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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

QUINTETO DE OURO - REALIZADORES ITALIANOS

Sempre existem muitas opções de tema para o Quinteto de Ouro. A cada mês, a cabeça fervilha com as possibilidades, recortadas por alguns critérios objetivos que me permitem chegar à decisão final. "Já escrevi muito sobre atores", "Podia escolher um subgênero", "Por que não uma nacionalidade?" são alguns pensamentos que me ocorrem. Até que chegamos ao mês em que faço aniversário e eu decidi que precisava escolher um tema que revelasse mais diretamente algo da minha personalidade ou rotina. Foi mais ou menos assim que optei por listar os cinco realizadores italianos que mais aprecio e - vejam só! - dessa vez, em ordem de preferência (só fiz assim porque tinha bem claro na cabeça que ordem poderia apresentar aos leitores). 

Como professor de italiano e apaixonado pela cultura daquele país, já estava na hora de dedicar algumas linhas aos meus queridinhos da Bota. O critério a que recorri para chegar aos cinco nomes foi bem simples: só valiam diretores de quem já tivesse visto, pelo menos, três filmes que tivessem me cativado. Essa é  razão da ausência de Vittorio de Sica (dos quatro dele que vi, não me envolvi com Ontem, hoje e amanhã [Ieri, oggi e domani, 1963] e, proporcionalmente, os escolhidos tinham mais de meia dúzia de filmes vistos e aprovados por mim), Ermanno Olmi (apenas dois filmes vistos) e Giuseppe Tornatore (apenas o enternecedor Cinema Paradiso [Nuovo Cinema Paradiso, 1989]) e Ettore Scola (fui pego mesmo por Nós que nos amávamos tanto [C'eravamo tanto amati, 1975]). 

Aproveitei também para citar meu filme preferido de cada diretor, outra missão bastante difícil, mas instigante. Já que não terminei a filmografia de nenhum deles, pode ser que daqui a algum tempo essa lista não seja mais representativa, mas então ficará sendo o registro de uma época - adoro história e História. Já havia escrito sobre quase todos eles há três anos, então trago esses parágrafos de volta, alguns com sutis acréscimos. Com essas ressalvas, me sinto à vontade para trazer à tona, direto do coração, meus realizadores italianos mais queridos.

1. Michelangelo Antonioni


Poucos realizadores, talvez nenhum, podem ser apontados como exímios perscrutadores do silêncio como o era Michelangelo Antonioni. De sua observação paciente das palavras não ditas e mal compreendidas que resultam no abismo verbal entre os homens, nasceu a Trilogia da Incomunicabilidade, monumento aos conflitos gestados na alma e nunca plenamente resolvidos. Para a crítica, que caiu de amores por ele depois da exibição de A aventura no Festival de Cannes, justamente o primeiro tomo da Trilogia, era um cineasta a ser acompanhado. Entretanto, o prestígio alcançado com sua obra-prima triuna entrou em declínio assim que ele começou a filmar em língua inglesa. Daí para a frente, entregou filmes subestimados, que hoje valem a pena ser (re) visitados e apreciados em suas nuances psicológicas. A grande ironia que se abateu sobre ele foi a perda da fala, em decorrência de um derrame cerebral.

FILME PREFERIDO: A noite

2. Valerio Zurlini


Para a crítica, Zurlini era o "poeta da melancolia". Ao se entrar em contato com seus filmes, a afirmativa pode ser tomada como verdadeira, pois que os personagens que os compõem experimentam diferentes gradações de tristeza, mas não resvalam no dramalhão. São histórias de relações familiares, de amores complicados e da constatação do quanto é difícil saber se colocar em palavras diante do outro. Era impressionante sua capacidade de gerar consternação, e se deixar levar por suas narrativas calmas e clássicas é uma grande e intensa experiência. Como é difícil não derramar lágrimas diante dos irmãos trágicos de Dois destinos (Cronaca familiare, 1962) ou não se encantar pela poesia dos primeiros enlevos amorosos de A moça com a valise (La ragazza con la valigia, 1961)...

FILME PREFERIDO: A primeira noite de tranquilidade

3. Federico Fellini


Representante mais lembrado da época áurea do cinema italiano, o saudoso Fellini assinou obras que ora flertavam, ora se embrenhavam de vez no realismo fantástico. Não lhe faltava criatividade para seus enredos e seus roteiros e, mesmo em sua fase menos propícia à invenção, ele encontrou elementos que pudessem render uma das mais importantes produções fílmicas calcada na metalinguagem. Seu cinema, porém, não é somente um espaço de sonho: também há crítica social em seus longas, sobretudo à Igreja Católica, embora ele também a tivesse elogiado. O tédio da burguesia romana também está presente em Fellini, e sua parceria com Marcello Mastroianni é das mais profícuas da Sétima Arte. E o que dizer da parceria com Giulietta Masina, a qual rendeu o Fellini que mais amo? Renderia tantos parágrafos... É ideia para um futuro (espero) não muito distante.

FILME PREFERIDO: Noites de Cabíria

4. Luchino Visconti


Mais um representante da era áurea da cinematografia italiana, Visconti foi responsável por assinar o marco inaugural do neorrealismo, que consistia em tramas ambientadas nas regiões menos glamourosas do seu país vivenciadas por gente comum, encarnada por atores não profissionais. Por outro lado, também adentrou os aposentos da burguesia perto do seu nascedouro, flagrando suas contradições e suas debilidades. Seu filme mais famoso, O leopardo (Il gattopardo, 1963), traz uma frase que sintetiza o espírito de várias épocas: "É preciso mudar para que as coisas permaneçam exatamente como estão". Porém, o título de mais hipnótico cabe a Morte em Veneza (Morte a Venezia, 1971), a depuração do olhar sobre a beleza e a perfeição como ideais aos quais se está fadado a apenas olhar.

FILME PREFERIDO: Morte em Veneza

5. Dario Argento


Nem só de dramas arrebatadores vivem os realizadores italianos! Argento responde pela porção sangrenta das narrativas, mesclando terror e mistério com histórias cujos pés caminham no terreno do sobrenatural sem grandes reservas. Quando debruçadas sobre a realidade, suas tramas seguem os passos de protagonistas obstinados em elucidar crimes. Daí surgiram enredos como o de Suspiria (idem, 1977) e sua paleta de cores embasbacante, o de Prelúdio para matar (Profondo rosso, 1975) com sua violência estilizada e rubra ou o de Phenomena (idem, 1985), com uma entomológica Jennifer Connelly. Em geral, Argento é para olhos corajosos.

FILME PREFERIDO: Phenomena

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