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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

O oitavo mês do ano foi o mais profícuo em termos de Cinema para mim. Não só de 2013, mas de todos os anos da minha vida cinéfila. Em 31 dias, consegui assistir a 38 filmes, o que, para muitos, pode ser pouco. Felizmente, o saldo é positivo outra vez, e os exemplares ruins dessa arte constituem desagradáveis exceções.

Os melhores do mês vieram de continentes diferentes e de diretores com graus de experiência também distintos. Profissão: repórter, do saudoso Michelangelo Antonioni, arrebatou com seu estudo sobre o desconforto com a condição humana e um Jack Nicholson na década em que viveu seu auge interpretativo. Desde a primeira cena, a história fisga e produz reflexões de ordem moral e sentimental, culminando em um desfecho aterrador por sua verossimilhança. Dividindo as atenções na categoria máxima, ficou Qual é o nome do bebê?, pérola de humor francês dirigida pela dupla Alexandre de la Palletière e Matthieu Delaporte, com diálogos cortantes e uma enorme capacidade de despertar identificação. Foi difícil escolher apenas um deles, pois, cada qual a seu modo, me conquistou.

No outro extremo, também houve empate. Tanto Depois de Lúcia, do chileno Michel Franco, quanto O sabor da melancia, do chinês Tsai Ming-Liang, revelaram-se desastres de péssimo gosto. O primeiro, por oferecer uma protagonista completamente apoplética, incapaz de reagir minimamente aos mais terríveis vilipêndios praticados por seus colegas de escola. Talvez seja o filme que mais rachou opiniões este ano, e acabei ficando do lado que o repele. O segundo, por sua vez, é capaz de dar vergonha alheia, com seus cenários cafonas, poucos e débeis diálogos e algumas sequências musicais deploráveis.

A seguir, os 38 títulos que compuseram o meu agosto no Cinema:

LONGAS:

1. Alta fidelidade (2000) - Mais um filme a tratar o fracasso no amor como uma recorrência. Destila piadas pontuais e entope o espectador de referências ao universo da música, além de levar o protagonista a rir constantemente de si mesmo. Nota: 7.0

2. Anjos caídos (1995) - Sua intempestividade responde diretamente pela oscilação entre embarcar na história e, no minuto seguinte, enxergar-se fora dela. Bela fotografia, trilha que marca, porém um tanto distante. Nota: 6.0  
Anjos caídos (1995)

3. Apenas uma noite (2010) - O que leva alguém a trair? A ocasião faz o adúltero? Lentamente, essa e outras perguntas vão surgindo e, não necessariamente, são respondidas. Ou, talvez, não verbalmente. Os olhos respondem. Nota: 8.0

4. Uma história de amor e fúria (2013) - Uma prova da competência brasileira em um terreno pouco explorado. A premissa simples se desenvolve a contento e não chega a subestimar seu público. Nota: 7.0

5. Nunca aos domingos (1960) - Dassin cria situações e diálogos inspiradíssimos para abordar os vários pontos de vista sobre a vida, utilizando-se de figuras totalmente antagônicas. De brinde, traz a Grécia como cenário. Nota: 9.0

6. Garotos incríveis (2000) - Um enredo desperdiçado em momentos sem graça e personagens nada cativantes. Os dilemas de um escritor nunca tinham sido tão maçantes. Nota: 4.0

7. Ano passado em Marienbad (1961) - Memória que engana, memória que recria, memória que sublima, memória que perece, memória que alucina, memória que atormenta. Nota: 8.5 
Depois de Lúcia (2012)

8. Depois de Lúcia (2012) - Há um excesso de sadismo e passividade que incomodam na abordagem de Franco, levando a trama para longe do realismo, o que parecia ser o alvo do diretor. Fica, na verdade, um exemplo a não ser seguido em termos de Cinema. Nota: 3.0

9. Corações livres (2002) - Indecisão, carência, mentiras, lamento: os sentimentos típicos de um polígono amoroso estão presentes. O que fazer com essa tal liberdade? Nota: 7.0

