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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Bunny Lake desapareceu: o Cinema brincando de esconde-esconde

Diversão comum entre crianças até há algum tempo, o esconde-esconde (ou pique esconde, como também é conhecida) surge carregado de suspense e angústia em Bunny Lake desapareceu (Bunny Lake is missing, 1965), de Otto Preminger. O realizador alemão incita as emoções do público ao deixar uma dúvida pairando no ar: estaria sua protagonista embebida em um delírio? A tal brincadeira é evocada a partir de certa altura da narrativa, respondendo pelo seu apogeu dramático. Até lá, Ann Lake (Carol Lynley) é apresentada como uma pacata dona de casa que acabou de se mudar para Londres junto com a filha, cujo apelido está presente no título, e Stephen (Keir Dullea), que parece o seu marido a princípio devido ao modo como se tratam mas, na verdade, é  seu irmão.  

Uma vez instalados na casa nova, Ann procura se adaptar ao modo de vida londrino, e o roteiro de John e Penelope Mortimer, que se baseia no romance de Marryam Modell, mostra os habitantes locais como ríspidos e voltados para seus próprios afazeres, especialmente os funcionários da escola em que Bunny é matriculada. Os problemas de Ann começam exatamente ali: quando vai buscar a menina ao final do primeiro dia de aula, constata, perplexa, que ninguém sabe dela e nem sequer a viu. Então, o questionamento apontado no início do texto ganha corpo: Bunny realmente existe ou não passa de fruto da imaginação de Ann? Para deixar a incerteza ainda mais acentuada, não vemos garotinha alguma, tendo a opção de crer incondicionalmente na verdadeira protagonista ou manter o pé atrás como o superintendente Newhouse (Laurence Olivier), a encarnação da austeridade.

O único a permanecer ao lado de Ann, corroborando todas as suas declarações, é Stephen, o que o leva a bater de frente com Newhouse em vários momentos. Assim, Bunny Lake desapareceu vai se revelando pródigo em tensão, quase não se utilizando de uma trilha sonora para despertar o sentimento. Numa das raras cenas musicadas, vemos um show da banda The Zombies sendo transmitido pela televisão, em uma sequência imediatamente posterior à de uma calorosa discussão ocorrida em um pub. É um uso inesperado de uma canção e apenas uma entre várias demonstrações do talento de Preminger, que também se vale de uma fotografia em elegante preto e branco para apresentar a dor de uma mãe que se vê cada vez mais desacreditada. No elenco afiado, reside outra notável qualidade do filme, que teria Jane Fonda no papel principal. Entretanto, Lynley provou ter sido um acerto de escalação do estúdio.


Para além de todos esses índices que apontam para uma obra memorável, o longa apresenta a tarimba do realizador para a encenação. Sua câmera percorre os espaços frequentados pelos personagens em planos-sequência belamente orquestrados, que amplificam a perseguição de Ann pela verdade e sua luta contra tudo e contra todos. Cada fotograma contribui para a alusão a um jogo cênico, cujas peças nunca se movimentam de maneira randômica, podendo revelar detalhes importantes do final da partida com total discrição. Daí a necessidade de olhos atentos, tal qual o competidor de uma partida de xadrez, sob pena de levar xeque-mate subitamente. Vale desconfiar de cada passo, seja de quem for. É uma pena que a crítica de sua época tenha esnobado o filme, e somente com o passar dos anos ele tenha alcançado o atual status de cult, a ponto de ser considerado a obra-prima de Preminger.

À medida que a narrativa avança, o clima de desconforto se acentua e atiça ainda mais o lado detetive do espectador, sobretudo aquele que gosta de se meter a encontrar a solução dos mistérios dos filmes bem antes de ela ser apresentada e fica anunciado sua descoberta aos companheiros de sessão, um tipo definitivamente insuportável. Muitos outros suspenses com premissa similar se alastraram no decorrer dos anos, mas este segue como um maravilhoso exemplar do gênero, importando cada minuto de sua execução para a chegada ao seu ápice dramático, o esconde-esconde propriamente dito. Portanto, não importa o que já se viu antes, porque um mesmo enredo se presta a mil desdobramentos, o que Machado de Assis já indicava quando escreveu que "O importante é a viagem, não a chegada". Sua frase é muito anterior ao Cinema, o que não nos impede de estendê-la a essa arte centenária através da qual obras memoráveis como Bunny Lake desapareceu podem surgir.

8.5/10

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