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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Mais estranho que a ficção, uma viagem além do óbvio ululante

Em sua teoria sobre o componente de ficção da literatura, Coleridge afirma que, para que o leitor possa se apropriar mais plenamente de um texto, é necessário comprar a ideia proposta pelo autor, seja ela totalmente ancorada na realidade ou não. A essa disposição em acolher todo elemento que se apresente em um texto ele chamou suspensão da descrença. Em outras palavras, tudo é permitido na literatura. Tomando emprestado esse princípio, é possível pensar em um filme como Mais estranho que a ficção (Stranger than fiction, 2006), o encontro de Marc Forster com a excelência. Por mais que o postulado de Coleridge tenha sido pensado para a literatura, ele pode ser estendido para a arte de uma forma geral. E, uma vez que se compra a ideia do filme, torna-se possível embarcar em sua viagem além do óbvio ululante, termo cunhado por Nelson Rodrigues em seu elogio da heterogeneidade. As bases do roteiro de Zach Helm estão na realidade, mas ele a ultrapassa em certa medida e revela toda uma inventividade capaz de agradar ao espectador apaixonado por premissas originais. 

A trama flagra o cotidiano de Harold Crick (Will Ferrell), um homem de vida absolutamente banal que repete suas idiossincrasias diuturnamente, numa sistematicidade que se revela como efeito colateral de uma exposição prolongada à solidão. Subitamente, ele começa a ouvir uma voz narrando os seus passos em terceira pessoa, como se ela ressoasse de um alto-falante, e que só ele é capaz de perceber. A partir daí, inicia-se um maravilhoso jogo metalinguístico, que vai se desenhando à medida que descobrimos que ele é protagonista de uma história escrita por Kay Eiffel (Emma Thompson). A voz que passa a reverberar no dia a dia de Harold pertence a ela, que decidiu matar o personagem que, na verdade, existe. O problema é que a escritora não faz a menor ideia de como conduzir a trama que criou até ao seu desfecho, ou seja, não sabe como causar a morte do protagonista que idealizou. Enquanto isso, Harold tenta encontrá-la o mais rápido possível e impedir a escrita desse fim, uma vez que a morte do personagem é também a sua morte.

Com uma sinopse tão promissora nas mãos, Forster entrega um filme esplêndido em todas as suas possibilidades, convidando seu público a viajar com ele. Na verdade, Mais estranho que a ficção representa a concretização audiovisual de uma atitude que pode ser hábito de alguns. Quem nunca se imaginou personagem de uma história fictícia e se pegou narrando os próprios passos? Para os que já fizeram isso ao menos uma vez na vida, o filme pode ganhar um sabor ainda mais delicioso, e ainda há o bônus de um elenco afiado, dando conta de seus papéis magistralmente, como se cada um deles fosse o único intérprete possível para as pessoas que passam a encarnar. A começar pelo protagonista de Ferrel: o ator costuma ser pouco criterioso em suas escolhas, mas aqui acertou em cheio. 


Além de ter aceitado um convite irrecusável, ele está magnífico na pele de um homem que sofre uma reviravolta em seu cotidiano a partir do momento em que se dá conta de que não é alguém tão comum quanto pensava. Thompson também está espetacular com ao escritora atormentada com ideias de morte, que sempre recorre à “estratégia” de matar os protagonistas de seus livros. Harold tem tudo para ser o próximo de uma lista relativamente longa de defuntos literários, por assim dizer. Ainda há espaço para um inspirado Dustin Hoffman, que dá vida a Jules, um professor universitário que ouve o relato de Harold com o pé atrás e tenta auxiliá-lo a descobrir de que história ele faz parte. O diálogo entre os dois no qual Jules revela quais livros em que Harold poderia estar que já descartou é uma das várias lufadas de bom humor arguto do filme.

O  cotidiano de Harold também é sem graça e repetitivo por conta de sua profissão. Ele é auditor da Receita Federal, e isso inclui um dia inteiro de cálculos e balanços para verificar quem está sonegando impostos, função que lhe rendeu uma excepcional habilidade em resolver contas mentalmente. É por causa de uma de suas auditorias que ele conhece Ana Pascal (Maggie Gylenhaal), a dona de uma padaria que simplesmente se recusa a pagar o percentual de impostos estipulado pelo governo. O primeiro encontro dos dois é desastroso, e ela já balança as suas estruturas com seu jeito ousado e não tão perfeitinho quanto o de Harold. Eles voltam a se encontrar mais vezes para que Harold consiga convencê-la a pagar o que deve, e isso gera um envolvimento entre ambos para além da esfera profissional, representando um renovo benvindo e necessário para o protagonista, que, devemos lembrar, tem toda a sua trajetória escrita por Kay. Ao mesmo tempo em que narra o desenrolar dos caminhos de Harold, ela é sua consciência, e compartilha com o espectador cada detalhe de seu esquadrinhamento contínuo do personagem.

Sem dúvida, Mais estranho que a ficção é daqueles filmes rico em possibilidades, e que não desperdiça nenhuma delas. Helm é feliz em não fazer de seu roteiro algo totalmente didático, e nem se dá ao trabalho, felizmente, de encontrar uma explicação plausível para a criação ficcional de Kay simplesmente exisitir. Desde o começo, somos convidados a mergulhar profundamente em uma trama que flerta com o absurdo, e essa mágica é capaz de conquistar no primeiro olhar. E, ainda que o tom impresso pelo roteiro e pela direção seja de comédia, há passagens de drama reflexivo que podem arrancar discretas lágrimas de encantamento, especialmente em uma de suas sequências finais, quando Harold se conforma em se sacrificar pela qualidade da obra de Kay. É o amor pela arte falando mais alto que vaidades ou fatores pessoais, configurando o longa como uma declaração totalmente apaixonada ao cinema e a ficção como um todo. Depois de uma sessão do filme, o espectador pode ficar se perguntando: por que eu não assisti a ele antes? De fato, é um questionamento pertinente, dada a extrema qualidade da obra, que faz brotar um largo sorriso de satisfação, expressão de quem acabou de deparar com uma das mais fabulosas apropriações do discurso metalinguístico do cinema recente.

10/10

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