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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A mulher do aviador e a profusão de diálogos deliciosos

Espectadores iniciados em Eric Rohmer têm plena consciência do que esperar dos filmes assinados pelo realizador, falecido em 2010 após uma carreira profícua. A estrutura de suas histórias é sempre bastante simples e, acima de tudo, funciona como suporte para intermináveis discussões de ordem subjetiva sobre os ciclos e acasos da vida, bem como sobre os caminhos - por vezes intrincados - pelos quais passam os sentimentos humanos, sobretudo o amor. O realizador fazia parte do time de autores que buscava sutis variações para o mesmo tema, sendo o mais marginal de todos os integrantes da Nouvelle Vague, sopro de renovação da cinematografia francesa que se estendeu para outras nações e reverbera ainda hoje na obra de cineastas como Christophe Honoré. Significa, portanto, que assistir a um filme de Rohmer é localizar ecos de filmes anteriores e ensejos de filmes seguintes, e que cada trabalho seu é uma súmula notória de toda uma obra devotada a temas de alcance universal e, portanto, de altíssimo potencial especular. Assim acontece com A mulher do aviador (La femme de l'aviateur, 1980), em que a sombra da desconfiança motiva discussões sobre a durabilidade do amor. 

François (Philippe Marlaud) trabalha nos Correios durante a noite e namora Anne (Marie Rivière), que, por acaso, dorme à noite. Conciliar os horários desencontrados é a maior dificuldade enfrentada pelo casal, que já se mostra em certa dessintonia na primeira sequência em que aparece junto. Anne parece entediada, recebendo François em seu apartamento com certo desdém - pode ser apenas cansaço, como ela mesma alega, mas há uma nuvem de insatisfação pairando sobre seu olhar. Essa recepção nada calorosa acende a chama da dúvida em François, que, antes de chegar ali, viu um homem desconhecido saindo do local. A junção dos dois fatores leva o jovem a uma procura discreta por pistas que comprovem sua tese de que Anne está apaixonada por esse tal homem. Entre longas esperas e perseguições pacientes, ele conhece uma garota de 15 anos, Lucie (Anne-Laure Meury), com quem passa a contar para descobrir todos os passos da namorada.

Desse encontro casual, ocorrido em um charmoso parque, nasce uma singela amizade que é o pretexto da vez para Rohmer colocar em discussão os tópicos mencionados. Mesmo tão jovem, Lucie demonstra grande sabedoria no campo das relações amorosas, especialmente a teoria. A princípio, François disfarça que esteja seguindo alguém, mas a perspicácia de Lucie o vence e ele revela porque se sentou bem ao seu lado e fingiu estar ali por outro motivo. Então, os dois começam a conversar longamente sobre o peso da insegurança nos relacionamentos e ela acaba imbuída de um espírito investigativo, dando sugestões pertinentes para que ele se livre da incerteza que tanto o atormenta. Por sua vez, Anne é mostrada em atividades triviais, como um café com um amiga e algumas horas de ócio em seu apartamento. O mais interessantes dessa díade rohmeriana é que acabamos cúmplices de François mesmo que, no fundo, sua namorada não dê razões concretas para alimentar qualquer desconfiança. Seu roteiro bem amarrado faz pensar que há sempre algo maior por acontecer, numa espécie de suspense cotidiano.


A mulher do aviador é o título inaugural de uma das séries de filmes dirigidos por Rohmer. Este aqui encabeça as Comédias e Provérbios, em que se vale de epígrafes instigantemente simples para lançar olhares atentos para as contradições e incongruências humanas. O longa foi realizado com baixo orçamento, o que era uma constante na sua carreira - poucas vezes havia sido diferente, como quando ele filmou A marquesa D'O (La marquise von O, 1975), um de seus trabalhos precedentes. É notável o quanto, no cotejo entre os dois filmes, o diretor está muito mais à vontade conduzindo uma história cuidadosamente pensada sem a preocupação em atrair lucro financeiro a uma grande distribuidora. Sem medo de parecer exagerado, é possível afirmar que Rohmer é um dos mais autorais entre os cineastas autorais, daqueles que parecem conceber filmes muito mais para si mesmos do que para um público - pequeno que seja - e, ainda assim, consegue estabelecer diálogo com essa audiência que se abre para o contato com sua obra tão singular e, ao mesmo tempo, tão comum a quaisquer pessoas.

Após muitas conversas travadas com Lucie, François chega a alguma conclusão plausível para seu imbróglio sentimental, mas se fechar sobre uma resposta nunca foi o ponto forte do Cinema rohmeriano. É clara a sua preferência por desnudar os personagens através da palavra e, nesse sentido, a adolescente de porte tão resoluto começa a apresentar as suas fragilidades lá pelas tantas, evidenciando que nenhum de nós é detentor de todo o conhecimento e que todos guardamos conosco algum calcanhar de Aquiles. Por que com Lucie haveria de ser diferente? E, se a palavra ocupa lugar de honra em Rohmer, a ação é bem menos do que uma coadjuvante. Daí a razão de muitos explicitarem seu tédio ao assistir a um de seus filmes, e A mulher do aviador não foge a essa regra. Obviamente, é legítimo não morrer de amores pelo seu fazer cinematográfico, mas se dar a chance de apreciar, ao menos em parte suas produções, não há de ser nenhuma tortura. Em seu conjunto, este é mais um exemplo do quanto o ciúme enviesa o olhar e do quanto o coração, em seu desespero, conduz atitudes pouco lúcidas. Melhor seria não pensar em nada, como sugere o título alternativo dessa obra em que há uma profusão de diálogos deliciosos.

9/10

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