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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Antes da meia-noite: o terceiro ato de um casal memorável

Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) estão de volta após mais nove anos distantes do olhar do público. O casal que se conheceu em Antes do amanhecer (Before sunrise, 1995) e se reencontrou em Antes do pôr do sol (Before sunset, 2004) chega ao seu terceiro ato em Antes da meia-noite (Before midnight, 2013) para recomeçar seu palavrório de reverberações filosóficas, poéticas e cotidianas que tanto encantou os admiradores dos outros dois tomos dessa que se tornou uma trilogia. Diálogo é o que não falta nos 108 minutos de filme, que acompanha o resultado da última cena mostrada no capítulo anterior. Agora, os dois são pais de gêmeas e estão passando alguns dias na Grécia, em mais um cenário paradisíaco, uma outra especialidade notória da série – já estivemos com o casal em Viena e em Paris.

À diferença de Antes do pôr do sol, nesse terceiro momento das vidas dos personagens, não há um reencontro que os faça enxergar como estão agora. Pelo menos, não literalmente. As longas conversas entre Jesse e Celine, dessa vez, servem para mostrar o quanto eles construíram juntos não apenas nos nove anos em que permanecem ao lado um do outro, mas também no período em que estiveram separados e ansiavam pelo dia em que se reveriam. Eles se reencontram consigo mesmos e um com o outro pela palavra em mais uma longa caminhada por terrenos acidentados e ensolarados, mas, até que cheguem a esse momento, travam diálogos com outros interlocutores, algo inédito quando pensamos nos outros filmes. O primeiro deles, aliás, é entre Jesse e Henry (chamado Hank), seu filho recém-chegado à adolescência. O menino é a síntese de sua geração: poucas palavras, atenção voltada para várias frentes ao mesmo tempo. Contrapõe-se ao pai, que se esforça para obter uma interação mais prolongada com ele por meio do diálogo, como um entrevistador que procura arrancar do entrevistado mais do que respostas monossilábicas. Desde já, espectadores habituados a cortes rápidos e ação prevalente vão percebendo que essa é uma história para quem não tem pressa.

Logo em seguida, Jesse e Celine conversam sobre uma gama de assuntos no carro, tendo as gêmeas adormecidas no banco de atrás e sendo vistos de frente o tempo todo, num dos vários planos de alto rigor formal engendrados pelo diretor Richard Linklater. Atualmente um cinquentenário, o que pressupõe um certo acúmulo de experiências, ele também assina o roteiro, novamente tendo a colaboração de Hawke e Delpy na função – o mesmo acontecera em Antes do pôr do sol. É incrível a naturalidade com que o casal passeia por diferentes tópicos enquanto ele cuida do volante e ela permanece como carona, em uma sequência que remete não apenas a Cópia fiel (Copie conforme, 2010), mas a vários outros filmes de Abbas Kiarostami, que, normalmente, inclui cenas de conversas passadas em carros. Vale lembrar que o filme citado do realizador iraniano foi apontado como tributário dos primeiros capítulos da trilogia de Linklater justamente pelos planos e diálogos intermináveis, em um exemplo saudável e delicioso de intertextualidade cinematográfica. Por falar em citações de outros filmes, em Antes da meia-noite, Jesse chega a comentar com Celine sobre um longa no qual um casal discutia sua relação, sem chegar a lembrar seu nome. Cinéfilos atentos e/ou com certa bagagem filmográfica podem pensar quase imediatamente em Viagem à Itália (Viaggio in Italia, 1954), produção de Roberto Rossellini facilmente apontável como a matriz dos quatro filmes.


Outros exemplares de franca verborragia poderiam ser mencionados para uma correlação com Antes da meia-noite, o que faria deste texto uma lista infinda - e, consequentemente, tediosa – de citações. Para além de longas afins, entretanto, um outro aspecto flagrante deste terceiro capítulo é a ação do tempo sobre a união do casal. Afinal, já são dezoito anos desde o primeiro encontro e todo esse período acarreta seus ônus e bônus. Quando, enfim, reinam sozinhos na tela, Jesse e Celine testificam essa verdade expondo as pequenas rachaduras da vida que mantêm em comum, transpirando sinceridade em cada palavra e gesto e, muitas vezes, fazendo-nos esquecer que se trata de pura encenação, de puro Cinema. Portanto, é a primeira vez em que surge espaço maior para ir além dos floreios e constatar que a convivência com um parceiro é uma eterna negociação, sob pena de confissões ressentidas emergirem no calor do momento, sem muito esforço. A bem da verdade, Jesse e Celine sempre foram um casal muito verossímil. Contudo, a sensação é de que eles nunca estiveram tão realistas como agora ou de que, talvez, o texto que proferem nunca tenha estado tão abrangente. É incrível notar como, mormente através da palavra, eles transitam do riso ao choro, da ironia à aspereza, do carinho ao desabafo.

É a primeira vez, também, em que os vemos em contato com outros casais. Eles interagem com Anna (Ariane Labed) e Achilleas (Yiannis Papadopoulos), namorados há pouco, e com Ariadni (Athina Rachel Tsangari) e Stefanos (Panos Koronis), que estão juntos faz um certo tempo, ao redor de uma mesa na qual não existe qualquer tabu. Ali, também estão Patrick (Walter Lassally) e Natalia (Xenia Kalogeropoulou), viúvos de seus respectivos parceiros que oferecem suas ponderações aos demais, todos mais jovens e, a princípio, ainda com muita estrada pela frente. Cada fala exposta é passível de análise e revela as inquietações mais antigas de ambos os sexos, sem perder de vista o humor. A troca de figurinhas entre os personagens é um dos vários achados de Antes da meia-noite, que mantém o clima de papo descontraído e o olhar afetuoso sobre aqueles homens e mulheres que, em meio às suas singularidades, também se mostram universais e produzem instantes (consecutivos ou não, a depender do espectador), de pura catarse verbal.

Lá pelos últimos 30 minutos de filme, não há espaço para ninguém mais em cena a não ser o casal. É quando suas discussões crescem ainda mais e enxergamos mais nitidamente as neuroses de Celine e as tentativas de pacificação de Jesse. Confinados em um aconchegante quarto de hotel, eles transformam o que seria uma noite idílica entre quatro paredes no terceiro tempo de uma conversa que teve início no carro e prosseguiu em uma caminhada ao ar livre. Linklater oferece pouquíssimos e discretos cortes durante mais uma saraivada de palavras e deixando Delpy e Hawke totalmente à vontade para interpretar a gangorra sentimental de seus personagens com ecos teatrais – no sentido do espaço físico restritivo. Tudo que já tinha sido mostrado até ali, começando pelo primeiro filme, coopera decisivamente para que entendamos a paixão um pelo outro em que eles estão mergulhados, mesmo quando rasgam o verbo doloridamente. Entre idas e vindas do quarto, Celine promove a desconstrução e a reconstrução daquele relacionamento e, ao chegar ao ato final, já de volta ao ar livre e, dessa vez, à luz do luar, um simples jogo de personagens dos personagens se desdobra em um final que poderia não ter chegado. Ainda estaríamos lá, embevecidos, diante de Jesse e Celine.

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