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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Tabu e o bom uso da metalinguagem

Lá se vão mais de 110 anos desde que o cinematógrafo foi inventado. De lá para cá, ele ganhou um apelido carinhoso e passou a se chamar simplesmente Cinema, até mesmo para os não íntimos. Muitas histórias já foram contadas, muitos gêneros visitados, explorados e, ao que parece, esgotados. Depois de tanto tempo de existência, teria ainda o Cinema a capacidade de arrebatar o seu espectador com uma nova história sobre um velho tema? A resposta talvez possa ser encontrada em Tabu (idem, 2012), joia portuguesa dirigida por Miguel Gomes. O realizador de 41 anos, uma criança perto da idade do Cinema, soube se apropriar do discurso metalinguístico de forma apaixonante, prestando sua homenagem a essa arte que, à época de seu surgimento, foi encarada como passageira.

Não há nada de mirabolante na trama de Tabu. Ao contrário: ela pode ser resumida em poucas linhas, que sugerem apenas uma parte do percurso empreendido por seus personagens. Tudo gira em torno de Aurora (Laura Soveral), uma idosa dada a rompantes de personalidade que mora com Santa (Isabel Muñoz Cardoso), sua empregada nascida em Cabo Verde. A vizinha do apartamento em frente, Pilar (Teresa Madruga), é a única amiga que Aurora conserva. Paciente, a dona de casa lhe faz companhia e ouve suas constantes lamúrias sobre a vida com o dinheiro contado e a distância da filha, que mora em outro país. As três parecem ter apenas uma às outras e, se Aurora não se conforma com sua situação atual, Santa e Pilar adotaram uma postura resignada diante da vida. Assim, a senhora lamentosa se reafirma como o centro da narrativa, que se bifurca em dois grandes momentos.

Inicialmente, as personagens vivenciam os dias atuais, que transcorrem sem grandes sobressaltos ou novidades. Aurora gosta de frequentar o bingo, ao qual Santa a acompanha contra a vontade, por saber que a filha de sua patroa já recomendou várias vezes que não a deixasse gastar o dinheiro que envia em jogos de azar. Mas Aurora é impossível e arrasta Santa consigo. Somente Pilar consegue colocar algum juízo em sua cabeça, usando seu tom de voz macia e monocórdia para lhe dar conselhos e levá-la de volta para casa depois de mais uma tarde de jogo malsucedida. O passar dos anos fez de Aurora um baú de memórias que, de tempos em tempos, vêm à tona. É a essas memórias que Pilar e Santa acessam na segunda parte de Tabu, quando o seu título começa a fazer sentido. Duplamente, aliás. 

Ventura (Henrique Espírito Santo), um antigo amante de Aurora, surge nessa segunda parte, trazendo consigo o passado de amor intenso vivido por ela junto a ele. Através das palavras de Ventura, esses anos distantes vão se materializando na tela, no mesmo preto e branco com que ocorrem as (poucas) ações do presente. Os dois se amaram em circunstâncias pouco favoráveis, que, em vez de soterrarem o sentimento que nasceu em seus corações, só fizeram aumentá-lo. Quando jovem, Aurora era uma mulher lindíssima, de olhar penetrante, longos cabelos negros e pele alva. Ventura, um homem destemido e altivo, apegado ao desafio e à novidade. Ao deixarem o amor um pelo outro falar mais alto, eles acabaram por transgredir algumas das regras do código que regia seu tempo e se tornaram, por assim dizer, amantes fora-da-lei, condenados por amar. Vítimas da própria paixão, a tradução mais próxima do grego pathos, que inunda Tabu e o transforma irremediavelmente em filme de amor. A duplicidade contida no título, então, vai sendo revelada: o romance dos dois era uma questão muito delicada, sobre a qual Aurora, na velhice, não falava abertamente, e floresceu no sopé do monte Tabu, situado no continente africano.



A demarcação das duas partes do longa-metragem é feita também pelo uso de títulos distintos para cada uma. O passado, no qual boa parte da trama se passa, é encarado como idílico e, sobretudo, positivo. Há que se lembrar que esse olhar advém da perspectiva de Ventura, que lamenta os rumos que o conduziram ao presente e se volta para os anos de sua juventude como quem preserva um tesouro residente apenas na imaginação, totalmente livre para reescrever os acontecimentos com boas doses de edulcorantes. Nesse sentido, Tabu é, a um só tempo, um filme sobre a memória e o Cinema, que Gomes une através de uma ponte. No fim das contas, é uma união tão íntima que ambos se confundem. A história contada em Tabu é como tantas outras. É como a realização de um filme sobre qualquer um de nós, que costumamos dizer que nossas próprias vidas ou de outrem daria um filme. Porém, se há ausência de novidade no conteúdo, a forma tem seu componente de novidade e se mostra capaz de enredar o público afeito à construção paciente de enredos e a sutis ironias que se distribuem nos dois tempos justapostos da narrativa.

Tabu está impregnado de um tom elegíaco, que lamenta o atual estado das coisas e celebra os dias em que se era feliz e se tinha consciência plena dessa condição. O prólogo, que apresenta uma anedota sobre um explorador que se deixa devorar por um crocodilo e passa a sê-lo e espiar com seus olhos grandes e intimidadores. Trata-se de uma síntese do que vem a seguir, narrada com sutileza e um certo carinho, afinal de contas, a coita amorosa é um sentimento que, facilmente, desperta a alteridade de quem, como o espectador do filme, é testemunha ocular dos acontecimentos e, de certa forma, cúmplice dos amantes desventurados e eclipsados, numa desagradável antítese dos seus nomes. Os gêneros se misturam nessa história bela e triste: aventura, desejo, sorrisos, emoções, violência e outros ingredientes típicos de cada um têm vez e se acoplam de modo orgânico. Tabu é, antes de mais nada, uma ode ao Cinema, arte de vida longa que ainda tem muitos anos para celebrar.

10/10

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