Pesquisar este blog

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Conta comigo e as amizades que nunca esquecemos

“Nunca tive amigos como aqueles que tive aos 12 anos. Jesus, mas quem tivera?!”

Dita por Gordie Lachance (Will Wheaton), a frase acima, tão singela e marcante, encerra Conta comigo (Stand by me, 1986) e resume a essência de um filme que faz muito por merecer um lugar especial no coração cinéfilo ou simplesmente daqueles que têm amigos - todas as pessoas que existem, provavelmente. Algumas amizades podem não ser para a vida toda - pelo menos, não presencialmente -, mas o sentimento fica, e relembrar momentos passados junto com grandes companheiros produz um bem danado à alma. Por meio de uma narrativa em flashback, somos transportados pelo discurso do Gordie adulto ao início de sua adolescência, que passou, em boa parte, com Chris (River Phoenix), Teddy (Corey Feldman) e Vern (Jerry O'Connell), garotos como tantos outros, com seus 12 anos, hormônios em início de ebulição e uma boa dose de intrepidez. São os personagens centrais de uma obra que toma por base um conto de Stephen King, que tem na amizade uma de suas especialidades e recorrências temáticas.  

Nos primeiros minutos das lembranças de Gordie, o quarteto se reúne em uma casa na árvore onde jogam com forte espírito competitivo, mas a partida se interrompe quando Vern diz que há um cadáver próximo à linha de trem que cruza a cidadezinha situada no estado do Oregon. Excitados com a ideia de ver de perto um corpo morto, eles decidem embarcar em uma aventura às escondidas até o local, tornando-se andarilhos por um dia quase inteiro e madrugada adentro. Está posto o mote central de uma história que se vale de um punhado de elementos corriqueiros para exaltar os laços da amizade, que superam quaisquer referências geográficas ou culturais. Conta comigo é o tipo de filme que, mesmo visto sem som ou legenda, é compreensível, justamente por conta dessa temática universal. Somos testemunhas do carinho incondicional que os garotos têm um pelo outro, demonstrado em olhares de apoio e gestos bruscos de defesa, quando é o caso. Para Gordie, aquelas amizades têm um peso ainda maior depois da perda repentina do irmão mais velho, um referencial e tanto e uma rápida participação de John Cusack.

Uma vez empenhados em ir até o cadáver, Gordie, Chris e companhia ora se divertem, ora sentem medo, ora encaram obstáculos humanos e naturais e, de alguma maneira, crescem com eles. É bem verdade que se trata de um crescimento de alguns anos condensado em poucas horas, mas nada que não aconteça por meios saudáveis. Afinal, que grande mal poderia haver em correr o máximo possível para escapar de um trem em movimento prestes a passar sobre os trilhos de uma ponte ou atravessar um mangue e ter de se livrar rapidamente de sanguessugas? Essas e outras passagens garantem o teor aventureiro do longa de Rob Reiner, que gosta de pensar as relações humanas sob um prisma acessível e capaz de gerar identificação quase instantânea na plateia. Também é dele um dos mais honestos retratos do nascimento do amor com uma roupagem popular, o divertido Harry & Sally - Feitos um para o outro (When Harry met Sally, 1989), rodado apenas três anos depois.


O elenco de protagonistas juvenis seguiu caminhos diferentes em suas carreiras. O mais triste é saber que Phoenix não foi muito longe, e sua morte precoce deixa a nítida sensação de que ele ainda conseguiria outros excelentes papéis e poderia crescer diante dos nossos olhos como um exemplo de ator de tarimba. Seu Chris é o mais carinhoso e gentil dos amigos, ainda que prefira insistir em uma aparência de durão, um mecanismo de autofesa utilizado sobretudo quando precisa enfrentar o bando de arruaceiros liderado por Ace (Kiefer Sutherland). Incrível como o talento do rapaz era inversamente proporcional à sua idade. O'Connel, então gordinho, é outro que se esbalda com seu personagem, alternando covardia e coragem suicida para satisfazer a curiosidade mórbida que motivou o passeio. Atualmente um ator bissexto de comédias, segue tendo Vern como seu melhor papel. Feldman, por sua vez, somou outros trabalhos dignos de sessões à tarde ao currículo, enquanto Wheaton esteve em pouco mais de meia dúzia de filmes, quase todos sem menor expressão. 

A verdade é que, independente dos rumos posteriores de seu elenco, Conta comigo é uma ilustração caprichada do quanto é importante ter com quem contar, exatamente o que os títulos original e nacional indicam. Poucas frases podem ter um efeito tão tranquilizador e emocionante quanto essa, ainda mais quando dita por alguém que já se tornou querido. Caminhar sozinho é sempre mais difícil. A seu favor, a história também traz o fato de que nenhum dos meninos é unidimensional. Em seus olhares e falas, está sintetizada boa parte de uma fase da vida em que tudo é imenso, para o bem e para o mal. Gordie, Chris, Teddy e Vern se amam, embora nem sempre saibam dizer isso. Quem faz a leitura é o espectador, que vê melhor por estar de fora, mas que reconhece o sentimento porque também tem os seus amigos do coração. Nas horas em que tudo o que importa é um abraço apertado, calam-se os lábios e flui a linguagem universal do carinho. Amigos, como viver sem vocês?

9/10

Nenhum comentário:

Postar um comentário