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domingo, 2 de julho de 2017

BALANÇO MENSAL - JUNHO

Junho foi um mês de início complicado. Tive um problema de saúde que tornou algumas sessões menos confortáveis, interrompidas por uma dor que ia e voltava, mas passada a primeira semana do mês, a rotina voltou a flui normalmente. E foram muitos ótimos filmes desfilando na tela em 30 dias. Sigo com a proposta de ao menos um longa por dia, às vezes dois, entre inéditos e revisitados. Alguns cineastas decepcionaram em maior ou menor grau, como foi o caso de Alfred Hitchcock, em um filme indeciso entre o humor negro e o suspense, e Tony Scott com sua abordagem no estilo videoclipe clorófilo que se esgota bem antes da metade. Entre os bem-sucedidos posso citar Kenneth Lonergan, com quem fiz contato pela segunda vez, Frank Darabont, em mais uma grande adaptação da obra de Stephen King, e a sensibilidade de Catherine Hardwicke em minha primeira visita à sua obra. O cinema estadunidense acabou dominando de novo, mas sempre gosto de escapar dessa hegemonia passando por terras europeias, asiáticas e sul-americanas. Esse mês teve filme islandês, colombiano, romeno e japonês. Como resultado, surgem pequenos tesouros aqui e ali, devidamente registrados na lista completa que forma outra edição do balanço mensal.

MEDALHA DE OURO

Mississipi em chamas (Alan Parker, 1988)


Logo em sua abertura, a narrativa mostra que não está para brincadeira: dois bebedouros lado a lado com placas onde se lê black (preto) e white (branco) são focalizados, evidenciando uma tremenda segregação pelo tom de pele que é prática na cidadezinha do estado-título. Em seguida, as chamas ardem na tela, antecipando um fogaréu criminoso que traduz a mentalidade odiável de boa parte dos habitantes locais. Dali em diante, somos levados pela câmera de Parker junto com Rupert (Gene Hackman) e Alan (Willem Dafoe), agentes do FBI de concepções distintas, as quais lhes fazem bater de frente logo a caminho do lugar. Uma das explicações para a qualidade impressa em Mississipi em chamas é afastar qualquer traço de sentimentalismo, inclusive na trilha sonora, e acompanhar de perto os perigosos desdobramentos do ódio aos negros, especialmente aquele que, de certa forma, se encontra institucionalizado. Ao mesmo tempo, o roteiro de Chris Gerolmo não perde de vista a dimensão policialesca da trama, de inspiração na realidade e ainda atual em tempos como os nossos, de ódio amplificado via redes sociais.

MEDALHA DE PRATA

Minha vida de abobrinha (Claude Barras, 2016)


Quanto tempo é necessário para contar uma bela história? A julgar pela animação de Claude Barras, concorrente francesa ao Oscar de melhor animação em 2017, pouco mais de uma hora é o suficiente. Ainda que, ao chegar à sua última cena, a história de um garoto que se vê subitamente órfão deixe uma vontade de continuar vendo. Adotando o visual (hoje) clássico do stop motion, o realizador demonstra enorme carinho tanto pelo protagonista quanto pelos coadjuvantes, a maioria crianças com as quais Abobrinha, codinome pelo qual o menino gosta de ser chamado, passa a conviver com gente nova em um orfanato. O histórico de cada um é desproporcional à faixa etária: são vivências pesadas que forjam uma maturidade precipitada ou uma conduta repelente, como é o caso de Simon, que se protege sob a superfície de encrenqueiro e implicante. Por vezes, a condução dramática se revela seca e direta, mas não contradiz a observação sobre o carinho dedicado às crianças: na verdade, é a fuga de um estilo tipicamente hollywoodiano que pretende arrancar lágrimas pelo som de instrumentos de cordas ao fundo e diálogos calculados. São crianças, afinal.

