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terça-feira, 29 de março de 2011

Retratos do real em Entre os muros da escola


Capturar a realidade nunca foi uma obrigação do cinema, embora muitos cineastas já tenham se debruçado sobre essa premissa ao longo de mais de cem anos da invenção desse que é um dos mais poderosos instrumentos de comunicação, por muito tempo não tendo sido considerado arte. Mas o outro lado também sempre existiu.
É maravilhoso poder embarcar em histórias surpreendentes em sua inverossimilhança, com carros explodindo, mortes inacreditáveis, romances em que o final feliz é um caminho certo e outras improbabilidades da vida real. Mas acompanhar a tentativa de apreensão das agruras diárias que, por vezes, nos entorpecem, também tem sua validade.
Entre os muros da escola (Entre les murs, 2008) navega pelas águas assustadoras do verdadeiro, ainda que na acepção mais cinematográfica da palavra, sem se dar a discussões filosóficas e existencialistas que ela pode e, certamente, suscita. As lentes de Laurent Cantet (Em direção ao sul) estão voltadas para o cotidiano tumultuado de uma escola na periferia parisiense onde se encontram todos os tipos de estudantes. Ali, os professores que têm de lecionar para um público tão heterogêneo matam um leão por dia, lidando com reações inflamadas de estudantes que não encontram motivação para prosseguir com suas atividades discentes. Não raro, perdem a paciência, explodindo nos bastidores com os demais colegas.
O foco do longa, todavia, está em um professor específico: François Bégaudeau. Ele dá aulas de francês, e vive o desafio de colocar na cabeça dos seus alunos a importância de se aprender e do quanto o estudo pode render bons frutos. A turma para a qual ele ensina tem imigrantes de várias etnias misturados aos franceses "legítimos", o que é um polo gerador de constantes conflitos. De certa forma, esse contingente diversificado que se justapõe em um espaço tão reduzido funciona como um microcosmos da sociedade francesa atual: múltipla, polarizante e, ao mesmo tempo, fragmentária em sua essência. Esse cnceito pode ser estendido, ainda, para a sociedade contemporânea, na qual reina o multifacetado. Assim, é de se esperar que a sala de aula seja um barril de pólvora, com pequenas bombas em potencial para explodir.
Vale ressaltar um aspecto que torna Entre os muros da escola um filme que se coloca no meio do caminho entre ficção e documentário: os personagens do filme não são atores profissionais, o que lhes confere em cena um naturalidade flagrante. Quando falam, de certa forma expõem o que verdadeiramente sentem e vivem, pois as características que apresentam são também as de seus intérpretes. O próprio François é autor do livro no qual o filme se baseia, e faz o papel dele mesmo, sendo personagem e figura real simultaneamente. Os limites entre o que é ou não verdade ficam por demais fragilizados, a ponto de serem dissolvidos paulatinamente. Nessa linha, há também Jogo de cena (idem, 2007), um espécime exemplar da leva de documentários que confundem a cabeça do espectador.

Mas decifrar se isto ou aquilo é, de fato, real, é perder muito do debate que Cantet levanta, sobre as mais variadas questões. Afinal, qual o o papel de um profissional da educação nos dias de hoje? As escolas devem ter sua parcela de responsabilidade no ensino das regras de conduta de um indivíduo? Como estimular o aluno a aprender, se o próprio sistema educacional empurra para uma forma de lecionar que apresenta falhas graves? São essas e várias outras questões que se sucedem durante o transcorrer do filme, que levou a Palma de Ouro em Cannes no ano de 2008, e foi um dos indicados ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2009. Ambos merecidos, embora o segundo prêmio não tenha sido ganho, já que o filme perdeu para A partida (Okubirito, 2008), representante do Japão naquele ano.
Em várias passagens, Entre os muros da escola revela sua força, como quando os alunos ganham voz e explicitam o que pensam de forma categórica. Alguns não sabem muito bem o que querem, mas já descobriram o que não querem. A ação do filme é quase toda passada no ambiente escolar, e é naquelas quatro paredes, sejam as da sala, sejam as da quadra de esportes, que os anseios, angústias, ressentimentos, inseguranças, e também as alegrias e vontades de cada um ficarão nítidas. No fim das contas, o longa serve como um eficiente tratado do que é encarar o desafio de transmitir a um grupo de seres tão distintos entre si algo que possa transformar suas vidas, e lhes garantir um futuro alentador.

Um comentário:

  1. Patrick, eu adoooro esse filme. Saí do cinema meio anestesiado depois de assisti-lo. Muito bom. Emocionante, forte, as vezes dá um sentimento de impotência diante de tudo aquilo. Muito bom.

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