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quarta-feira, 2 de abril de 2014

12 anos, 12 filmes

Não sei dizer ao certo como e porque me tornei cinéfilo, mas consigo estipular quando. A paixão nasceu com toda a força e intensidade em 2002, quando eu ainda saía da pré-adolescência e fui percebendo que filmes podem ser grandes companheiros, além de janelas fascinantes para outros mundos, tempos e pessoas. É inevitável recorrer a alguns clichês para definir meu sentimento pelo Cinema, mas o bom Cinema também é feito de alguns bons clichês, então, não me envergonho deles. Ao longo desses 12 anos de vida cinéfila, completados em abril, minhas preferências foram se transformando, fui descobrindo novos atores, diretores, roteiristas, fotógrafos, compositores e tantos outros profissionais envolvidos nessa arte centenária, tão jovem se comparada às suas irmãs.

Um detalhe não mudou em todo esse tempo: continuo apaixonado por Cinema, com a diferença de que só faço ficar mais e mais apaixonado. De 2009 para cá, surgiu o desejo de escrever críticas para os filmes que amo, uma forma de complementar a experiência de assistir a eles e dividir minhas impressões com leitores e espectadores em potencial ou não desses filmes. Hoje, somo um total de 500 textos em que expresso o meu olhar - sempre subjetivo, obviamente - sobre os mais variados títulos, e nem sempre são os meus preferidos, embora eu continue priorizando escrever sobre filmes que considero maravilhosos, minha proposta inicial. 

Daí surgiu a ideia de reunir em um artigo 12 filmes marcantes desses últimos (ou primeiros) 12 anos de cinefilia. Precisei estabelecer alguns critérios, e o principal deles foi selecionar apenas filmes rodados a partir de 2002, peneira que deixou de fora vários xodós. O segundo recorte em que pensei foi eleger filmes que, não necessariamente, são os meus preferidos desse período, mas os que me parecem mais representativos, o que me levou ao terceiro critério: oferecer, ao mesmo tempo, um panorama da produção cinematográfica desse tempo e um painel de indicações a quem possa ter deixado passar algum (ns) deles. Os filmes estão listados em ordem cronológica, acompanhados de uma minirresenha justificadora de sua presença na seleção. No caso de filmes do mesmo ano, prevaleceu a ordem alfabética entre eles. Aproveito para dedicar os textos a todos os amigos que fiz ao longo dessa caminhada cinematográfica (permitam-me fazer um trocadilho), e espero pelas suas avaliações e comentários. É certo que cometi injustiças, mas fiquei satisfeito com o resultado, até bem mais do que esperava no início do "projeto". Vamos aos filmes:


Eternamente sua (Sud sanaeha, 2002), de Apichatpong Weerasethakul

Um jovem casal se embrenha numa floresta para uma tarde a sós. O contato direto com a natureza quase forja um mimetismo entre eles e o ambiente, mas há uma terceira pessoa que, a certa altura, interrompe aquela sincronia semisilenciosa, até então vozeada apenas pelos silvos dos ventos de monções, fenômeno atmosférico tipicamente asiático. É sobre esse prisma que se constrói o cinema do realizador tailandês de nome impronunciável. O homem no espaço que ainda não modificou, de volta a um estado de pureza selvagem, quimera da filosofia de Rousseau, não é exclusividade de Eternamente sua. De uma forma ou de outra, os personagens de seus filmes buscam algum tipo de plenitude em meio a folhagens, riachos e na interação com o fantástico tratado como banal por suas lentes. Os espectadores interessados por uma narrativa que deixa intuir mais do que nomeia são seus grandes beneficiários.


Saraband (idem, 2003), de Ingmar Bergman

Os amantes de longa data Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann) se reencontram depois de 30 anos. As páginas escritas pelos dois enquanto estavam separados se misturam e compõem um rico painel de reminiscências generosamente compartilhadas com o público. Estamos diante do último filme do cineasta que orientava sua arte no sentido das escavações da alma, uma preferência sempre perturbadora, em maior ou menor grau. Ele não admitia, mas era uma continuação de Cenas de um casamento, mais uma catarse verbal entre duas pessoas que se conhecem no íntimo dos defeitos e qualidades, lidando com a dificuldade em dizer. Cabem ainda acertos de conta doloridos entre pai e filho, filha e pai, avô e neta, traduzido em diálogos arrepiantes que aderem a memória por uma duração considerável, ecoando internamente e repercutindo entre nossas reflexões.


