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sábado, 27 de maio de 2017

QUINTETO DE OURO - PEDRO ALMODÓVAR

É fácil encontrar informações sobre a vida e a carreira de Pedro Almodóvar com uma rápida pesquisa no mar cibernético. Por isso, os comentários trazidos nesses parágrafos introdutórios não são mais que o resultado de algumas visitas a páginas que já se encarregaram muito bem dessa função. Faz tempo, aliás, que seu nome se tornou uma reconhecida grife, sobretudo entre os amantes do cinema. O próprio Almodóvar já vem assinando seus trabalhos para as telas apenas com o sobrenome, uma forte demonstração de consciência de sua fama. O público de seu país, curiosamente, não lhe dedica o mesmo entusiasmo que o estrangeiro. No Brasil, é referência de criatividade e irreverência com vários títulos em que não economiza críticas sarcásticas a pessoas, comportamentos e instituições. Sem falar nas suas cores, normalmente berrantes e, por isso mesmo, um espetáculo à parte na composição de cenários.

Sua cidade natal é a minúscula Calzada de Calatrava, que, até 2016, tinha pouco mais de 4 mil habitantes. A carreira de realizador se iniciou com curtas-metragens na década de 70, não lançados comercialmente nem no Brasil nem em Portugal. O primeiro longa foi Pepi, Luci, Bom e outras garotas da turma (Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, 1980), um olhar sobre os personagens do título desprovido de uma trama central. Ao longo da carreira, colecionou alguns musos: Antonio Banderas, Carmen Maura, Marisa Paredes, Cecilia Roth, Rossy de Palma e Penélope Cruz. De Labirinto de paixões (Laberinto de pasiones, 1982) a Julieta (idem, 2016), quase todos os seus filmes contam com a presença de um ou mais desses parceiros. Almodóvar também é responsável pelo roteiro de todos os seus trabalhos, a maioria deles original. 

Há dois momentos claros em sua filmografia: dos primeiros filmes até A flor do meu segredo (La flor de mi secreto, 1995) se verifica uma extravagância visual aliada a personagens mais grotescos e enredos em que diferentes manifestações da sexualidade são focalizados. A partir de Carne trêmula (Carne trémula, 1997) suas obsessões temáticas começam a ganhar roupagem levemente distinta, um tanto mais elegante, por assim dizer, mas não necessariamente menos provocativa e inquieta. A questão dos entrechos sexuais fora do comum ainda volta com força em A pele que habito (La piel que habito, 2011), uma de suas experiências mais soturnas e um dos roteiros baseados na literatura. Era só uma questão de tempo até ele aparecer por aqui, e sua escolha para este mês foi motivada pela sua presença em Cannes como presidente do júri dos longas-metragens da competição principal. Para não me alongar demais, apresento meus cinco favoritos do diretor em ordem cronológica, apontado o que considero justificativa para que cada um deles mereça fazer parte dessa seleção.


1. Mulheres à beira de um ataque de nervos (Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988)


A famigerada opulência cromática almodovariana também está inserida nesse longa, que rendeu ao realizador espanhol uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano seguinte à sua concepção. Mas essa característica badalada de seus filmes não é a única a comparecer aqui. Almodóvar também coroa o longa de toda uma passionalidade, narrando, por meio de um roteiro de sua própria autoria, um dia de peripécias na vida de Pepa Marcos (Carmen Maura). Na verdade, Pepa é somente uma das mulheres que se encontra no estado declarado pelos títulos original e em português do filme. Ao longo do filme, os acontecimentos vão se superpondo, o que deixa a nítida sensação de que ele dura ainda menos do que seus enxutos 89 minutos. Almodóvar sabe cruzar os destinos dos personagens de modo inteligente e divertido, mantendo a fidelidade à sua gramática particular e, ainda assim, é capaz de surpreender.  Tudo flui com muita naturalidade e humor na história, e os risos podem ser praticamente inevitáveis. [crítica completa]

