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terça-feira, 24 de setembro de 2013

50 diretores essenciais (Parte 1)

Elaborar listas é uma tentação constante à qual bons cinéfilos resistem pouquíssimas vezes. Comigo, não é diferente, e aqui começa uma tentativa de eleger os mais indispensáveis entre os realizadores do Cinema. A tarefa é hercúlea e, ao mesmo tempo, muito prazerosa, pela oportunidade que oferece de passear por filmografias ecléticas, recorrências atraentes e tópicos de reflexão diversos, sem esquecer o componente de entretenimento e passatempo abarcado por essa arte tão jovial, apesar de centenária.

O único critério norteador para a montagem dessa lista de diretores foi eu ter visto, pelo menos, dois filmes de cada um. Assim, é possível estabelecer alguma comparação entre os exemplares de seu currículo, de modo a localizar (ou não) elos coesivos entre eles e ter um mínimo de segurança para recomendá-los. No mais, valem cineastas de todos os países, épocas, estilos, interesses, ambições e olhares, falecidos ou ainda em atividade, veteranos ou de carreira ainda curta. 

Outro detalhe importante a ser esclarecido é que a lista, composta por cinquenta nomes e dividida em cinco partes, publicadas semanalmente, não está organizada em ordem de preferência. Exceto pelo primeiro lugar, indiscutivelmente, meu diretor preferido, todos os demais integrantes dessa seleção extremamente subjetiva - como quaisquer seleções - estão distribuídos em posições aleatórias, embora haja preferências mais intensas entre os escolhidos. Juntamente com cada diretor, são sugeridos alguns filmes que considero os melhores ou mais importantes de sua carreira.

Começa hoje, portanto, mais uma empolgante viagem pelo Cinema por meio dos que, atrás das câmeras, são nossos olhos. Comentem à vontade!

1. Woody Allen (1935 - )


Discorrer sobre Cinema sem pensar no meu realizador predileto é simplesmente impossível. Pensador inquieto da insatisfação humana com o arranjo das coisas, sobretudo no campo sentimental, Allen segue com fôlego para um filme por ano desde 1982, e é quase uma unanimidade entre os cinéfilos. Seus detratores nunca me convenceram de seus defeitos - e olha que não sou fã cego nem míope - e, para além das obras mais incensadas, na ponta da língua de quem o admira minimamente, esse novaiorquino que cultiva um alter ego aparvalhado e misantropo tem exemplares pouco visitados em sua filmografia. Autor de frases de efeito espirituosas e roteirista de mão cheia, Woody Allen é sempre digno de atenção, mesmo quando parece fora de forma.

PRINCIPAIS FILMES: Noivo neurótico, noiva nervosa (1977), Manhattan (1979), A rosa púrpura do Cairo (1985), Crimes e pecados (1989), Um misterioso assassinato em Manhattan (1993), Todos dizem eu te amo (1996), Dirigindo no escuro (2002), Ponto final (2005), O sonho de Cassandra (2007), Vicky Cristina Barcelona (2008), Meia-noite em Paris (2011).

2. Gus Van Sant (1952 - )


Examinador recorrente da juventude sem rumo, Van Sant direciona sua câmera para os sentimentos mais íntimos e universais que atravessam essa fase de consolidação do caráter e dos desejos, ora flertando com uma gramática mais alternativa, ora encampando-a efetivamente. Seus filmes incluem tempos mortos (por vezes, mornos), que exigem uma certa disposição contemplativa, por mais contraditória que pareça a constatação. No geral, sua filmografia traz muito mais acertos e somente alguns escorregões, que não chegam a ser depoentes contrários de seu talento - afinal, todos têm seus momentos menos inspirados.

PRINCIPAIS FILMES: Drugstore cowboy (1989), Elefante (2003), Paranoid Park (2007), Inquietos (2011).

3. Pedro Almodóvar (1949 - )


"Exagero" poderia, perfeitamente, ser incluído aos sobrenomes desse espanhol provocador, que não se furta de ser folhetinesco e demonstra interesse constante em cenários espalhafatosos e atuações propositadamente histriônicas. Não por caso, "almodovariano" se consagrou como adjetivo pelo uso e hoje é quase impossível pensar em enredos tragicômicos assinalados por alguma bizarrice sem se reportar à sua assinatura inconfundível. Entre as atrizes com quem mais aprecia trabalhar, estão Carmen Maura, Marisa Paredes, Cecilia Roth e a exótica Rossy de Palma. Nos últimos anos, sua estética alcançou um grau de refinamento louvável, mas ele jamais abandonou de todo suas obsessões e, em seu filme mais recente,  Os amantes passageiros, escancarou de volta as portas de seu debute altamente passional e desbocado.

PRINCIPAIS FILMES: Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), Ata-me! (1990), Tudo sobre minha mãe (1999), Fale com ela (2002), Má educação (2004), Volver (2006).

4. Michelangelo Antonioni (1912 - 2007)


Poucos realizadores, talvez nenhum, podem ser apontados como exímios perscrutadores do silêncio como o era Michelangelo Antonioni. De sua observação paciente das palavras não ditas e mal compreendidas que resultam no abismo verbal entre os homens, nasceu a Trilogia da Incomunicabilidade, monumento aos conflitos gestados na alma e nunca plenamente resolvidos. Para a crítica, que caiu de amores por ele depois da exibição de A aventura no Festival de Cannes, justamente o primeiro tomo da Trilogia, era um cineasta a ser acompanhado. Entretanto, o prestígio alcançado com sua obra-prima triuna entrou em declínio assim que ele começou a filmar em língua inglesa. Daí para a frente, entregou filmes subestimados, que hoje valem a pena ser (re) visitados e apreciados em suas nuances psicológicas.

