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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

RETROSPECTIVA 2014: MELHORES FILMES

Elaborar listas de filmes preferidos é uma das tradições de final de ano. Uma tarefa árdua, que pode revelar injustiças e ser fonte de muita frustração quando nos damos conta de que não sobrou espaço para aquele filme querido, tudo porque só cabia um determinado número na seleção.

Angústias à parte, montar essas listas também é prazeroso, uma forma de compartilhar com amigos do universo cinéfilo o que mais nos agradou e descobrir pontos de contato ou divergência. Sem mais palavrórios, apresento os meus 15 longas-metragens prediletos que tiveram espaço no circuito comercial ao longo de 2014 - a primeira de várias listas que serão publicadas até o último dia de dezembro. Como me propus a fazer ano passado, estão listados em ordem de preferência. Seguem abaixo:

1. BOYHOOD (idem, 2014), de Richard Linklater

O tempo é como a miragem: sempre diante dos olhos, mas nunca apreendido, revela-se fruto da nossa percepção subjetiva. Linklater se mostrou novamente um artesão dessa grandeza que foge irreparavelmente ao nos conduzir por um caminho de 12 anos na vida de um garoto comum. Faltam adjetivos para qualificar sua empreitada, porque palavras são sempre insuficientes.



2. ELA (Her, 2013), de Spike Jonze

Por trás de sua aura de ficção científica, o primeiro filme de Jonze com roteiro de sua própria autoria é um tratado atemporal das relação amorosas. Quando se ama, o coração se torna palco de idealizações, e o protagonista Theodore materializa essa certeza de modo cortante, apaixonado que se torna por Samantha, apenas uma voz. Apenas uma voz?



3. INSIDE LLEWYN DAVIS (idem, 2013), de Ethan e Joel Coen

Canções lindas de doer embalam a jornada errática de um rapaz comum, incapaz de manter sequer um gato sob seus cuidados, quanto mais administrar um namoro com uma jovem tão temperamental. Os irmãos cineastas nascidos no Minnesota revisitam suas velhas obsessões, mas provam serem capazes de um sopro de renovação a partir da mesma matéria-prima.



4. O LOBO DE WALL STREET (The wolf of Wall Street, 2013), de Martin Scorsese

Loucura, loucura, loucura! O bordão irritante de um certo apresentador de TV se encaixa como uma luva para as extravagâncias de um DiCaprio verdadeiramente lupino. Não faltam ousadia e humor cáustico na cinebiografia de um obstinado por riquezas, capaz de de todos os excessos possíveis e imagináveis. A cena da discussão do protagonista e seu amigo drogados é um achado.



5.  NEBRASKA (idem, 2013), de Alexander Payne

Com o perdão do trocadilho, apostar em um filme de estrada é meio caminho andado para a narrativa dar certo, a não ser que roteiro e direção estejam em mãos desastradas. Não é o caso de mais esse road movie de Payne, que também aborda a velhice e brinda sua plateia com uma esplêndida fotografia em preto e branco enquanto conta a história de um senhor que cismou ter sido premiado.



6. PAIS E FILHOS (Soshite chichi ni naru, 2013), de Hirokazu Koreeda

O afeto à moda oriental está em foco neste delicadíssimo exemplar de cinema de família. Os laços sanguíneos não são os únicos capazes de unir pais e filhos, e essa certeza está belamente ilustrada aqui, com direito a ecos ozuanos que atestam a capacidade de diálogo de um realizador afeito à infância. Passou como um foguete pelo circuito e tende a ser injustamente esquecido por muitos.



7. RELATOS SELVAGENS (Relatos salvajes, 2014), de Damián Szifron

Quando a fúria ou o desejo de vingança atingem a potência máxima, qual pode ser o resultado? O inspiradíssimo roteiro dessa coletânea de histórias oferece seis possibilidades, todas caminhando na linha tênue entre o humor e a tragédia. Pense num encontro de Almodóvar (um dos produtores) com Iglesia e adicione punhados de um estilo explosivo: o produto final será exatamente esse.



8. ERA UMA VEZ EM NOVA YORK (The immigrant, 2013), de James Gray

Duplamente injustiçado (a constante troca de títulos e o grande atraso do lançamento), o mais recente James Gray ratifica seu estilo um tanto perdido no tempo, o que tem significado positivo. Discorrendo sobre amor e perdão, o cineasta novaiorquino recua aos anos 40 e extrai mais duas interpretações soberbas de Marion Cotillard e Joaquin Phoenix.



9. O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The grand Budapest hotel, 2013), de Wes Anderson

Misto de homenagens às comédias de Ernst Lubitsch com ode à intertextualidade, essa fábula nada convencional adere à memória com facilidade. Como nunca havíamos pensado antes em uma parceria entre Wes Anderson e Ralph Fiennes? Deu tão certo aqui que precisa se repetir mais vezes, assim como o estilo do diretor, sempre capaz de se reinventar, como só os grandes conseguem.



10. O LOBO ATRÁS DA PORTA (idem, 2013), de Fernando Coimbra

Outra vítima do atraso na distribuição, esse suspense de camadas que se revelam cada vez mais assustadoras parte de um episódio real para levantar uma discussão sobre os limites da maldade humana. Deixe de lado o clichê "um representante do Cinema nacional". O lobo atrás da porta é Cinema e ponto. E Leandra Leal é uma das maiores atrizes em atividade.



11. O PASSADO (Le passé, 2013), de Asghar Farhadi

Mais uma drama familiar a conquistar espaço nessa lista, O passado também é feito de muitas camadas que impedem a perspectiva reducionista de bom ou mau. Todos os personagens são poliédricos, à semelhança do que Farhadi já havia feito em A separação. Novamente na incômoda posição de juiz, o público testemunha reviravoltas desconcertantes.



12. SOB A PELE (Under the skin, 2013), de Jonathan Glazer

Alegoria existencial em que se vislumbram Tarkovsky e Antonioni (guardadas as devidas proporções), o novo longa de Glazer veio para rachar pensamentos. Os que amaram - como este que vos escreve - foram cooptados pela proposta ousada de meditar sobre a condição humana em uma Terra decadente. Os detratores... bem, é melhor perguntar a eles.



13. AMANTES ETERNOS (Only lovers left alive, 2013), de Jim Jarmusch

Assim como Era uma vez em Nova York, vi esse em 2013, mas não pude inclui-los na lista do ano passado porque só estrearam esse ano. A história de dois vampiros milenares e sua perplexidade diante dos seres humanos não poderia ser mais jarmuschiana, com vários instantes de resenha (dolce far niente, para os italianos) e uma pulsação melódica contagiante. 



14. MAGIA AO LUAR (Magic in the moonlight, 2014), de Woody Allen

"Um Allen menor ainda é melhor que a maioria". Clichê que se repete de tempos e tempos, a frase está na ponta de língua de alguns para se referir a Magia ao luar, reiteração da verve sarcástica do cineasta septuagenário. Como um menino que oscila entre o deslumbre e o ressentimento diante do imponderável, ele também discursa sobre a inconstância dos homens.



15. VIDAS AO VENTO (Kaze tachinu, 2013), de Hayao Miyazaki

Com esse filme, Miyazaki anunciou sua aposentadoria, e uma multidão de cinéfilos já sofre pela orfandade iminente de um riquíssimo contador de histórias. Seu último trabalho - a menos que volte atrás na decisão - é também o mais complexo, e onde ele deixa mais clara do que nunca sua paixão por voar. Presente no título, o vento também é personagem importante.




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