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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Vá e veja: a dolorida experiência do horror


O horror estampa a face de quem assiste a Vá e veja (Idi i smotri, 1985), uma das experiências mais devastadoras em termos de cinema das últimas décadas. É preciso resistência e coragem para acompanhar a jornada tétrica de um menino que perde a inocência em meio ao típico caos bélico, que também lhe causa feridas profundas nas entranhas. Florya (Aleksei Kravchenko) começa a história acreditando que a guerra pode ser muito empolgante e representar uma nova realidade para o seu país, a Bielorrússia (atual Belarus). Então, sente-se importante e necessário quando é convidado (arrastado, na verdade) a se integrar a um movimento de resistentes ao nazismo, que, como se verifica logo de saída, está fadado ao fiasco e à defasagem. Aquele menino tão cheio de certezas e esperanças vai passar por um dos processos de corrupção física e psicológica mais devastadores que se possa imaginar.

A estrutura de Vá e veja é relativamente simples, mas, nem por isso, deixa de impactar. Lá pelo segundo terço do filme, o diretor Elem Klimov abdica de uma narrativa ortodoxa para transformá-lo em uma colagem perturbadora de imagens da guerra. Através dessa escolha, tudo nos espanta, nos impacta e nos inquieta. O filme exige um espectador forte, que seja capaz de resistir a experiências viscerais. Mas que fique bem claro: não se trata de um espetáculo sádico pontuado por banhos de sangue. Acima de tudo, Vá e veja é um manifesto incisivo de alto teor político contra a barbárie, que apresenta traços marcantes de violência com espasmos de denúncia social. Bem no começo, Klimov hasteia a sua bandeira e a mantém constantemente arvorada, a fim de explicitar o desespero e a desesperança que acomete toda uma população. A figura de Florya é sinedóquica, pois sintetiza em si uma nação afrontada pelo confronto armado e que, com isso, tem seu bem-estar e sua luta cruelmente esmagadas.

Não há pedra que fique sobre pedra na película. A proposta aqui é a de um tour de force que desafia o público a todo instante. A harmonia se quebra, e a sua quebra lancina, punge e injeta o desejo de vociferar, de interromper todo aquele cataclisma e recomeçar a partir de um marco zero. Em dado momento, também chega a vontade de abandonar aquele percurso simplesmente parando de ver o filme. Ao mesmo tempo, porém, somos impelidos a verificar até onde transcorrerá essa epopeia deprimente. Existem muitos filmes sobre guerra, mas Vá e veja é diferente de todos, e impregna sobre a pele como uma tatuagem praticamente impossível de se apagar. O horror de Florya é, em certa medida, o nosso horror. Sem se apagar a qualquer base epistemológica declarada, Klimov nos entregou uma tese de doutorado sobre as chagas bélicas cuja digestão é longa e dolorosa. Somos expostos sem rodeios a corpos destroçados, fogaréus covardes, lividez de cadáveres e ganidos de dor, e essa exposição nos desorienta, fazendo parte da proposição descentralizadora de Klimov.


O murro dado pelo realizador é forte. E, se ele nos esmurra com tanto ímpeto e fúria vulcânica, um dia também foi esmurrado, pois as experiências de sensorialidade nefasta que se sucedem na tela são traduções cinematográficas das suas próprias, localizadas exatamente entre o fim de sua infância e o começo de sua adolescência. Vá e veja nos tira o rumo para nunca mais devolvê-lo, no mínimo, até ao final da sessão. E, como quem tateia o próprio caminho, testemunhamos o quanto a rima entre dor e horror pode ser verdadeira. Ademais, saber que existe um componente de verídico subjacente a toda essa selva violenta só contribui para amplificar o desconforto, para dizer o mínimo. Klimov elegeu a linguagem cinematográfica, certamente, por ter consciência do poder imagético. Ele poderia ter lançado seu manifesto por meio da literatura, mas as palavras, por mais que nos esforcemos, nem sempre são capazes de demonstrar sentimentos, complexos por natureza. Longe de querer minimizar a significância da literatura, o cinema é um rio caudaloso em cujo curso imagens potentes e permansivas podem assomar.

Linhas e linhas poderiam ser escritas a respeito de Vá e veja, pontuadas por palavras lisonjeiras (a edição de som e a montagem do filme são qualquer coisa de estupefaciente), mas elas não seriam o bastante, não equivaleriam à experiência do filme em si, tampouco a substituiriam. O filme vai muito além do que outros foram, e é por isso, também, que se fugiu aqui a uma parametrização sua com alguns dos diversos títulos que carregam a radiografia da guerra em seu DNA. Talvez, no máximo, seja possível estabelecer um fio comparativo entre ele e o recente Minha felicidade (My joy, 2010), igualmente russo e igualmente desorientador, mas com um resultado final insatisfatório e enfadonho, soando como um decalque mal ajambrado de Vá e veja. Este último é potente porque permanece como o ribombar de um instrumento grave e penetrante até a medula. Ambientado em um país friísimo e de estereótipos associados a essas tão baixas temperaturas, Vá e veja nos queima por dentro e nos deixa o tisne sobre a epiderme, repercutindo longamente como o libelo antibelicista mais perturbador da esfera audiovisual.

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