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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A deambulação de um amor metafísico em Asas do desejo


O conceito de metafísica é fundamental ao entendimento quando se pensa em uma análise sobre Asas do desejo (Der Himmel über Berlin, 1987), um dos filmes mais icônicos de toda a carreira de Wim Wenders. Esse ramo de estudos da filosofia se ocupa daquelas que são chamadas “questões últimas”: há um sentido para a existência do mundo? Há uma diferença real entre mente e matéria? Há somente um mundo ou outro além do que vivemos? Tantas outras indagações permeiam os debates da metafísica, que aparece em discussão no filme por meio da figura de dois anjos que conhecem a Terra e se encantam por ela. Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) têm aparência humana, e não guardam jovialidade em seus corpos supostamente humanos. Eles são grandes companheiros e passeiam pelo planeta contemplando a humanidade. Nesses passeios em que chegam tão perto dos reles mortais, são conquistados de modo inexplicável pelo componente de ordinário que há em cada um. E o realizador alemão vai, aos poucos, abrindo as portas de sua discussão, indo muito além do céu sobre Berlim do título original.


Asas do desejo é uma obra de grandes reverberações iconográficas e dialogais, que merece habitar o imaginário cinéfilo longamente. Wenders remove as amarras da realidade para alçar um voo encantador pelas mentes e corações daqueles anjos, e também pelo coração e pela mente de uma trapezista que desperta um sentimento inesperado em Damiel. Romper fronteiras é um ponto-chave desse filme, que extrai interpretações preciosas de seus atores. Bruno Ganz é um oásis de talento e comedimento na pele de um anjo que vivencia a agrura de não se reconhecer mais em sua condição angélica. Exalando desolação por não ser capaz de oferecer todo o consolo de que as pessoas precisam em uma Berlim assolada e ainda sob o efeito do pós-guerra, ele caminha a esmo com Cassiel. Essa caminhada de incerteza é vislumbrada em planos deslumbrantes, sublinhadores da dor e da angústia que atravessa a existência, e traz à tona as tais questões últimas comentadas anteriormente. O olhar atento de Wenders é projetado no olhar dos anjos que ele criou a partir de sua imaginação para escrever o roteiro em parceria com Peter Handke, e apresenta diferenças com relação ao olhar dos humanos: enquanto os seres terrenos são capazes de ver as cores, os angelicais enxergam em preto e branco.

Essa duplicidade de visão confere ao filme uma fotografia interessantíssima, fruto das lentes de Henri Alekan, um profissional genial, que já havia trabalhado com Wenders cinco anos antes em O estado das coisas (Der Stand der Dinge, 1982). Alekan traz a amplidão de uma cidade exuberante, mas que também tem suas mazelas, como qualquer outro lugar que sirva de habitação aos homens. A visão impressa por sua direção de fotografia é a de que o enlevo visual não é suficiente para encobrir a dor gerada pelo fato de existir. O homem traz consigo um vazio, comprovado inclusive cientificamente, que depende da crença em algo maior, essencialmente sobrenatural, para ser preenchido. Asas do desejo traz essa crença embutida, corroborando a tese de que o cinema, em seu componente de catarse e de possibilidade de identificação plena, pode levar a reflexões de toda ordem. Há que se considerar o espaço do cinema como fonte de entretenimento. Contudo, para além dos instantes de distração e relaxamento, o cinema também pode proporcionar um encontro do homem consigo mesmo, com filmes que se podem contar nos dedos das mãos.

Em várias passagens, este aqui pode soar perturbador, e se vai desnudando como um duelo lento e discreto entre o divinal e o transitório, entre as coisas vãs da vida e aquilo que pode haver de mais extraordinário nela. Wenders poetiza também sobre o cotidiano, fazendo das duas horas de duração do seu longa-metragem um mostruário de conteúdo prosaico ou também mais denso, intenso. Damiel e Cassiel contemplam as pessoas desesperadas, e não são capazes de sentir as mesmas angústias que os humanos sentem, mas sentem a tristeza de não serem capazes de sentir. Em dado momento, Damiel vai se ver dividido entre a sua natureza de anjo e a necessidade de se humanizar caso queira, de fato, concretizar seu amor pela trapezista Marion (Solveig Dommartin).



A narrativa se desdobra em imagens que, por vezes, parecem oníricas, causando um impacto profundo ao olhar do espectador, que se vê em meio a uma discussão intensa sobre o real sentido de estarmos vivos. O filme foi premiado em Cannes na categoria de melhor diretor, um reconhecimento magno a um trabalho que ultrapassa os limites espaciais de uma sala escura ou de uma sessão em casa. No fundo, o retrato de anjos com feições humanas é estratégia de composição de um quadro alegórico imaginado por Wenders, que sabe dosar a sensibilidade necessária para nos condoer ou nos encantar com o que vai colocando para nossas retinas enfadadas de efeitos visuais escalafobéticos e encobridores de conteúdos parcos e depreciáveis. Asas do desejo é um filme que tece comentários sobre a inquietude que paira sobre todos. Essa essência algo perturbadora pode afugentar alguns espectadores, mas vale muito a pena conferir o que o diretor tem a dizer. O filme acabou ganhando um remake anos depois, quando Brad Silberling dirigiu Cidade dos anjos (City of angels, 1998), que não poderia ser mais dessemelhante ao original. Na verdade, a abordagem proposta por Silberling soa ofensivamente picareta. É preferível se deleitar com o deslumbre e a agonia oferecidos por Wenders em seu trabalho.

Damiel, ajudado por um outro ser angelical que conseguiu fazer a passagem para a mudança de natureza, vai experimentando pequenezas e grandezas de ser um homem de verdade, distanciando-se cada vez mais de sua natureza de anjo. Tudo o que vem sendo comentado aqui pode soar leviano e trivializante, mas a direção segura e apaixonada de Wenders transfigura tudo em beleza estonteante. Por tantos motivos, Asas do desejo não pode passar despercebido por cinéfilos que anseiam por acompanhar uma trama bem alinhavada que, se não é necessariamente intrincada, também não resvala o tempo todo para o caminho mais fácil e óbvio. O que o diretor propõe, no fundo, é uma transcedentalidade às avessas, como foi dito por parte da crítica que reconheceu qualidade no filme. E prossegue com essa proposta com um misto de lentidão e minimalismo que conferem uma aura toda especial a um dos marcos cinematográficos da década de 80.

9/10

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