PRINCIPAIS FILMES: A aventura (1960), A noite (1961), O eclipse (1962), O deserto vermelho (1964), Zabriskie Point (1970), Profissão: repórter (1975).

5. Wim Wenders (1945 - )


"O mais estadunidense dos cineastas alemães". Já virou máxima dizer isso a respeito de Wenders e, se a frase não é de todo equivocada, pode ser um tanto empobrecedora e sugerir aos não-iniciados em sua obra que se trata de um realizador que constrói seus filmes a partir de um decalque dos ícones da terra do Tio Sam. Majoritariamente, Wenders se detém na análise de indivíduo deslocados de um lar para chamar de seu, ao menos no sentido convencional do termo, que preferem cair na estrada para minimizar essa angústia de pertencer a todos os lugares e, ao mesmo tempo, a lugar, nenhum. Listas de grandes filmes de todos os tempos sempre têm espaço para uma ou duas produções suas, o que o torna um dos nomes obrigatórios para os que se dizem cinéfilos ou admiradores do Cinema. Talvez, até para os simpatizantes.

PRINCIPAIS FILMES: No decurso do tempo (1976), O estado das coisas (1982), Paris, Texas (1984), Asas do desejo (1987), O céu de Lisboa (1994), Palermo shooting (2008).

6. Wes Anderson (1969 - )


As relações familiares são a tônica dos filmes de Wes Anderson, sempre vistas sob um ângulo original que não exclui o componente de afetividade. Os sujeitos provenientes de sua imaginação criativa despertam identificação com suas esquisitices e humores excêntricos, constituindo a prova de que é possível encarar uma temática corriqueira sob um prisma inusitado. Como boa parte dos grandes realizadores, ele escolheu um tópico preferido e sobre ele vem dirigindo filmes em que reafirma um estilo todo pessoal.

PRINCIPAIS FILMES: Três é demais (1998), Os excêntricos Tenembaums (2001), Viagem a Darjeeling (2007), Moonrise kingdom (2012).

7. David Lynch (1946 - )


Para ele, a vida não tem qualquer sentido. Baseado nessa convicção, Lynch entrega ao público filmes de forte apelo onírico, envoltos em atmosferas em que confundir e explicar andam lado a lado. Com uma estética toda sua, ele mergulha fundo em mistérios da alma e do coração, e não se importa em deixar perguntas sem resposta ou, no mínimo, não oferece uma resposta única para cada pergunta que levanta. E, quando quer, segue por trilhos mais comuns e demonstra o quanto sabe injetar doçura em suas histórias, o que só demonstra o quanto pode ser versátil.

PRINCIPAIS FILMES: O homem elefante (1980), Veludo azul (1986), A estrada perdida (1997), História real (1999), Cidade dos sonhos (2001).

8. Michael Haneke (1942 - )


A soma de seus trabalhos lhe conferiu uma aura de detrator da espécie humana, de cineasta sádico para quem só existe maldade no homem. Entretanto, o rótulo é reducionista demais para se referir a Haneke, que se debruça sobre a violência para tentar dar conta dos impulsos mais primitivos que todos procuramos dominar pelo bem da convivência em sociedade. Seus personagens enfrentam situações que os colocam em confronto direto com esses impulsos e nós, como espectadores, somos desafiados a permanecer impassíveis, por exemplo, diante de jogos macabros a que uma  família é exposta sem qualquer razão aparente. Quem procura por cinema instigante deve conhecer a obra desse austríaco que divide opiniões. Um dos únicos diretores a ter dois filmes premiados com a Palma de Ouro em Cannes.

PRINCIPAIS FILMES: Violência gratuita (1997), A professora de piano (2001), Caché (2005), A fita branca (2009), Amor (2012).

9. Charles Chaplin (1889 - 1977)


Chaplin é um diretor como já não se faz mais. A ternura e a sátira política andavam lado a lado em seu cinema, sempre capaz de arrancar boas gargalhadas e, no instante seguinte, deixar os olhos marejados, ou vice-versa. Querido e defendido entre cinéfilos de idades e preferências diversas, ele pode facilmente ser apontado como uma unanimidade entre os apreciadores da sétima arte. A persona que criou foi eternizada e, ainda hoje, é bastante imitada, bem como algumas sequências de seus filmes, em especial, a dança dos pãezinhos de Em busca do ouro. Talvez seja impossível não se deixar levar pelo carisma desse artista tão talentoso em várias frentes.

PRINCIPAIS FILMES: Em busca do ouro (1925), O circo (1928), Luzes da cidade (1931), Tempos modernos (1936), O grande ditador (1941).

10. Tim Burton (1958 - )


Outro especialista em mundos estranhos, esse californiano cinquentenário é lembrado também por sua parceria muito bem-sucedida com Johnny Depp - um dos atores preferidos deste que vos escreve -, que já conta com sete exemplares e só tende a crescer. De sua imaginação sombria, nascem tipos inconfundíveis e inesquecíveis, que habitam o inconsciente cinéfilo com muita facilidade. Seja com atores de carne e osso, seja em animação, Burton consegue emocionar, assustar e surpreender (quase sempre para o bem) com tramas em que o insólito tem lugar de honra.

PRINCIPAIS FILMES: Edward Mãos de Tesoura (1990), Ed Wood (1994), A lenda do cavaleiro sem cabeça (1999), Peixe grande (2003), Sweeney Todd - O barbeiro demoníaco da rua Fleet (2007).

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