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segunda-feira, 25 de junho de 2012

A comunidade: uma visão sádica do apego ao dinheiro


Um primeiro contato com a obra de Álex de la Iglesia pode causar certa estranheza em espectadores que não tenham informações prévias acerca do seu estilo. Existe uma aura mista de arroubo visual e humor de ponta de faca no cinema praticado pelo diretor que chama a atenção em qualquer que seja o filme pelo qual se comece a conhecer a sua produção. Em A comunidade (La comunidad, 2000), a junção desses dois fatores rende uma história de contornos sádicos sobre o apego ao dinheiro, cuja protagonista é Julia (Carmen Maura). Ela é uma corretora de imóveis que faz de tudo para não perder a pose, mesmo que sua clientela, ultimamente, esteja perto da nulidade. Com uma lábia de dar inveja a muitos conquistadores baratos, ela nos é apresentada pelo roteiro em um dia chuvoso, no qual tem de apresentar um apartamento muito bem equipado a dois clientes em potencial. Durante a visita ao imóvel, ela mesma fica encantada pelo lugar, e pensa que, se não eles, ela poderia ser a dona do apartamento. Então, sentindo-se totalmente no direito de se presentear ao menos uma vez na vida, ela decide passar uma noite no lugar, como se fosse seu.

Naquele mesmo dia, ela recebe a visita de seu amante, que acha uma loucura a sua atitude, ao que ela replica, impassível, dizendo que não há o menor problema, já que as chaves do imóvel deveriam ficar mesmo em seu poder. É no prédio em que se encontra esse apartamento que Julia encontra uma mala recheada de pesetas, que, mais tarde, ela descobre ter pertencido a um senhor que economizava há anos para sair de seu lugar em direção a outro. Aos poucos, a tal comunidade do título vai se revelando: todos no prédio sabiam da existência daquela mala, apenas não sabiam onde ela se encontrava. A partir do momento em que Julia toma posse dela, seus problemas começam. Cada um dos moradores, tipos estranhíssimos e suspeitíssimos, fará o que for necessário para colocar as mãos na alta quantia, demonstrando que, quando os numerários entram em cena, as máscaras sociais despencam mais facilmente. Nenhum deles consegue sustentar por muito tempo a farsa da política da boa vizinhança, e revela seu caráter à medida que toma atitudes amorais em prol da obtenção do dinheiro.

Iglesia trabalha com alguns clichês em A comunidade, mas não permite que seu filme escorregue nas armadilhas de um roteiro esquemático. Sua direção favorece o talento de Maura, que reina soberana em suas aparições, dominando a tela quase ininterruptamente. Julia caiu como uma luva para a atriz, que se esbalda com as várias peripécias por que passa a personagem. Aliás, sua presença no elenco, especificamente na condição de protagonista, revela um dos índices de diálogo da obra de Iglesia com a de Almodóvar. Existe uma similitude nos traços de humor negro e algo bizarro que ambos apresentam em seus filmes, e a escalação de Maura, além de acertada, demonstrando que Iglesia soube se valer da influência almodovariana em sua obra sem se transformar em mero decalque do original. O diretor basco exibe identidade própria, e se mostra um tanto mais sanguinário que seu “mentor”. Normalmente, chega um momento em seus filmes em que o sangue é jorrado. Em cada um, o episódio se dá de uma maneira diferente, o que atesta, no mínimo, a criatividade de um diretor diante daquilo que parece ser um de seus fascínios. Em A comunidade, não é diferente: existe um percurso que resultará em derramamento de sangue, o qual está envolto em circunstâncias tragicômicas.


A crítica acolheu muito bem a proposta do realizador. Felizmente, diga-se de passagem. Existem vários bons motivos para se assistir ao filme, alguns dos quais já foram mencionados aqui. A comunidade sagrou-se vencedor do Prêmio Goya, a versão espanhola do Oscar, em 2000. A película é construída com base na dosagem adequada dos ingredientes cômicos, dramáticos e críticos, uma habilidade requerida de muitos diretores que ainda não aprenderam a fazer bom uso dela. Some-se a tudo isso o fato de a língua falada pelos personagens ser o espanhol. Houve quem dissesse, em uma resenha sobre o filme, que o fato de ele ser falado em espanhol contribui decisivamente para amplificar seu apelo cômico, bem como a sua passionalidade, no sentido mais amplo do termo, que é o que se relaciona a sentimento. Toda fala de Julia, por exemplo, é impregnada de sentimento, seja o medo, seja o egoísmo – sim, estamos diante de uma anti-heroína -, seja o praguejar contra a perseguição insistente dos seus “queridos” vizinhos. Há que se concordar com o crítico que afirmou que, se fosse um filme falado em inglês ou francês, talvez metade de sua força e graça se perderia.

Em meio a tanta gente cobiçosa, contudo, existe um único ser capaz de colaborar com Julia, sendo a sua grande tábua de salvação. O personagem é uma nítida referência de Iglesia a Star Wars, tanto pela sua caracterização quanto pela sua fixação pela hexalogia de George Lucas. Incorporando o melhor estilo cavaleiro Jedi, ele conduz Julia a uma fuga espetacular, levando A comunidade ao seu clímax, exibindo todo o talento do diretor com a construção de sua narrativa. Ele poda as eventuais arestas que poderiam surgir e entrega uma longa sequência de acerto de contas entre a corretora e seus algozes (?!), uma verdadeira tradução da amoralidade que atravessa o filme. No fundo, ninguém ali é um exemplo de honestidade, nem mesmo Julia. Por conta disso, a torcida do público fica um tanto truncada, e sua decisão pode ser a de se colocar a favor de quem está menos distante de um padrão de lisura. O amor ao dinheiro, raiz de todos os males, está nitidamente impresso na estrutura de A comunidade. E essa oscilação de pensamento passível de emergir só revela o quanto o emprego do humor despido de grumos de correção política pode funcionar de modo análogo a uma tenaz afiada, que vai de encontro a algumas de nossas mazelas, gerando risos de desconforto em meio a esse confronto.

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