Sobre café e cigarros (Coffee and cigarettes, 2003), de Jim Jarmusch

Sabe aquelas pessoas para quem tudo é motivo para tomar um cafezinho? Ou aquelas que, de tão viciadas, acendem um cigarro a todo momento? São elas as protagonistas desse ensaio em preto e branco sobre a trivialidade. Uma coletânea formada por 11 curtas-metragens em que gente absolutamente comum - ou não, já que a maioria são atores "interpretando" (com ou sem aspas?) a si mesmos - em diálogos coloquiais e corriqueiros, num exercício de estilo tipicamente jarmuschiano. É uma delícia acompanhar a geleia geral formada por nomes como Iggy Pop, Bill Murray, Cate Blanchett, Alfred Molina, entre outros - até Roberto Benigni está bem aceitável -, que discutem sobre questões como Paris nos anos 20, o uso de nicotina como inseticida, as invenções de Nikola Tesla e por aí vai.


Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004), de Michel Gondry

O tratado mais inventivo sobre as relações amorosas no Cinema tem um título extenso. Centrado nas figuras bipolares de Joel (Jim Carey) e Clementine (Kate Winslet), o roteiro de Charlie Kaufman discursa sobre as armadilhas de amar e recorre aos (des)caminhos da memória para tentar dar conta desse projeto. Não faltam momentos de fusão entre real e imaginário, e as sequências desse segundo tipo convidam o público à suspensão da descrença, conceito que Gondry costuma seguir à risca em seus trabalhos, além dos saltos temporais e dos recortes entre as cenas, uma herança clara de seu passado ocmo diretor de videoclipes. De lambuja, ele ainda reafirma a velha máxima conforme a qual "De perto, ninguém é normal", seja pelos tons extravagantes dos cabelos de Clementine, seja pelas experiências únicas trazidas pelas muitas lembranças que Joel deseja apagar, ideia que abandona pouco tempo depois.


Closer - Perto demais (Closer, 2004), de Mike Nichols

Sonorizados pela balada de The blower's daughter, no timbre agudo de Damien Rice, os protagonistas dessa crônica antirromântica se deslocam entre si, perdendo-se e (re)encontrando-se quase a cada novo plano. Poucos filmes foram tão longe na exposição da agonia de querer quanto este, adaptado da peça escrita por Patrick Marber, também autor do roteiro. Talvez por isso, uma grande parcela dos espectadores se sentiu incomodada e rechaçou o filme, enquanto outros se entregaram plenamente à sua proposta - como foi o meu caso. De uma forma ou de outra, todos provaram que é impossível ficar indiferente à teia que entrelaça Anna (Julia Roberts), Dan (Jude Law), Alice (Natalie Portman) e Larry (Clive Owen), até hoje os melhores desempenhos de seus respectivos intérpretes.


A leste de Bucareste (A fost sau n-a fost?, 2006), de Corneliu Porumboiu

Foi ou não foi? A pergunta objetiva forma o título original do debate político engendrado por Corneliu Porumboiu, expoente do cinema romeno contemporâneo que alterna momentos de humor discretíssimo e arguto com um calor humano que falta a muitos filmes. Tudo gira em torno de uma pequena cidade cuja localização é dada pelo nome brasileiro da obra. Para alguns, ela teria feito parte da manifestação que culminou com a derrocada do ditador Nicolae Ceausescu, em fins da década de 80. O auge da narrativa, exígua em personagens e ações, é a transmissão do programa de TV em que os três indivíduos apresentados pelo roteiro do próprio realizador argumentam contra ou a favor da tese de que, mesmo pequena, houve participação da cidade na revolução democrática. O tom jocoso é propiciado pelas ligações de alguns telespectadores, especialmente um, que insiste em colocar em xeque as afirmações de um dos debatedores.


Medos privados em lugares públicos (Coeurs, 2006), de Alain Resnais

O tempo parecia não passar nunca para Alain Resnais. Falecido aos 91 anos, seu fôlego não correspondia ao esperado para sua idade: era um garoto travesso, e suas travessuras vinham em forma de filmes. Ao se apropriar da peça teatral cujo título foi traduzido para batizar o filme em solo brasileiro, ele se debruçou sobre os temas de sempre em sua carreira, além de colocar em discussão a artificialidade das relações humanas do início do século XXI.Como aliadas dessa proposta, estão as cores berrantes dos cenários e figurinos conjugadas a uma névoa mais ou menos espessa, a depender da sequência, o que reveste o longa de uma aura divagante. Não temos plena certeza de estar no passado ou no presente dos homens e mulheres perdidos à procura do amor, e a insegurança persiste mesmo depois do último fotograma, compondo o que se pode chamar de genuína obra em aberto, devidamente premiada com o Leão de Prata de direção no Festival de Veneza.


35 doses de rum (35 rhums, 2008), de Claire Denis

Filmes com a assinatura de Claire Denis costumam exigir um tempo de decantação maior de seu público, em função de sua escolha por trabalhar com um espectro cognitivo mais esgarçado. Entretanto, o grau de acessibilidade em sua obra é variável em termos relativos e absolutos, e 35 doses de rum é um dos seus exemplares menos herméticos. Narrado quase totalmente de modo linear, acompanha o cotidiano de um viúvo (Alex Descas, seu ator fetiche) que mora com a filha em um complexo habitacional e vê seu relacionamento com ela sofrer mudanças com a entrada de um rapaz em cena. Apesar de conciso, o roteiro escapa de qualquer afobação e economiza nos diálogos, o que resulta em uma história arejada, que deixa seus personagens respirar. O ensaio de reviravolta se faz presente, mas Denis, subversora de esquemas cinematográficos, trilha outros caminhos.


Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen

É curioso recordar como, em 2011, de repente, todo mundo virou fã de Woody Allen. O surgimento dessa legião se deveu, basicamente, a Meia-noite em Paris, mais uma prova cabal de que o novaiorquino consegue fazer sempre o mesmo filme e discorrer sobre os mesmos temas sem cair na redundância. Em seus trabalhos mais recentes, ele tem preferido "apenas" escrever e dirigir, o que significa entregar o papel de misantropo neurótico, seu alter ego, a um ator que possa desempenhá-lo com louvor. Owen Wilson foi o escolhido da vez, e arquitetou com perícia seu Gil Pender, roteirista que sofre de saudades de tempos que ele sequer viveu. Seu desejo de pertencer a outras épocas é saciado, ainda que temporariamente, depois que ele é "sequestrado" pelos passageiros de um carro antigo. Entrevistado sobre o filme, Allen disse ter pensado primeiro no título, e não fazia a mínima ideia do que poderia acontecer à meia-noite em Paris.


Shame (idem, 2011), de Steve McQueen

O vazio das relações contemporâneas está em foco neste segundo longa-metragem de McQueen, homônimo do famoso ator da Hollywood clássica. Toda a angústia de não se sentir preenchido é sintetizada em Brandon (Michael Fassbender), um executivo de bela estampa que não sabe se conectar com ninguém pela via do sentimento. Decorre dessa inabilidade uma entrega irrestrita ao impulso do prazer sexual, consumado com os parceiros que surgirem no seu caminho. No olhar desalentado de Brandon, captamos a ausência na presença, o clamor silencioso de um indivíduo que é tipo de toda uma sociedade doente de afeto e, sobretudo, amor. Tudo isso se vincula a uma proposta maior do cineasta, que é a de investigar os flagelos do corpo, que podem resultar de uma alma enferma. Para além das noções de otimismo e pessimismo, ele deixa a porta entreaberta e confia ao espectador o direito de inferir sobre o destino de Brandon.


O mestre (The master, 2012), de Paul Thomas Anderson

Mais conhecido pelas suas iniciais PTA, o realizador californiano deixou público e crítica à sua espera por um quinquênio depois do neoépico Sangue negro (There will be blood, 2007). A espera foi recompensada por um exemplar mais bem acabado de sua filmografia, que alardearam como sendo uma investigação sobre o nascimento da cientologia, religião abraçada por nomes como Tom Cruise. Porém, é um equívoco pensar na obra sob essa perspectiva reducionista. Monstruosos em cena, Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman são, respectivamente, tipo e antítipo da sofreguidão. Enquanto o primeiro a extravasa, o segundo a represa e oo faz principalmente através da esposa (Amy Adams), a verdadeira mentora do projeto religioso de alto poder persuasivo de que ele se torna estandarte. Abrindo mão de qualquer esquema didático, PTA imprime a O mestre um vaivém como o das marés, presentes no espetacular plano de abertura e recorrentes até o fim.


Antes da meia-noite (Before midnight, 2013), de Richard Linklater

Uma trilogia involuntária, por assim dizer, contada em tempo real. Essa se revelou a proposta de Linklater, que nos fez acompanhar a trajetória de Jesse e Celine por 18 anos. De viajantes de trem que se conheceram fortuitamente a caminho da Áustria, eles passaram a românticos interrompidos que se reveem na França, e chegam à Grécia, com sua paisagem milenar, onde conversam longamente sobre o que fizeram da vida juntos. Sim, é uma discussão de relacionamento que se estende por quase duas horas, formando um típico exemplo de transcorrer do tempo psicológico. A finitude de certos sentimentos, bem como dos seres humanos, é abarcada nesses diálogos e, pela primeira vez, o casal se encontra com outros interlocutores, representantes de outros degraus na escada do amor. É impressionante a naturalidade e a verossimilhança de cada palavra, nossa ferramenta predileta para tentar (de)codificar a realidade que se nos apresenta. 

4 comentários:

  1. Nossa, vi 6 apenas. Vergonha. O melhor deles é Closer.
    Achei q ia listar um filme pra cada ano.
    Abraço!

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  2. Marquei os nove que nao vi, todos textos ficaram ótimos..
    Verei Shame o quanto antes, parece ser excelente.
    Muito legal ver 'O brilho eterno de uma mente sem lembranças' ai, abraços Patrick!

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  3. Postado por Patrick Corrêa às 12:12
    kkkkkkkkkkk, foi de propósito postar as 12:12 né? genial kk

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