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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Waking life": perambulando pela falta de sentido do ser e do estar

Muito se discute se a animação seria um gênero de filme ou se ela, na verdade, pode comportar qualquer gênero cinematográfico dentro de si. A discussão frequentemente pode voltar à tona, especialmente quando se leva em consideração um filme da estirpe de Waking life. Dirigido por Richard Linklater (Antes do amanhecer), o filme é uma viagem cerebral sem precedentes pela existência humana, apoiado exatamente na destituição de imagens reais em favor de uma visão e de uma linguagem oníricas.
Daí se torna novamente relvante entender que, mais do que admitir um rótulo de gênero, a animação se presta a diferenciados exercícios de estilo, desde os mais esdrúxulos aos mais sofisticados. E, múltipla como é, apresenta uma série de vertentes. Desde a animação em stop motion, da qual O estranho mundo de Jack(1997) é um bom exemplo, passando pela animação em 3D, do recente Up - Altas aventuras (2009) e pela rotoscopia de Renaissance (2007), até chegar às cores estouradas e instigantes desse Waking life. Sim, porque o filme não é exatamente uma animação, mas também não pode ser encaixado com propriedade na classificação de filme.
Compartimentações à parte, o fato é que a invenção de Linklater merece crédito e atenção do espectador, por sua essência. No enredo do longa, nada de muito palatável, mas sim a certeza da incerteza, que permeia o pensamento ocidental desde os tempos platônicos, aristotélicos, socráticos e afins. Waking life quer ser metafísico, e se utiliza de inúmeros argumentos para isso. A grande questão que direciona a caminhada do seu protagonista é a seguinte: "Estamos feito sonâmbulos quando estamos acordados ou será que estamos conscientes quando sonhamos?". É o tipo de pergunta que requer acurada atenção, e que já desperta um mínimo de curiosidade pela proposta do diretor.
O que se segue são longas divagações, amplificadas por sua profundidade, a despeito de a duração do filme ser de apenas 99 minutos. Willey, o personagem principal, caminha longamente por um cidade anônima, que pode ser a minha ou a sua, a depender de sua vivência e de sua capacidade de percepção do familiar em meio ao desconhecido. Tomado pelo desejo de encontrar respostas para suas inquietações mais pulsantes, ele encontra pessoas, ouve conversas, pensa, sonha, acorda, reflete, pondera, sofre, sente, mergulha, entre outras coisas. Tudo dentro de um "caos organizado", em que aparecem figuras enigmáticas, extravagantes e interessantes. Linklater também aparece como um homem jogando pinball, e depois como um homem em um navio. Mas aquele pode ou não ser ele. Assim como o mundo em que Willey vive pode ou não existir.

Norteado por esse e outros princípios, o trajeto desse personagem é potencialmente perigoso, tanto do ponto de vista humano quanto do viés cinematográfico. Ao abordar temas tão universais pautando-se na imagem fantasiosa, o diretor lida com pensamentos angustiantes que todos teimam em salvaguardar nos sótãos escuros e empoeirados de suas consciências. Aquela consciência que fere, que impede a ingnorância e que lacera compulsoriamente as relações humanas, seja no amor, seja na amizade. Porque ter consciência é, acima de qualquer coisa, um fardo. Cinematograficamente falando, Linklater poderia incorrer no erro de reduzir tudo a uma colagem de imagens bonitinhas, sem um arremate final. De fato, manter a unidade não parece ter sido uma de suas preocupações ao dirigir o filme. Mas cada uma, de alguma maneira, contribui para o resultado envolvente do todo.
Nessa grande brincadeira chamada Waking life (algo como "caminhando pela vida"), há espaço também para uma boa dose de metalinguagem, através da presença de dois atores em versão "animada". São Ethan Hawke e Julie Delpy, que personificam novamente Jesse e Celine, seus personagens em Antes do amanhecer, que rendeu uma sequência anos depois, Antes do pôr-do-sol. Nos dois filmes, a palavra tem importância notável, pois é através dos diálogos entre os protagonistas que a trama evolui. Assim também acontece com Waking life. Seu roteiro prima pelos longos diálogos, que facilmente conduzem à reflexão de que nada é duradouro o suficiente na vida, exceto a certeza de que, quanto mais vivemos, mais temos a aprender. Com Willey, o público também enxerga a falta de sentido da vida, que rende discussões intermináveis, que normalmente não chegam ao lugar algum.
Longe de parecer voltado para uma "filosofia de botequim", atividade que tem lá sua vantagem e não deveria ser vista com tanta pejoratividade, as reflexões de "Waking life" levam o cinema ao patamar da análise psicanalítica, mediado pelos delíros individuais de Willey, e que também podem ser os seus e os meus delírios. Nem tudo o que se vê e se ouve na tela precisa ser necessariamente compreendido. Como diria Camões, quanto mais ele escrevia, menos ele entendia. E falar longamente talvez seja apenas uma entre tantas maneiras de mitigar nossas chagas da dúvida, que nunca deixam de nos perseguir.

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