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terça-feira, 11 de junho de 2013

A singeleza atemporal de A felicidade não se compra


Um dos filmes mais lembrados em épocas natalinas,A felicidade não se compra (It’s a wonderful life, 1946) segue resistindo ao tempo e mostrando que a singeleza ainda é uma característica muito bem-vinda às histórias contadas pelo Cinema. Sob a batuta de Frank Capra, o público é apresentado ao simpático George Bailey (James Stewart), um homem pacato a quem nunca encheu os olhos a carreira de banqueiro escolhida pelo seu pai. A vida em torno de numerários é reducionista demais para o seu gosto, e ele prefere pensar em outras opções. Entretanto, o primeiro ato do filme já mostra o protagonista em uma situação extrema. Por sua falta de coragem e iniciativa de assumir para si uma vida que realmente desejasse e não fosse apenas a projeção dos outros sobre ele, George chega ao desespero de tentar o suicídio.

Surge então, o elemento fantástico da narrativa, que fará parte dela até os minutos finais: um anjo é enviado do céu à Terra com a importante missão de impedir George de cometer sua loucura. Durante algum tempo, a criatura celestial poderá apresentar a ele a importância de estar vivo e fazê-lo perceber o quanto ele já foi de grande utilidade para as pessoas ao seu redor. Em outras palavras, o encontro com o anjo, que já vinha observando sua vida há tempos do céu, é a chance que George tem de ressignificar sua trajetória e entender que ainda há tempo de mudar e atender aos seus desejos e planos. A tentativa de suicídio, porém, não é apenas fruto da insatisfação com os rumos de sua vida, mas também da falta de dinheiro para saldar uma alta dívida. Também para isso, o anjo vem até bem perto dele, assumindo outra forma e mostrando que ainda existe um outro caminho.

O grande mérito de A felicidade não se compra é justamente a ternura com que abraça os seus personagens. O roteiro, escrito a seis mãos, oferece um olhar carinhoso sobre a vida e exalta o otimismo acima de tudo, legitimando-o como ferramenta preciosa e útil em situações para as quais parece não haver mais escapatória. George, em sua simplicidade complexa, é um indivíduo que teve sua vida forjada segundo as expectativas da família e dos amigos. Com isso, tornou-se refém da “síndrome de querer agradar”, vivendo muito mais para ser e fazer o que supõem que os outros desejariam da sua parte do que para ser e fazer o que ele mesmo desejaria. E, se os seus olhos não enxergam além dos problemas, o tal anjo é o sopro de positividade que o auxiliará a expandir sua visão e notar, entre outras coisas, que revés algum é justificativa para desistir de viver.



Trata-se, portanto, de uma mensagem bastante simples, mas que ainda encontra eco em nossos dias. Passados mais de sessenta anos desde que o filme foi lançado, ainda há pessoas que se veem frustradas com o que se transformaram suas vidas, incapazes de notar o quanto são importantes e significam para quem está à sua volta. Sem falar naqueles que ainda não perceberam o propósito de sua existência e caminham a esmo, por mais que consigam dar conta de alguns projetos e realizar alguns planos. São indivíduos que não entendem a distinção entre ser realizado e cumprir o propósito para o qual se foi criado. Portanto, A felicidade não se compra é um filme que, para além de sua aura sentimental, produz reflexões profundas sobre o quanto a vida é importante demais para deixar de ser vivida em sua plenitude. Há quem acuse a história de ser manipuladora e – quanta ironia – piegas, como se um discurso audiovisual em apologia à bondade e ao viver sabiamente não tivesse grande validade.

Discordâncias à parte, Capra fez escola através de seu filme e, de certa forma, mostrou-se um dos pioneiros de um filão profícuo: os longas-metragens natalinos estrelados por homens em revisão de caminhada. Haveria uma série de exemplares a mencionar nessa esteira, na qual cabem até filmes brasileiros, como Feliz Natal (idem, 2008), e tantos outros que encontram espaço cativo na programação televisiva especial de fim de ano. Todavia, A felicidade não se compra segue como o mais icônico da seara, iluminando corações com seu facho de luz benévola. Sem dúvidas, a excelente atuação de James Stewart também contribui para amplificar o carisma da história. Um dos melhores de sua geração, o ator humaniza ao máximo seu George e desperta identificação por meio de sua inabilidade para lidar sozinho com os próprios problemas. Consequentemente, torna-se fácil torcer para que tudo se encaixe em sua vida, como se a dificuldade do personagem também fosse a nossa. E, nos seus últimos instantes, a história se reafirma como um elogio à misericórdia e, nos mais sensíveis, pode produzir algumas lágrimas de comoção.

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