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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Efeitos da corrosão a dois vislumbrados em Namorados para sempre


O título nacional equivocado leva a pensar que Namorados para sempre (Blue valentine, 2010) seja mais uma daquelas pavorosas produções dignas de figurar no horário vespertino da televisão. Entretanto, uma leitura da sinopse, por mais rasteira que seja, permite perceber que o filme de Derek Cianfrance vai muito além do rótulo que os distribuidores brasileiros quiseram lhe impor a todo custo. Tem-se aqui um exemplar maravilhoso de cinema que investiga e mergulha na dor de amar, com uma maturidade que é urgente e necessária quando se pensa em filmes sobre relacionamentos. Antes de mais nada, o longa-metragem do diretor estreante versa sobre a possível inevitabilidade do fim de qualquer relação amorosa, fazendo-o por meio das figuras emblemáticas de Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling), um casal que está junto há alguns anos e vem enfrentando, desde não se sabe quando, um processo erosivo em sua vida a dois. É através do dissecamento dos (des)enlaces desses protagonistas que Cianfrance procura dar ser recado nada amistoso sobre aquela que talvez seja a temática mais recorrente do cinema de qualquer tempo.
É bem verdade que Blue valentine é um nome quase intraduzível para lusófonos, que não infeririam qualquer sentido plausível para uma entidade que está associada ao amor nos EUA, assim como adjetivar de azul qualquer coisa que lembre tristeza não tem o menor efeito sobre os falantes de língua portuguesa. Por outro lado, a opção por Namorados para sempre soa leviana, e destoante da proposta apresentada pelo diretor, um estudo aprofundado sobre dessintonias diárias e minadoras da harmonia de um casal. Igualmente pavoroso é o caso de Eu, meu irmão e nossa namorada (2008), nome picareta para uma obra cujo título original é Dan in real life (Dan na vida real. Equívocos de nomenclatura à parte, o filme é um achado realmente impressionante sobre a possibilidade de falência de um romance que floresceu um circunstâncias agradáveis, como foi o caso de Dean e de Cindy. Percebe-se que no encontro entre os dois tudo parecia conspirar a favor. No entanto, em algum momento a paixão se perdeu, e não é fácil reencontrá-la, por mais que os amantes de outrora procurem.
Para os desavisados, a abordagem de Namorados para sempre não é romanceada, e pode, de certa forma, chocar aqueles que procurar pelo filme como um alento para seus namoros e/ou casamentos ainda em estágio inicial. As constatações trazidas pela obervação do casal protagonista são incômodas, e podem até mesmo desencorajar esses casais que tenham acabado de se formar. O longa-metragem trata de incongruências, de falsas similitudes, e do quanto se está sozinho mesmo diante da presença de alguém a quem se escolheu para dividir a vida. Há que se lembrar que, assim como nascemos sozinhos, estamos fadados também a morrer sozinhos. E esse breve sopro que é a vida, uma sutil respiração que transcorre como um vento passageiro, que aparece e vai embora, é a tentativa intermitente de estabelecer uma conexão com outro, sob a forma de relação familiar, de amizade ou amorosa. Em algum momento, o filme fala sobre essas três possíveis relações, deixando entrever que pode haver lacunas em todas elas. No caso do amor, objeto central da análise de Cianfrance, há um diálogo que sintetiza a condição algo volátil do amor para certos casos. Cindy conversa com sua avó, indagando-a sobre como ela soube que estava amando o avô dela. A resposta é a de quem tem dúvidas sobre o fato, a qual vem arrematada pelo talvez. Ela diz que não sabe sequer se realmente se apaixonou por ele, e que, se isso um dia aconteceu, talvez tenha sido no início de tudo. Mas em em algum momento esse sentimento irradiador se dissipou.



