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terça-feira, 30 de abril de 2013

A caça, um estudo sobre a paranoia coletiva

Figura de proa entre os signatários do movimento Dogma 95, Thomas Vinterberg foi se desvencilhando, aos poucos, dessa proposta de Cinema, encontrando sua maneira de analisar chagas individuais e sociais. O mais novo exemplar de sua filmografia é A caça (Jagten, 2012), que rendeu a Mads Mikkelsen o prêmio de melhor ator no 65º Festival de Cannes. Logo nas primeiras cenas em que seu personagem aparece, torna-se plenamente compreensível e justificável sua vitória. Aqui, ele dá vida a Lucas, um professor de Educação Infantil muito carismático e querido entre os seus alunos. Sua conduta sempre foi de muito respeito e dignidade, e não há quem não o queira bem na pequena cidade dinamarquesa que habita. Porém, um incidente que começa tímido produz uma reviravolta de cerne violento em seu cotidiano, motivado por um erro de interpretação de Klara (Annika Wedderkopp), também sua aluna e filha de seu melhor amigo Theo (Thomas Bo Larsen).

Ocorre que, confusa quanto aos seus sentimentos pelo professor, a menina, de apenas 6 anos, inventa uma mentira sobre ele, como uma espécie de represália por ele ter ponderado sua atitude de tentar beijá-lo na boca. À diretora do colégio, ela conta que Lucas se insinuou para ela mostrando seu órgão sexual ereto. Em seu modo de contar a notícia, Klara é extremamente convincente e leva a responsável do lugar ao choque, sobretudo porque ela relata uma atitude impensada para vir do professor. Esse é o ponto de partida de uma espiral crescente de desespero que sobrevém ao protagonista, e o espectador passa a condição de testemunha dos fatos e boatos que se misturam em uma narrativa comedida e, por isso mesmo, plena de força. Vinterberg observa muito de perto os desdobramentos da calúnia de Klara, que gera reações histéricas de toda a comunidade local. De uma hora para outra, Lucas perde toda a credibilidade que sedimentara ao longo de anos de profissão, e não existe mais lugar para ele naquele ambiente de pessoas tão honestas, dignas e enojadas diante de sua imagem.

Por sua forma e seu tema, A caça é um filme angustiante. Como único a ter acesso a todos os lados e versões da história, o espectador se vê torturado por sequências de franca injustiça contra Lucas, que vai perdendo terreno no local. Até mesmo fazer compras em um pequeno mercado se lhe torna impossível, tamanha a hostilidade com a qual o recebem no estabelecimento. É uma das cenas mais desagradáveis do longa: acreditando poder transitar livremente por ali, o professor é alvo de socos e pontapés dos funcionários, que vêm logo após o aviso do dono para que ele saia imediatamente dali. Combalido, Lucas sai do mercado sem suas compras, mas insiste em retornar ao local e, mesmo sem levar o que desejava, reúne forças para um gesto de defesa de sua inocência para, então, deixar aquele espaço. Ninguém mais está ao seu lado a essa altura. Sua luta é solitária e ele ganha um aliado quando seu filho Marcus (Lasse Fogelstrøm) volta a conviver com ele por algum tempo. É o único a dar crédito ao pai.



Em certas passagens, o filme evoca títulos como Dogville (idem, 2003), pela maneira como retrata o fluir do pior do ser humano, e Desejo e reparação (Atonement, 2007), pela análise que oferece sobre as consequências uma infâmia. A aproximação com Dogville também é plausível do ponto de vista da construção do enredo e do minimalismo de seu desenvolvimento. Como no longa de Lars Von Trier, Vinterberg abre mão de uma trilha sonora e investe em pesados silêncios e hesitações que se ajustam perfeitamente à atmosfera de caos que vai circundando a vida de Lucas. Tudo que lhe resta são cacos e uma moral ferida em seu íntimo, sem falar na amizade com Theo, que sofre um profundo abalo em outra cena dilacerante na qual toda a dúvida do amigo sobre Lucas é exposta. O desconforto diante desse momento é imenso e deixa à mostra o ótimo desempenho de Bo Larsen, que repete a parceria com o realizador iniciada quatorze anos atrás com  Festa de família (Festen, 1998), marco inaugural do movimento Dogma 95. Cada palavra que Theo destina a Lucas nessa hora é carregada de ódio e amargura, fere e entristece o professor que, dias antes, era considerado por ele seu melhor amigo.

O protagonista dispõe de poucas armas para defender sua honra: restam-lhe apenas a palavra e o olhar. É justamente nesse último aspecto que reside toda a força da atuação de Mikkelsen. Cada vez que a câmera focaliza seus olhos emprestados ao personagem, muitas em close-ups poderosos, sua inocência é reafirmada e a histeria da população local se torna ainda mais descabida. Lacrimejando ou não, eles enxergam um mundo injusto, no qual a palavra de uma criança é inquestionável (“As crianças não mentem”, afirma a diretora do colégio para argumentar a favor de Klara), sobretudo quando justaposta à palavra de um adulto. Vinterberg, também autor do roteiro em parceria com Tobias Lindholm, demonstra que partir desse princípio, certas vezes, pode levar a erros terríveis e irreparáveis. Trata-se de uma reflexão muito mais potente que a proposta pelo realizador em Querida Wendy (Dear Wendy, 2005), filmado nos EUA e disposto a questionar o fascínio armamentista estadunidense. Aqui, muito mais sóbrio e maduro, ele demonstra talento e capacidade para entregar um filme que, mesmo após seu fim, pode levar a meditar longamente.

AVALIAÇÃO: *****

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