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quinta-feira, 31 de março de 2011

Irreversível e os ciclos e acasos de crueldade

Sob a chancela do diretor Gaspar Noé, o público de cinema pôde se colocar diante de uma das visões mais perturbadoras da violência contra a mulher na ocasião do lançamento de Irreversível (Irreversible, 2002). O filme é o trabalho de maior repercussão e alcance midiático do realizador argentino radicado em território francês até hoje, o que se deve ao fato de ser uma obra que expõe sem edulcorantes a trajetória de rendição à barbárie vivenciada por Alex (Monica Belucci), uma mulher que sofre um doloroso estupro no caminho de volta para sua casa. Esse fio de argumento é o norte de uma trama que busca discutir a urgência de se repensar o tratamento dispensado ao sexo feminino nos dias de hoje, e se estende como um indicador da necessidade de se combater o acelerado processo de coisificação a que os seres humanos estão sendo submetidos dia após dia, num ritmo perigosamente progressivo.

A partir de seu título pessimista, Noé engendra o enredo do filme de forma não-linear, preferindo iniciar pelo fim e finalizar pelo início o cotidiano tranquilo que se torna tumultuado dessa protagonista. Paulatinamente, o diretor vai acionando sua máquina de acasos aterrorizante, o que responde pelo extremo desconforto que muitas plateias demonstraram nas primeiras sessões do filme pelo mundo. No festival do Rio de 2002, por exemplo, eram frequentes os relatos de mulheres que julgaram a violência contra Alex acima do suportável. Houve inclusive casos de desmaios, tamanho o impacto gerado pela sequência “magna”, por assim dizer. Pois bem. Tudo começa (ou termina, evidentemente, já que se trata de uma narrativa em retrocesso) com a corrida de dois homens desesperados e desarvorados à procura do homem que estuprou e espancou Alex. Eles são Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel), o atual e o ex-namorado dela, que juram vingança ao responsável por ferir a honra e a dignidade de Alex.
Daí em diante, o espectador vai acompanhando, sempre em ritmo contrário, o que aconteceu antes da ocasião fatídica, e o principal evento precedente é uma festa na qual estão os três personagens citados, durante a qual eles dançam e embriagam-se, e de onde surge uma discussão de relação entre Alex e Marcus. É por causa dessa discussão que Alex toma a decisão de voltar para casa sozinha, caminhando compassivamente pelas ruas desertas de uma Paris noturna e assustadora. E é nessa caminhada solitária de volta para casa que ela se torna vítima da ânsia sexual de um estuprador, e Irreversível nos apresenta seu ápice narrativo. A sequência que mostra a violência cometida contra Alex consome cerca de 10 minutos do filme, demonstrando um realismo abissal para os padrões da representação cinematográfica. Isso explica perfeitamente o intenso desconforto sentido por parte do público que foi exposto à cena. É realmente devastador presenciar aquele acinte tão deliberado contra uma mulher, um ser humano que só estava em seu caminho de retorno a casa. Noé imprime uma visceralidade notável ao filme nesse momento, amplificando sua força como um manifesto urgente sobre a violência que gera violência, bem como sobre as instâncias malévolas da vingança que vão sendo disseminadas nos corações e nas mentes de Marcus e Pierre.
Os dois amigos passam a dar a vazão a uma sede implacável de justiça, e iniciam uma caçada veemente ao autor daquela barbaridade. Em cada um de seus instantes, Irreversível vai se mostrando como uma crescente espiral de desconforto, suprimindo o fôlego do espectador a passos compridos, com o perdão da estranha sinestesia. Mas é exatamente essa sensação que acompanha o espectador do longa-metragem: a de desorientação. Noé lança mão de uma artilharia pesada ao retratar essa jornada de desespero e crueldade, que não deixa impassível a quem põe os olhos diante dela. Irreversível não um filme para se ver confortavelmente, mas sim um tratado pesado sobre chagas medonhas de uma sociedade em passos de falência, de uma humanidade que assinala uma caminhada para a autodestruição preocupante. Em uma outra sequência, de igual peso dramático, Marcus e Pierre invadem um clube sadomasoquista gay, no qual pensam poder encontrar o estuprador de Alex. Ali, a verve violenta da direção de Noé aparece novamente com toda a força, em cenas que marcam, como a que mostra a fúria de um dos amigos, extravasada por meio de um extintor de incêndio. Trata-se de um momento tétrico apresentado pelo filme.

Ao longo de sua carreira, Noé vem demonstrando forte interesse em abordar as temáticas do sexo e da violência, bem como da vingança e da percepção relativa da passagem do tempo, outro fator determinante no desenrolar às avessas de Irreversível. O primeiro trabalho do diretor foi um curta-metragem intitulado Tintarella di luna (idem, 1985), já apresentava parte de sua inclinação para tratar desses assuntos. Seu filme seguinte também foi um curta, que atende pelo nome de Carne (idem, 1991), e que foi premiado no festival de Cannes de 1991, ao qual se sucedeu Sodomites (idem, 1998), que apresenta cenas de sexo explícito. O primeiro longa-metragem de Noé foi Sozinho contra todos (Seul contre tous, 1998), filmado na França, país em que ele vive já há algumas décadas. Esse último foi exibido em inúmeros festivais, e recebeu láureas em quase todos, dentre as quais se podem citar o prêmio de melhor diretor no festival de Sarajevo e o de melhor filme no festival de Buenos Aires. Então, veio Irreversível, até hoje sua obra mais conhecida, mas não a mais impactante, ou não a única impactante. O próprio Noé fez uma aparição em Irreversível, na qual está completamente nu, interpretando um dos frequentadores do clube invadido por Marcus e Pierre. A exemplo de seus trabalhos pregressos, esse recebeu o Cavalo de Bronze no festival de Estocolmo, além de ter sido exibido no festival de Cannes, para uma plateia horrorizada com o que estava vendo.
Os diálogos são outro ponto forte de Irreversível, que constrói uma ponte de pilares bastante sólidos para a reflexão sobre a condição humana nos ditos tempos modernos. O filme tem quase dez anos de existência, e é o tipo de obra que ainda terá ressonâncias pelas próximas décadas seguramente. Parte desses bons diálogos são pronunciados na cena em que o trio de protagonistas está conversando no metrô, ainda antes de ir à festa na qual o casal discute. Cassel e Belucci, aliás, são casados na vida real, e já o eram à época de filmagem do longa. Ambos exibem uma sintonia brilhante em cena, e dão conta da intensidade dramática requerida em seus papéis, assim como Dupontel, que ainda segue como um semidesconhecido do grande público. O casal já trabalhou oito vezes juntos, em títulos como O apartamento (L’appartement, 1996) e O pacto dos lobos (Le pacte des loups, 2001), e refinam sua capacidade simbiótica em cena a cada nova parceria. Vale comentar que o recurso de contar a história de trás para a frente voltaria a ser empregado em outro filme francês dois anos depois, o drama Amor em cinco tempos (5 x 2, 2004), no qual François Ozon analisa o início e o fim de um casamento em exatamente cinco momentos. É um recurso narrativo eficicente que, em Irreversível, configura-se como uma das armas mais letais oferecidas por Gaspar Noé, em um filme que não deixa pedra sobre pedra, cujo aparente happy end é apenas o prenúncio de uma longa e trágica jornada noite adentro.

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