10. Um dia muito especial (1977) - A proximidade inesperada entre duas pessoas comuns e suas chagas particulares. Delicadeza e ternura em olhares, gestos e diálogos, como Scola já havia mostrado que sabia fazer. Nota: 8.0

11. Queimando ao vento (2004) - O horror de uma existência vazia que leva ao apego a um amor truncado, incapaz de oferecer acalento pleno. Uma ideia razoavelmente interessante que se dispersa. Nota: 5.5

12. Amor pleno (2012) - Às eternas lacunas. Nota: 9.0

13. Se meu apartamento falasse (1960) - Delicioso como poucas comédias, faz valer cada minuto, oferecendo não somente lascas de humor, mas paixão genuína, doces ironias e análise comportamental. A cena final é o morango que enfeita o alto de um lindo bolo. Nota: 8.5
Meu irmão é filho único (2007)

14. Meu irmão é filho único (2007) - O roteiro tem seus altos e baixos, mas histórias sobre fraternidade sempre valem a pena. Ora amigos, ora oponentes, irmãos chegam e ficam para a vida toda. Nota: 7.0

15. Para sempre Lilya (2002) - Impregnado de tristeza, faz concluir que este mundo, definitivamente, não é um bom lugar para viver. Nota: 7.0

16. Suspiria (1977) - Horror genuíno, propiciado pelo roteiro cuidadosamente escrito que gera situações de apreensão e sobressalto. A direção de arte é embasbacante. Nota: 8.5

17. Vocês, os vivos (2007) - Um filme difícil de comentar. Realista demais? Sem história? Tedioso? Um pouco de tudo isso mas, ainda assim, um ótimo filme coalhado de cenas aleatórias sobre viver e sobreviver. Nota; 8.0

18. Caminhos perigosos (1973) - Conforme atesta Scorsese, não existe perdão na selva urbana: toda atitude gera sua consequência e escapar é mais difícil do que parece. Os elementos basilares do seu cinema já se mostravam aqui. Nota: 7.5

19. O sabor da melancia (2005) - Números musicais de gosto altamente duvidoso, chinesas em gritinhos histéricos, diálogos mecânicos e um final de dar vergonha alheia. Dá pra ser bom assim? Nota: 3.0

20. Amores brutos (2000) - Intenso e brutal, como o adjetivo do título em português antecipa. Os descaminhos de uns desolados e suas tragédias pessoais vistos sem verniz. Nota: 8.0
Profissão: repórter (1975)

21. Profissão: repórter (1975) -  Segundo Antonioni, o viver é poesia tediosa. Há tanta feiúra neste mundo que fechar os olhos - e nunca mais abri-los de novo - parece uma boa escolha. Nota: 9.0

22. Dead man (1995) - Subverte o cânone westerniano com doses cavalares de existencialismo e contemplação. O que poderia parecer improvável rende mais uma pérola na insólita galeria jarmuschiana Nota: 8.0

23. Qual é o nome do bebê? (2012) - Verborragia francesa acutíssima. Somos todos canalhas, malandros, carentes, sarcásticos, histéricos, autoindulgentes e mais uma penca de adjetivos. E, ao ver nossos defeitos nos outros, rimos de identificação e agonia. Nota: 9.0

24. A bruma assassina (1980) - Enxutos oitenta e três minutos de uma atmosfera sufocante e um mistério que se desvela aos poucos. Carpenter reafirma o terror psicológico como a sua especialidade. Nota: 8.0

25. Era uma vez no Oeste (1968) - A lei do mais forte em pleno exercício. Tudo gira em torno de sobreviver pelo maior tempo possível em um cenário arredio, em que uma bala vale muito mais do que mil palavras. Nota: 8.0

26. A festa da menina morta (2008) - A preferência por um universo degradado, habitado por personagens entregues a uma fé cega, resulta em sequências que parecem existir simplesmente para causar desconforto e estranheza e bloqueia uma análise sobre os sacrifícios tolos. Nota: 5.0

27. La nostra vita (2010) - A luta nossa de cada dia, que não pode parar jamais. Em meio a tanta correria, o que importa de verdade são os laços familiares e as amizades sinceras e duradouras. Lindo demais. Nota: 8.0
Era uma vez na Anatólia (2011)

