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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Amor à tarde e as mazelas do coração inquieto

A inquietude do coração, tema recorrente na obra de Eric Rohmer, também é a tônica de Amor à tarde (L’amour l’après-midi, 1972), outro de seus olhares para o mais universal dos sentimentos que se revela um exercício de paciência. Para os contemplativos, é uma fonte agridoce. Para os apressados, uma sessão aborrecida. Via de regra, pelo menos. No centro da narrativa, está Frédéric (Bernard Verley), que trabalha em um pequeno escritório em Paris e está desorientado no que tange ao pulsar apaixonado de seu coração. A princípio, ele ainda não se deu conta dessa realidade, ou não quer exteriorizar esse sentimento de confusão. O casamento com Hélène (Françoise Verley) parece bem, afinal, existe amor entre eles. Mas não parece o bastante para o atormentado Frédéric, que olha as ruas das janelas dos cafés em que passa as tardes de intervalo do trabalho. Paira sobre ele uma certa desilusão, e as visitas ocasionais de sua amiga Chloé (Zouzou) colocam ainda mais lenha nessa fogueira de falta de rumo.

Em longas conversas, os dois expõem seus pensamentos sobre viver a dois, com todas as incertezas que carregam consigo, e fazem de Amor à tarde um exemplar de Cinema calcado na palavra, que reina sobre qualquer ação e produz instantes consecutivos de reflexão genuína. Os sentimentos, ainda que nomeados, não se permitem encampar de todo. Estamos sempre tentando entendê-los e explicá-los, por mais que essas tentativas sejam armadilhas. É o que os dois amigos fazem. Para Frédéric, as visitas de Chloé são a única possibilidade da qual ele dispõe para extravasar seus sonhos com outras mulheres. Ele jamais chega a concretizar suas fantasias de estar em outras companhias que não a de sua mulher, apenas ensaia esse desejo verbalmente, tendo Chloé como ouvidos atentos e, por vezes, comentarista ácida. Como são amigos de longa data, os meios termos são dispensados entre eles: o jogo é aberto ao máximo, como quem não tem a menor intenção de esconder nada do que pensa. E, nessa sinceridade a toda prova, Rohmer diagnostica a crise sentimental de seu protagonista .



Amor à tarde encerra a série dos seis Contos Morais do realizador, que consiste em filmes independentes cujo nexo narrativo está baseado na cisão de homens comuns entre um relacionamento promissor e sem qualquer restrição e outro cujas bases estão fundamentadas em uma moral frágil. É o caso do Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) de Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud, 1969) e do Jerome (Jean-Claude Brialy) de O joelho de Claire (Le genou de Claire, 1970). Mais do que retratar as indagações sobre o amor, a especialidade de Rohmer é flagrar sujeitos partidos ao meio pelas mazelas do coração, bem como sua inabilidade diante do amor, que os mantém na condição de aprendizes para os quais as lições devem ser constantemente repetidas. Frédéric não sabe exatamente o que fazer com seus sentimentos, e se vale dos encontros com Chloé como válvula de escape, idealizando situações e desprendendo-se de censuras. Sua mente voa livre, fazendo lembrar os devaneios do protagonista de A era da inocência (L’âge des tenèbres, 2007), que também se encontrava confinado a um cotidiano anódino.

É curioso, à primeira vista, saber que Rohmer se definiu como “um moralista do século XIX vivendo no século XX”. Porém, o contato com seus filmes deixa claro essa predileção por filmar à moda antiga, tanto em termos de forma quanto de conteúdo. Rigoroso, ele investe nos planos estáticos, libertos de qualquer extravagância da câmera, num estilo que pode ser comparado ao de Manoel de Oliveira, em cuja obra a palavra também reina, a exemplo do que se verifica em Um filme falado (idem, 2003). O que se pode depreender de Amor à tarde é que o cineasta é um sábio espião das nossas contradições no campo dos relacionamentos amorosos, que gosta de flagrar o nascedouro oculto dos imbróglios sentimentais e não restringe seus personagens a vícios ou virtudes em separado. Frédéric experimenta a estabilidade diária em seu casamento, mas quem disse que isso é o bastante? Não para ele, pelo menos. Seu coração pede mais: aventura, ousadia, quebra da rotina. Muitas alternativas, e a dúvida é proporcional à oferta de possibilidades. Afinal, do que ele precisa, o que o move: são as palavras ou basta apenas um olhar para lhe causar perturbação?

AVALIAÇÃO: *****

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