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domingo, 27 de abril de 2014

Lidando com o peso das consequências em O pagamento final

Carlito Brigante (Al Pacino) está de volta às ruas. Após a intervenção de seu advogado e amigo de longa data, David Kleinfeld (Sean Penn, irreconhecível), ele pode virar uma das páginas de sua história e dar início ao plano de se mudar para as Bahamas e abrir uma empresa de locação de veículos. Ao menos, essas eram suas expectativas, mas deixar uma vida de crimes para trás vai se revelando uma tarefa cada vez mais difícil, quiçá irrealizável, para o protagonista de O pagamento final (Carlito’s way, 1993), como a primeira cena, na verdade, a derradeira, atesta. Então, um longo e elucidativo flashback situa o espectador quanto aos fatos que levaram o personagem àquele clímax, começando pelo julgamento que culminou com sua absolvição, a despeito da resistência do juiz em lhe conceder a liberdade. 

O que fica muito claro ao longo da narrativa do filme de Brian De Palma é que os efeitos de ser criminoso são sentidos a longo prazo, até mesmo depois que o indivíduo decide mudar de vida. É como se Carlito tivesse saído do crime, mas o crime não saiu dele. A todo momento, surgem contextos em que ele acaba voltando a fazer uso da violência ou de algum tipo de conduta ilícita para salvar a própria pele, e o roteiro de David Koepp baseado em romances de Edwin Torres é abundante em sequências explosivas e capazes de deixar a plateia com a respiração presa. Não faltam balas, facadas, perseguições e golpes desferidos de surpresa, o que torna O pagamento final uma intensa espiral de reviravoltas muito bem orquestradas, tendo Pacino como líder inquestionável. Ainda em ótima forma, ele retoma a parceria com De Palma dez anos depois de Scarface (idem, 1983).

Resultado de uma arquitetura dramática sofisticada, seu personagem é cheio de facetas, que se mostram a cada nova conjuntura em que ele se inscreve e dificultam bastante classificá-lo em herói ou bandido. Essas definições que se situam em extremos opostos eclipsariam momentos em que Carlito é um pouco de ambas ou tende mais a uma do que a outra, e interlocutores diferentes provam de atitudes e características diferentes dele. Como uma raposa velha, ele fareja o perigo a quilômetros de distância e sabe se prevenir antes que uma surpresa desagradável ou perigosa o atinja. Por outro lado, seus acessos de ternura estão reservados para alguém muito especial: Gail (Penelope Ann Miller), a quem deixou à sua espera quando foi parar atrás das grades e com quem tenta recomeçar esse romance interrompido. Nela, está uma forte motivação para que ele não tenha recaídas, mas Carlito sempre diz ter uma última vez, um último ato por vir.


Verdade seja dita, o maior responsável por levá-lo a cenas dantescas é David, cada vez mais encalacrado em suas negociatas escusas com seus clientes. Em nome da amizade e movido por um sentimento de dívida em relação a ele, Carlito aceita fazer parte de um plano mirabolante que vai pôr fim a dois inimigos de David e, mais adiante, esse ato insano sacode as bases de um relacionamento duradouro e ainda interfere na reaproximação entre ele e Gail. O advogado corrupto é uma interpretação feroz de Penn, que também ostenta um visual repelente, com uma calvície forjada e óculos de aros grossos que dão a falsa impressão de um homem moralmente ilibado. No fim das contas, com um amigo como ele por perto, Carlito não precisa de inimigos. Mas há outras figuras desprezíveis que dão as caras ao longo da narrativa, como Benny Blanco (John Leguizamo), que passa de admirador inconveniente que frequenta a casa noturna administrada por Carlito a seu maior algoz em decorrência de um orgulho (besta) ferido.

Diante de uma direção tão segura e coesa como a que De Palma apresenta, é curioso quando se descobre que ele não era o nome originalmente pensado para a função. Antes, John Mackenzie e Abel Ferrara chegaram a ser cogitados e, por mais que se possa crer no grande talento desses realizadores, O pagamento final acabou em excelentes mãos, e não seria exagero pensar que, com Um tiro na noite (Blow out, 1981) e Dublê de corpo (Body double, 1984), forma uma trinca de ases na filmografia construída por De Palma até aqui. Entretanto, se nesses filmes anteriores ele ainda exercitava um forte tom hitchcockiano, aqui ele caminha para outras direções e exibe uma capacidade de imprimir seu estilo de modo mais efetivo, ainda que permaneça um diálogo latente com seu mestre. Isso fica nítido quando se entende que Carlito, a maior parte do tempo, é o homem errado no lugar errado, embora no caso da colaboração com David seja ele mesmo que se coloca em uma situação que não lhe cabia, e Hitchcock era um especialista em filmar enredos dessa natureza.

De Palma também retoma aqui sua parceria com Stephen H. Burum, responsável pela fotografia faiscante dos ambientes, sobretudo a casa noturna, onde Carlito vivencia momentos de pura tensão compartilhada com o espectador. As variações de tons cálidos propiciadas por suas lentes excitam as retinas de um público que, a partir de certa altura, pode se ver na condição de cúmplice de Carlito, tamanho o carisma que o personagem consegue despertar. É como se o tivéssemos absolvido no início da história, quando ele foi liberado da prisão, e seus atos pudessem ser justificáveis, ao menos sob algum ponto de vista. Entretanto, os critérios definidores de certo e errado, por mais voláteis que tenham se tornado ao longo dos anos, não impedem que ele sofra as consequências de escolhas mal feitas, e o roteiro não abre mão de trazê-las a Carlito. Por volta da meia hora final, ele é perseguido em uma estação de trem, e a sequência mais eletrizante do filme acontece nas escadas rolantes do lugar, entre tiros e corridas desesperadas. Mesmo um gato de sete vidas como Carlito pode esgotar suas possibilidades em algum momento.

9/10

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