É exatamente buscando o passado idílico do começo de tudo que Cindy e Dean tentam restabelecer o elo que um dia os uniu, buscando um comportamento próximo ao que eles tinham quando eram namorados. E essa tentativa de conexão com o passado traz à tona um expediente da narrativa que, ainda que não seja inédito, é dotado de grande eficiência: a alternância entre presente e passado. Cianfrance concatena sequências situadas no presente do casal com outras que eles viveram quando ainda eram namorados, com elementos discretos na caracterização dos personagens e na composição dos planos, oferecendo um contraponto sutil entre o que foi, o que era, o que deixou de ser e o que é agora. A memória compartilhada do casal é um baú de reminiscências enviesadas, que inevitavelmente são contaminadas pela perspectiva do presente. A tendência do ser humano, ao se lembrar do passado, é a de reconstrui-lo com um olhar diferente do que ele tinha quando os eventos realmente aconteceram, seja melhorando-os, seja piorando-os. Com Dean e Cindy não é diferente. Eles reinterpretam o que já viveram em comum, como quem acredita piamente que a felicidade ficou circunscrita a um momento, consagrada em um instante, mas que, mesmo a duras penas, talvez possa ser resgatada. Daí a iniciativa dos dois em ir para um quarto de motel e tentar recolocar suas vidas no lugar, apesar do peso dos anos, do tempo inexorável que cobra seus tributos à medida que vai passando e corroendo tudo o que está por perto, à frente ou ao redor. Naquele quarto, iluminado por uma bela luz azul, a tristeza e o desncontentamento são exalados, assim como a procura por reacender uma esperança. A luz, a intensa luz que pode acender o coração, e minar as trevas de uma possível separação, também é metafórica, e denota consonância com o título original da obra, que evoca a cor do desalento em inglês.
Sobre a predominância do azul na fotografia de Namorados para sempre, cabe comentar o trabalho fenomenal de Andrij Parekh, um descendente de indianos e ucranianos que coleciona títulos em sua carreira. Ele assinou a direção de fotografia de vários curtas-metragens, e seu currículo também conta com longas como um dos segmentos de Nova York, eu te amo (New York, I love you, 2009) e o fraco Almas à venda (Cold souls, 2010). No filme de Cianfrance, as reverberações iconográficas de suas lentes matizam com sombras discretas a lenta agonia que acomete o relacionamento dos protagonistas, ora lançando luz sobre seus rostos, ora lançando-os na penumbra que encobre seus gestos canhestros que buscam alcançar o interlocutor. A fotografia é, portanto, uma ferramenta poderosa de que o cineasta possui para amplificar a dor gerada pelo acompanhamento da trajetória dos personagens. Verdade seja dita, o que há aqui é, antes de mais nada, um antirromance, com um roteiro deveras realista que não se furta de exteriorizar o mais vil do homem, aqui tomado em sua acepção genérica, em um relacionamento. O longa vem se somar a outras reflexões bem-sucedidas sobre o mais tradicional dos vínculos, de que são ótimo exemplo Closer – Perto demais (Closer, 2004), para sempre lembrado como um atestado de crueza, e dois filmes chilenos que investigam o âmago da dor do fim, Na cama (En la cama, 2006) e A vida dos peixes (La vida de los peces, 2010), ambos de Matías Bize. Em comum, todos têm a maturidade no trato do assunto, e a profundidade com que abordam um tema que pode ser ora espinhoso, ora doce.
A produção do filme acabou sofrendo um atraso de 2 anos, já que ele seria inicialmente rodado na primavera de 2008. Entretanto, a morte de Heath Ledger, então marido de Michelle Williams, suspendeu o início das atividades, que só viriam a ser retomadas em 2010. Felizmente, não desistiram da atriz para o papel de Cindy, e ainda escolheram acertadamente Ryan Gosling como seu parceiro de cena. Os dois encontraram a sintonia perfeita para dar vida a um casal em dessintonia, e exalam talento e competência para defender seus papéis. Uma das cenas mais marcantes de toda a história é a que mostra o casal ainda em seus primeiros passos juntos, caminhando pelas ruas e conversando alegremente. É uma sequência aparentemente banal, mas que transpira um lirismo comovente, especialmente quando Dean começa a dedilhar sons em seu instrumento e Cindy dança desengonçada. Encaixada ao contexto da obra como está, a cena auxilia a construir a concepção de que se está diante de um filme que lida com o indizível das relações diante dos olhos e ecoa pela alma como deflagrador de verdades e possibilidades aterradoras.

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