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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Detona Ralph e o doce sabor da nostalgia

Saudosistas de plantão encontram em Detona Ralph (Wreck-it Ralph, 2012) uma deliciosa oportunidade para reencontrar o universo do videogame e se apaixonar por personagens em cujo carisma reside o grande trunfo da animação. A trama é bastante simples e acessível aos pequenos: Ralph é o antagonista de um jogo homônimo ao título do filme, e sua condição já o deixou cansado. Afinal, ninguém quer estar perto dos vilões, muito menos os demais habitantes do jogo. Todos os louros e atenções se direcionam para Conserta Félix Jr., o responsável por salvar o prédio do jogo da destruição de Ralph. Nessa premissa, torna-se clara a discussão central do longa: qual o lugar e o papel de cada um no mundo e no contrato social? A pergunta reverbera ao longo dos 101 minutos da história sem qualquer pretensão filosófica, envolta em mil peripécias, como bem cabe aos filmes do gênero. E lutar contra o rótulo negativo é a grande missão da vida de Ralph, que vai do muito além do que a sua carcaça de malvado leva a crer.

O grande nó da narrativa de Detona Ralph se estabelece quando o gigante decide sair de seu jogo e buscar uma medalha que lhe confira a honra e o prestígio de que Félix sempre desfrutou. Com isso, ele desestrutura um brinquedo que existe há anos e hoje lida com o fantasma da obsolescência. Em tempos de tecnologia exacerbadamente avançada, as novas gerações tiveram sua forma de lidar com o entretenimento repaginada, e o espaço dos jogos mais tradicionais vem se reduzindo dia após dia. Quem poderia se interessar por Ralph e sua turma no videogame? Nesse sentido, o diretor Rich Moore – roteirista do curta Technological threat (idem, 1988) – lança luz sobre a sede constante de novidade, que exige a renovação rápida das fontes de diversão e privilegia o cibernético. É o prosseguimento de uma temática abordada por Moore no supracitado curta, que mostra o esforço de um auxiliar de escritório para não ser substituído por um robô. Um risco semelhante ao que o jogo corre e uma discussão muito pertinente em nossos dias de relacionamentos mediados pela internet, bandeira também levantada por filmes adultos, como o propositalmente frio A rede sócial (The social network, 2010).

Uma vez fora de seu lugar de origem, Ralph adentra ambientes que nada têm a ver com o seu, causando confusão em um jogo de combate muito mais moderno em que a missão é destruir os insetrônicos, perigosas criaturas de cujos ovos nascem pequenas pragas que se proliferam com velocidade espantosa. Ali, existe a chance de faturar uma medalha pela missão cumprida, o que seduz Ralph e o leva a comprar o desafio proposto no jogo, sem se ater as consequências problemáticas de sua atitude. Se ele não é parte daquela engrenagem, sua presença ali, cedo ou tarde, causará transtorno, o que, de fato, acaba acontecendo e o faz atravessar novamente o mundo dos jogos e ir parar na Corrida Doce, em que também é concedida uma medalha ao vencedor de uma disputa automobilística envolvendo carros feitos de guloseimas multicoloridas. É lá que o gigante conhece Vanellope von Schweetz, uma garotinha obstinada em participar da tal corrida e vencê-la, mas cujas chances são remotas, já que ela é vista como um bug do sistema.



Ralph e Vanellope têm em comum o fato de serem marginalizados em seus respectivos jogos e a disposição em suplantar suas condições ditas naturais. A amizade que nasce entre os dois é a prova de que existe uma grande identificação de um com o outro e é a junção de suas forças que faz a trama de Detona Ralph engrenar de vez, exibindo a habilidade dos roteiristas Phil Johnston e Jennifer Lee em eletrizar plateias de crianças e adultos com sequências de aventuras e desventuras. A animação é um achado em vários sentidos, e sua estrutura ortodoxa está longe de ser um demérito. Em uma produção que se volta para um passado nem tão distante, hoje concebido como quimera, a opção por conduzir a trama com classicismo soa mais que adequada. Com isso, a Disney volta a provar o quanto é especialista no terreno das animações, incluindo Detona Ralph em uma lista que contempla títulos mais ou menos recentes como Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003) e Up – Altas aventuras (Up, 2009), ainda que, para alguns, este último não esteja em pé de igualdade no que tange à qualidade para alguns cinéfilos.

Para além de qualquer traço de maniqueísmo, uma armadilha que sempre ronda principalmente a dramaturgia dos filmes de animação, o longa de Moore demonstra que, por vezes, as boas intenções estão somente na aparência. O oposto também se revela verdadeiro em alguns casos. O rei da Corrida Doce, a certa altura, revela não pertencer à categoria que seu exterior faz pensar, e leva Ralph a entender que todos apresentam sua cota de surpresas, para o melhor e para o pior, tal qual acontece na vida. Em outras palavras, Detona Ralph é uma animação com sua dose de profundidade, um comentário que se faz sem o pressuposto de que o puro entretenimento não tenha o seu valor. Mas é sempre melhor quando um exemplar do gênero alcança patamares mais altos e discute assuntos que interessam a pais e filhos sem perder de vista o componente de diversão que lhe subjaz. Analisando sob o viés literário, o filme cresce ainda mais, por trazer à tona os conceitos de herói, super-herói e anti-herói. Em tempos nos quais se tornou mais atraente torcer pelos vilões, será mesmo que Ralph precisa mostrar um lado bonzinho para conquistar a audiência? Por todos esses fatores, Detona Ralph cresce a cada sequência e seduz à base de alguns clichês morais bem desenvolvidos e frenesi visual.

AVALIAÇÃO: ****

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