28. Era uma vez na Anatólia (2011) - Exige a observação paciente e a atenção acurada para um enredo que permanece aberto a inferências. A incomunicabilidade e o desconforto com as divergências também surgem nesse lento percurso magistralmente fotografado. Nota: 8.0

29. Quando estou amando (2006)Flerta adoravelmente com a cafonice e mostra o quanto são atemporais as querelas do coração. Nota: 7.0

30. Quando me apaixono (2007) - Os personagens são simpáticos e as intenções são boas, mas o resultado fica abaixo do esperado. Ainda assim, é interessante ver Hunt acumulando funções e mostrando boa química com seus pares românticos revezados. Nota: 6.0

31. O clube dos cinco (1985) - Enxergar além das aparências talvez seja uma das nossas maiores dificuldades. Sendo assim, é melhor dar uma chance e não se prender a juízos de valor baseados nas superfícies. Lindas amizades e romances podem começar assim. Nota: 7.0

32. Viridiana (1961) - Buñuel destila toda a sua iconoclastia e expõe a miséria humana que a religião, por si só, não resolve. Nota: 8.0

33. Chinatown (1974) - "Esqueça, Jake. É Chinatown" ou como duas simples frases podem resumir tão bem um mundo cheio de sujeira e deturpação. Nota: 8.0

34. Sem dor, sem ganho (2013) - A realidade oferece matérias-primas mirabolantes! Descontadas as piadas imbecis com o que não se deveria brincar, não faltam senso de humor e sátira a Michael Bay, em ótima forma na direção (com trocadilho), assim como o trio de protagonistas patetas. Nota: 7.0
Um homem misterioso (2010)

35. Um homem misterioso (2010) - Quase um faroeste moderno, em que é preciso mandar bala constantemente para sobreviver. A ambientação da história em uma cidade italiana reforça essa tese e Clooney aposta em uma atuação robusta que funciona. Nota: 7.5

36. Cloud 9 (2008) - Quase um faroeste moderno, em que é preciso mandar bala constantemente para sobreviver. A ambientação da história em uma cidade italiana reforça essa tese e Clooney aposta em uma atuação robusta que funciona. Nota: 8.0

37. Trabalhar cansa (2011) - Imbuídos de um humor discretíssimo, Rojas e Dutra fazem terror psicológico com a classe média, inserido o mistério no ordinário. O clima de sobressalto, intercalado com passagens triviais, resulta em provocadora alquimia. Nota: 8.5

38. Um doce olhar (2010) - Um apanhado de tempos mortos sobre uma inocência silenciosa com algumas passagens marcantes. A fixidez da câmera é uma escolha infeliz e preguiçosa. Nota: 6.0

CURTAS:

Ela e o seu gato (1999) - Eu tenho a você e você tem a mim. Nota: 8.0

This way up (2008) - Uma esperta comédia de erros toda trabalhada no humor negro e na sutileza das mensagens subliminares. Nota: 7.0

A vereadora antropófaga (2009) - Carmen Machi é um Ary Toledo de saias. Nota: 4.0

Adam and dog (2011) - O homem e o cachorro: uma amizade tão antiga quanto linda e emocionante. Nota: 8.0

MELHORES FILMES: Profissão: repórter e Qual é o nome do bebê?
PIORES FILMES: Depois de Lúcia e O sabor da melancia
MELHOR DIRETOR: Michelangelo Antonioni, por Profissão: repórter
MELHOR ATRIZ: Claudia Cardinale, por Era uma vez no Oeste
MELHOR ATOR: Jack Nicholson, por Profissão: repórter
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Faye Dunaway, por Chinatown
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Tony Shaloub, por Sem dor, sem ganho
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Mark Peploe, Peter Wollen e Michelangelo Antonioni, por Profissão: repórter
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Matthieu Delaporte, por Qual é o nome do bebê?
MELHOR TRILHA SONORA: Ennio Morricone, por Era uma vez no Oeste
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Suspiria
MELHOR FOTOGRAFIA: Luciano Tovoli, por Profissão: repórter
MELHOR CENA: A descoberta de Suzy em Suspiria
MELHOR FINAL: La nostra vita

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