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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O aspecto imperfeito da humanidade em Ferrugem e osso

Inexplicavelmente esnobada pelo Oscar, Marion Cotillard é a alma que preenche cada espaço de Ferrugem e osso (De rouille e d’os, 2012), drama assinado por Jacques Audiard. Realizador de O profeta (Un prophète, 2009), ele entrega mais uma história em que a intensidade se faz presente, capaz de comover e surpreender ao longo de seu desenvolvimento. Cotillard é Stéphanie, uma treinadora de baleias orca devotada ao seu trabalho e de poucos amigos. Quase sempre séria, ela vive um relacionamento conturbado como um namorado que está longe de oferecer o carinho de que alguém necessita, e seu caminho se cruza com o de Alain (Matthias Schoenaerts). Ele veio do norte da França e tem a árdua tarefa de criar o filho pequeno. Atualmente morando com a irmã, procura um emprego do qual possa tirar o seu sustento, e seu primeiro contato com Stéphanie não é dos mais felizes.  

Porém, depois de um início um tanto desastrado, não tarda para que os dois vão se aproximando mais e mais, até que surja entre eles algo além da amizade e aquém da paixão – ao menos, os dois insistem em afirmar para si mesmos e um para o outro que esse é o caso de ambos. Posteriormente, um acontecimento trágico se interpõe no caminho que Stéphanie e Alain vinham trilhando juntos, e envolve justamente a profissão que ela tanto ama. O fato despedaça a treinadora, inclusive literalmente, e inaugura uma nova condição em sua vida, na qual ela ainda pode contar com a presença de Alain, mas permeada por dificuldades, já que o mundo não foi pensado para alguém naquele estado. A essa altura do filme, Audiard já deu provas de que não está interessado em simplesmente comover seu público, mas em enxergar toda a humanidade dos personagens, sobretudo no aspecto imperfeito. Stéphanie e Alain não são meras vítimas das circunstâncias: os dois apresentam condutas proativas, indo à luta com as armas que encontram.

É justamente esse importante detalhe que evita o maniqueísmo da narrativa e permite que os protagonistas entreguem desempenhos memoráveis, sobretudo Cotillard. Trata-se de um papel complexo, marcado por nuances emocionais que seriam uma armadilha interpretativa para qualquer atriz, e ela consegue se desvencilhar de qualquer centelha de sentimentalismo barato – ainda que temporariamente privada de sua liberdade para ir e vir, Stéphanie jamais assume uma postura de coitadinha. E uma das cenas mais belas traz somente ela e a baleia responsável pelo seu acidente. De pé em frente ao tanque no qual fica o cetáceo, ela demonstra que seu amor pelo animal continua o mesmo e, simultaneamente, lamenta dentro de si por saber que não poderá retornar ao trabalho que tanto lhe dava alegria. A emoção da cena é potencializada pela trilha sonora, uma incumbência de Alexandre Desplat, parisiense que também cuidou das canções de filmes como O discurso do rei (The king’s speech, 2010) e Argo (idem, 2012). Longe de soarem apelativas, as melodias tristes invadem essa e outras passagens, imergindo o espectador em um clima melancólico que contribui para entender em parte a dor dos protagonistas.  


Por sua vez, Schoenaerts ainda é um rosto semidesconhecido que empresta frescor e vigor à figura de Alain, um homem que tende a rompantes de fúria e é apaixonado pelo filho, indo de um polo a outro em questão de minutos. Seu aspecto físico robusto contrasta com seu interior quebrantado pelos reveses que já enfrentou e sua relação com Stéphanie é um renovo em seu estado combalido. O ator está longe de ser um estreante: sua filmografia já acumula mais de quarenta títulos anteriores a Ferrugem e osso, sendo A espiã (Black book, 2006) um dos mais famosos. Também depõe a seu favor e notável química alcançada com Cotillard, traduzida em olhares que se encontram e no prazer que seus personagens experimentam juntos, inicialmente em um relacionamento movido a sexo e, em um segundo momento, na procura por laços mais estáveis e duradouros. Não lhe falta naturalidade em cada cena, incluindo a sequência em que a nudez do personagem se revela, quando ele conduz Stéphanie ao banheiro após mais uma noite lado a lado.

A verdade é que Ferrugem e osso vem fazer companhia a bons melodramas recentes, entre os quais Amantes (Two lovers, 2008). Seu painel de emoções complexas transmite a dificuldade que o ser humano tem de acertar – a tendência ao erro é inerente à nossa natureza. Nesse sentido, o longa de Audiard é um atestado da imperfeição que atravessa a cada pessoa, e com Stéphanie e Alain não haveria de ser diferente. Todavia, seu roteiro, escrito em parceria com Thomas Bidegain a partir do romance de Craig Davidson, passa longe de exaltar ou justificar essa condição errante, ao mesmo tempo em que não oferece brechas para condenar os personagens. O juízo de valor, com base em seu arcabouço moral particular, cabe ao espectador, uma característica habitual de boas obras de ficção que dialogam plenamente com a realidade. O cotidiano em que Stéphanie e Alain se encontram mergulhados é cruel, mas, juntos, eles enxergam a beleza de um amor que nasce como ganga bruta, para além de qualquer floreio escapista e injeta força e ânimo às suas almas desalentadas. 

9/10

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