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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Horror e culpa misturados em Os olhos sem rosto

Inspiração clara de Pedro Almodóvar para A pele que habito (La piel que habito, 2011), Os olhos sem rosto (Les yeux sans visage, 1960), é um exemplar do cinema de horror que hipnotiza desde os seus primeiros minutos. Como os títulos francês e brasileiro entregam, o ponto de partida é uma jovem desfigurada após um acidente automobilístico causado por seu próprio pai. Respeitado cirurgião plástico, ele passa a várias tentativas de reestruturar a face da filha, procurando doadoras em potencial através de sua secretária, uma fiel escudeira que sofreu com o mesmo problema anos antes e foi operada com sucesso por ele. Assim, o realizador Georges Franju nos coloca diante de Christiane (Edith Scob), a filha; Génessier (Pierre Brasseur), o médico; e Louise (Alida Valli), a secretária. Esse trio dá o tom de uma sinfonia macabra costurada em pouco menos de 90 minutos em que a mera sugestão aflige muito mais do que o explícito. A plateia confere o rosto destruído de Christiane apenas uma vez, sob o olhar atônito de uma de suas vítimas. Pelo resto do tempo, ela usa uma máscara que lhe confere uma aparência, ao mesmo tempo, angélica e aterradora.  

Filmado em preto e branco, Os olhos sem rosto se vale de um minimalismo cênico e textual que o colocam em um patamar superior quando comparado a outros filmes de seu gênero. Até mesmo a trilha sonora é utilizada de maneira comedida, deixando que as cenas atemorizem por si só. Quando surge, vem numa cadência lenta e num timbre agudo, belamente executada e permitindo, assim, uma estranha fusão entre o terrível e o maravilhoso. Outra mescla fundamental e inesperada da história é a de culpa e frieza, traduzidas nas expressões faciais e nas atitudes de Génessier. Não se sabe exatamente em que circunstâncias aconteceu o tal acidente com Christiane, tampouco se houve intenção da parte do doutor. O que se sabe é que o sentimento de culpa o corrói e o leva a um esforço desmedido em prol da reconstrução do rosto da jovem. Louise se encarrega de ir ao centro da cidade escolher a dedo as doadoras, já que a mansão em que moram é distante de tudo. Ela se aproxima de garotas magras e de cabelos claros fingindo solicitude, e então as atrai até aquela masmorra imponente da qual nunca mais se libertam.

Génessier é um perito no que faz. Entretanto, o caso de Christiane é o mais complexo com o qual ele já deparou, o que se traduz na rejeição de seu corpo aos tecidos implantados. Assim como só a vemos com a face desfeita em uma única oportunidade, também só podemos contemplá-la com um belo rosto em uma cena, quando um dos transplantes parece ter sido bem-sucedido. Os sucessivos fracassos das cirurgias geram uma forte desesperança na jovem, que deseja a própria morte para não sofrer mais com o círculo de otimismo seguido de revés. Ela confessa tal vontade a Louise a certa altura, mas não obtém a aquiescência da secretária, sempre devotada a Génessier como alguém que jamais poderá pagar por um favor que recebeu. O interessante é saber que todo esse horror que impregna a obra não passava pela cabeça de Franju. Ele discordava da ideia de que Os olhos sem rosto fosse um filme do gênero: para o cineasta, tratava-se de uma obra angustiante. Rótulos à parte, há material de sobra na narrativa para causar ambos os sentimentos.


De todas as cenas tensas ou aflitivas filmadas por Franju, nenhuma supera a que mostra uma de suas cirurgias na filha. Tendo Louise a postos em caso de qualquer necessidade, ele começa a delinear com um lápis os contornos do rosto da jovem doadora para, em seguida, recortá-la com o bisturi. A câmera permanece estática acompanhando cada movimento e não há qualquer som diegético interferindo no ato, o que só deixa a agonia à beira do insuportável. Muitos outros filmes não iriam tão longe na sequência, interrompendo-a antes que a cirurgia chegasse à sua conclusão. É um raro momento em que o diretor vai além de somente sugerir e nos insere em um cenário que exige sangue frio, sob pena de se ver obrigado a desviar o olhar da tela. A rigidez externa de Génessier, que nunca chega a verter uma lágrima de tristeza sequer pela condição da filha encontra correspondência na face austera de Louise e contrasta com o desespero da garota, presa em seu corpo mortal e desejando o seu fim o mais rápido possível.

É possível reconhecer ainda uma atmosfera onírica em Os olhos sem rosto, sublinhada pela escolha do preto e branco. Em geral, o que se filma com essa paleta ganha um aspecto de legendário e distante de uma realidade palpável e objetiva, embora, no fundo, essa seja a condição máxima do Cinema. Mas o onirismo aqui remete à sua versão negativa: o pesadelo. Parece inevitável acabar compartilhando do sofrimento de Christiane, refém de um remorso que lhe faz tão vítima quanto o acidente. A pulsão para a morte inebria cada fotograma, e ilustra de modo tétrico o ditado popular de que "a emenda ficou pior do que o soneto". Cada vez mais, Génessier se fecha em um sentimento egoísta, anulando a possibilidade de escolha da filha. Esta, por sua vez, se decide por um extremo e, ainda que tal inclinação seja compreensível, também se mostra passível de discordância. Essa profundidade emergente de conceitos, sensações e discussões faz de Os olhos sem rosto um dos mais notáveis exemplos de uso do aterrorizante para além da simples intenção de causar medo. Um detalhe curioso é que, décadas mais tarde, Christiane é evocada em outro filme por meio da própria Scob. Em Holy motors (idem, 2012), outra personagem da atriz volta para casa após um longo dia com uma máscara verde, a serviço de uma das várias metáforas do diretor Leos Carax em uma narrativa que também trata sobre a desconstrução e a reconstrução.

8/10

2 comentários:

  1. Ótimo texto, à altura da obra.

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  2. Um texto que reflete bem essa obra singular de Franju. O filme é todo permeado por uma melancolia incômoda. Desses que não se esquece tão cedo.

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