas legendas. De qualquer modo, tem presença de espírito e se garante pelo enorme carisma de Grant. (7.0)

15. Contrastes humanos (1941), de Preston Sturges - Uma jornada magnífica e edificante que revela qual é a verdadeira pobreza: a de espírito, que não tem a ver com a conta bancária. No fim, arrancar um sorriso sincero de alguém é tudo que importa. (9.0)

16. Soberba (1942), de Orson Welles e Robert Wise - Não são os tempos que mudam. É o olhar dos homens que se transforma e gera mudanças no mundo, embora alguns sentimentos e situações se repitam de forma atemporal. (7.5)

Soberba (1942)

17. Consciências mortas (1943), de William A. Wellman - Quando a justiça é tão cega que enxerga apenas a verdade que quer. (8.5)

18. Melhor é impossível (1997), de James L. Brooks - Nicholson abusa dos sorrisos e tiradas sarcásticas e mostra, com sua incorreção política e manias, que todos temos um pouco de Melvin, para o bem e para o mal. (7.0)

19. Agora seremos felizes (1944), de Vincente Minelli - O esplendor do techinicolor em um musical adorável a maior parte do tempo e nem tão típico. Se visto unicamente com os olhos de hoje (um erro) pode soar ultrapassado, mas há valores atemporais inscritos em seus diálogos e canções. (7.5)

20. Pais e filhos (2013), de Hirokazu Kore-eda - Seja aqui, seja no Japão, os laços de família estão para além do sangue que corre nas veias. Um belíssimo retrato do amor incondicional. (9.0)

21. Star wars episódio III - A vingança dos Sith (2005), de George Lucas - A gênese do lendário Darth Vader. Em meio a vários combates instigantes, demostra o perigo que alguém corre quando os ditames de suas ações vêm da raiva e da ambição. Numa tela de cinema, teria sido ainda melhor. (8.0)

Star wars episódio III - A vingança dos Sith (2005)

22. Almas perversas (1945), de Fritz Lang (1945) - Um êxito praticamente irretocável. Nesta vida, ninguém está isento de culpa: a perversão é inerente a todo ser humano. Em uma mente atormentada, um grito macabro ressoa através dos anos. (9.0)

23. Paisà (1946), de Roberto Rossellini  - A mão pesada de Rossellini compromete a organicidade dos episódios. Para além dessa falta de sutileza em deixar os personagens agirem, ecoa uma certa pretensão no uso do neorrealismo. (6.0)

24. A luz é para todos (1947), de Elia Kazan  - Cinemão clássico de carteirinha, simples e direto em sua mensagem. Pode soar um tanto ingênuo após tantas décadas, mas sua defesa do olhar acolhedor não pode ser restrita a ontem ou hoje. (7.5)

25. Conta comigo (1986), de Rob Reiner - Daqueles filmes que já entram em nossas vidas para ficar, afagando o peito e, por isso mesmo, deixando o coração mais aquecido. Amigos, como viver sem vocês? (9.0)

26. Os bons companheiros (1990), de Martin Scorsese - Uma trupe de parceiros embebidos no cinismo e na amoralidade, sempre à espreita e metidos em alguma peripécia escusa. Poderia ser um pouco menos prolixo, mas o trio central garante o espetáculo politicamente incorreto. (8.0)

27. Um dia na vida (2009), de Eduardo Coutinho - Lente de aumento na sua/minha/nossa/dele(a) televisão de cada dia. Um resumo estarrecedor do que nos servem todos os dias. Controle remoto, pra quê te quero? (8.5)

28. Dersu Uzala (1975), de Akira Kurosawa - Que vontade de abraçar o velho Dersu! Caminhando bravamente pelas intempéries do rigoroso frio russo, ele nos mostra as incongruências da vida em sociedade e representa um canal para o resgate de valores como amizade, fidelidade e gentileza desinteressada. (8.5)

Dersu Uzala (1975)

29. O enigma chinês (2013), de Cédric Klapisch - Uma vida baseada na arte de bagunçar tudo e depois organizar de novo, não necessariamente do mesmo jeito que era antes. (7.5)

30. Os anos felizes (2013), de Daniele Luccheti - Luchetti flerta com o cinema italiano de décadas passadas encarando as complicações em família mais uma vez. Direto e honesto no que parecem ser as intenções da obra. (7.0)

31. O tesouro de Sierra Madre (1948), de John Huston - O ouro trazendo à tona o pior do homem. Um notável estudo sobre o afrouxamento da moral em nome de uma riqueza maldita autenticado por grandes interpretações. (8.0)

32. Sob a pele (2013), de Jonathan Glazer - Sob essa pele que habitamos, existe um mundo de sensações. Quase todas indescritíveis, apenas vivenciáveis. (8.5)

33. Entre nós (2013), de Paulo Morelli - Os lugares comuns de filmes sobre reunião de amigos e um elenco anêmico, a maior parte do tempo no piloto automático. A ressalva positiva fica por conta do bom humor de Martha Norwill. (6.5)

34. Quem é o infiel? (1949), de Joseph L. Manckiewicz - Divertida comédia de costumes que não poupa os ricos de sua própria frivolidade. Elenco afiado e charmoso em uma trama na qual descobrir o tal infiel se torna uma atraente brincadeira. (8.0)

Curtas:

O vapor Willie (1928), de Ub Iwerks e Walt Disney - A orquestra improvisada é um achado divertido, e o carisma de Mickey já era notório desde o início. (8.0)

Flowers and trees (1932), de Burt Gillett - A brincadeira de apresentar plantas e animais antropomorfizados costuma render momentos divertidos, a exemplo desta simpática sinfonia. (7.5)

O velho moinho (1937), de Wilfred Jackson - Do tempo em que a Disney adorava construir sinfonias protagonizadas pela natureza. (7.0)

O coração delator (1953), de Ted Parmelee - Perfeita ilustração do quanto o órgão símbolo da vida também é a procedência metafórica de todo desassossego e traição. (8.0)

REVISTOS:

Laranja mecânica (1971), de Stanley Kubrick (9.0)
Desconstruindo Harry (1997), de Woody Allen (8.5)

MELHOR FILME: Pais e filhos / O serviço de entregas da Kiki
PIOR FILME: Entre nós
MELHOR DIRETOR: Hirokazu Kore-eda, por Pais e filhos
MELHOR ATOR: Gene Hackman, por Um lance no escuro
MELHOR ATRIZ: Scarlett Johansson, por Sob a pele
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Max Von Sydow, por O deserto dos tártaros
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Veronica Lake, por Contrastes humanos
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Preston Sturges, por Contrastes humanos
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Jonathan Glazer e Walter Campbell, por Sob a pele
MELHOR TRILHA SONORA: Mica Levi, por Sob a pele
MEHOR FOTOGRAFIA: Luciano Tovoli, por O deserto dos tártaros
MELHOR CENA: O abraço consolador de Chris em Gordie em Conta comigo
MELHOR FINAL: Sob a pele

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