2. Ata-me! (¡Átame!, 1990)


Mais um das parcerias com Antonio Banderas, dessa sob a persona de um doido varrido que foge do sanatório em que estava para atazanar uma atriz pornô que conheceu em um bordel. Ao reencontrá-la, percebe que o sentimento não é recíproco e toma uma atitude questionável, como louco que é: sequestrá-la. Uma vez convivendo com ele, a mulher pode se descobrir apaixonada e eles vão viver uma linda de história de amor pelo resto da vida, assim pensa Ricky. Será mesmo? E como a inclinação de Almodóvar é maior para a comédia, as desventuras desse não-casal ganham tintas piadísticas, sem muito compromisso com a verossimilhança. Mesmo porque, como já se disse, o realizador gosta de se valer do cinema como um espaço da extravagância. Some-se a tal aspecto uma passionalidade folhetinesca, e os risos podem ser semeados e colhidos. Ata-me subverte sem a menor cerimônia o conto de fadas, mostrando que os sentimentos humanos podem ser estranhos e surpreendentes. Ainda hoje, é seu melhor encontro com Victoria Abril, com quem voltaria a trabalhar seguidamente em De salto alto (Tacones lejanos, 1991) e Kika (idem, 1993). Na pele de Marina Osorio, ela se mostra especialmente bela.

3. Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, 1999)



Retomei o contato com o último exemplar noventista de Almodóvar este ano, e a qualidade da obra segue depois de um hiato de 7 anos entre uma sessão e outra. Homenagem mais escancarada ao feminino, o longa faz de seu norte a jornada de Manuela (Cecilia Roth), obrigada a um processo de reconstrução depois de um atropelamento que ceifa a vida do filho único. Daí em diante, a trama se revela um daqueles enredos clássicos de acerto de contas com o passado, incluindo um retorno da protagonista à cidade onde passou vários anos e acumulou lembranças que lhe soam incômodas. Além de Roth, duas de suas outras musas aparecem: Marisa Paredes, grandiosa no papel de Huma Rojo e Blanche Dubois (a inserção metalinguística do roteiro), e Penélope Cruz, cuja personagem é o toque de iconoclastia que tanto atravessa a obra do diretor. Sobre o título, uma cena dos primeiros minutos o explica: é uma alusão a All about Eve, nome original de A malvada (1950), a que Manuela e o filho Esteban (Eloy Azorín) assistem. A presença masculina é quase nula, e os poucos homens que surgem estão escondidos sob um visual feminino.

4. Fale com ela (Hable con ella, 2002)


Talvez a peculiaridade mais curiosa de Fale com ela seja a demonstração de uma antítese do seu título ao longo da narrativa. Almodóvar visita o silêncio equilibrando o protagonismo masculino e feminino, o primeiro representado por Marco (Darío Grandinetti) e Benigno (Javier Cámara) e o segundo por Lydia (Rosario Flores) e Alicia (Leonor Watling). Os dois homens se encontram pela primeira vez na plateia de um espetáculo de dança, no qual se sentam lado a lado. As circunstâncias adversas envolvendo suas respectivas amadas voltam a uni-los algum tempo depois, e daí nasce uma amizade tanto improvável quanto bonita, marcada por companheirismo e empatia. Não faltam momentos mais descaradamente almodovarianos, como a viagem de um homem à genitália feminina, e suas cores pulsantes também comparecem aqui, sempre denotadoras de estados de espírito. A trilha de Alberto Iglesias é um alento para os ouvidos, com direito a Caetano Veloso entoando Cucurrucucu paloma, inclusive de corpo presente. No Oscar, foi contemplado com o Globo de Ouro de melhor roteiro original, e causou polêmica com as mortes reais dos touros que aparecem nas sequências do primeiro ato.

5. Volver (idem, 2006)


Um filme sobre a volta. De quem não foi. E de quem tinha ido. E à terra na qual se foi parido. Depois da transpiração de masculinidade vista em Má educação (La mala educación, 2002), Almodóvar retoma sua parceria com Penélope Cruz, iluminada como Raimunda, mãezona capaz de atos insólitos em nome da filha. Na cidade onde os ventos são quase como pessoas que levam e trazem pessoas, ela vive a difícil tarefa de dar conta da própria vida e de vidas ao seu redor - além da filha, ela tem uma irmã e algumas amigas, entre elas uma misteriosa russa (Carmen Maura, outra parceria retomada) que não fala uma palavra de espanhol, mas lava cabelos que é uma beleza. Cheio de momentos marcantes, Volver é o que o realizador sabe fazer de melhor: visitar a alma feminina, quase como se fosse uma delas, e extrair detalhes de suas personalidades tão realistas. Das várias sequências que poderiam ser mencionadas, fico com uma bem mais que especial: Raimunda no centro de uma roda cantando uma música que faz parte de sua vida há anos, acompanhada ao violão e cercada pelos integrantes da equipe de filmagem para a qual trabalha como cozinheira. [crítica completa]

Um comentário:

  1. Trocaria Ata-Me por Abraços Partidos que gosto muito, ainda acho Fale com Ela o melhor filme do diretor.

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