MEDALHA DE BRONZE

Karen chora no ônibus (Gabriel Rojas Vera, 2011)


A Colômbia é um dos nossos vizinhos, e tal proximidade não é apenas econômica, mas também social e cultural. Na figura de Karen (Angela Carrizosa) o diretor resume uma porção de sentimentos que acomete uma mulher recém-saída de casa depois de ter desistido de um casamento que não lhe trazia satisfação. Fugindo da perspectiva reducionista de apenas vitimar Karen, o roteiro do próprio cineasta também mostra a personagem como alguém passível de erros, que se acomoda com sua condição de dependente da ajuda de estranhos pela rua. Uma cena é bastante emblemática de sua conduta questionável: depois de ter pedido várias vezes dinheiro a passantes - e consegui-lo de alguns - ela consegue fazer uma refeição; enquanto come, uma adolescente moradora de rua pede alimento a ela, que ignora solenemente os apelos da garota. É um filme que pertence ao grupo dos realistas, desprovido de movimentos de câmera inusitados ou mesmo ângulos extravagantes, limitado a mostrar o cotidiano de seus personagens em um fluxo temporal de poucos dias e a acompanhar as pequenas transformações internas que fazem seu mundo girar aos poucos.

INÉDITOS

189. Lenny (Bob Fosse, 1974) - > 7.0
190. O terceiro tiro (Alfred Hitchcock, 1955) -> 7.0
191. Um plano brilhante (Michael Radford, 2007) -> 6.0
192. A testemunha (Peter Weir, 1985) -> 6.0
193. Domino - A caçadora de recompensas (Tony Scott, 2005) -> 4.0
194. O estranho visitante (J.-P. Valkeapää, 2008) -> 5.5
195. A cidade onde envelheço (Marília Rocha) -> 7.5


196. Estranha compulsão (Richard Fleischer, 1959) -> 6.0
197. Viagem insólita (Joe Dante, 1987) -> 7.0
198. Margaret (Kenneth Lonergan, 2011) -> 7.5
199. A ovelha negra (Grímur Hákonarson, 2015) -> 8.0
200. A vida de outra mulher (Sylvie Testud, 2012) -> 6.0
201. Liberdade (Tony Gatlif, 2009) -> 7.0
202. Missão impossível - Protocolo fantasma (Brad Bird, 2011) -> 8.0


203. Personal shopper (Olivier Assayas, 2016) -> 7.5
204. Se eu quiser assobiar, eu assobio (Florin Serban, 2010) -> 5.0
205. Já estou com saudades (Catherine Hardwicke, 2015) -> 8.0
206. À espera de um milagre (Frank Darabont, 1999) -> 8.0
207. O gorila (José Eduardo Belmonte, 2012) -> 5.0
208. Amor impossível (Lasse Hallström, 2011) -> 6.0
209. Todos os homens do presidente (Alan J. Pakula, 1976) -> 8.0


210. Duro de matar - Um bom dia para morrer (John Moore, 2013) -> 5.0
211. Olhos da justiça (Billy Ray, 2015) -> 6.5
212. Karen chora no ônibus (Gabriel Rojas Veras, 2011) -> 8.0
213. O médico alemão (Lucía Puenzo, 2013) -> 5.0
214. Café lumière (Hou Hsiao-Hsien, 2003) - > 8.0
215. Tour de France (Rachid Djaïdani, 2016) -> 7.0
216. Sob o domínio do mal (Jonathan Demme, 2004) -> 7.5


217. Rede de mentiras (Ridley Scott, 2008) -> 6.0
218. Mississipi em chamas (Alan Parker, 1988) -> 8.5
219. Te prometo anarquia (Julio Hernández Cordón, 2015) -> 5.0
220. A salvo (Todd Haynes, 1995) -> 7.0
221. Leonera (Pablo Trapero, 2008) -> 7.0
222. Busca frenética (Roman Polanski, 1988) -> 7.0
223. As duas faces da felicidade (Agnès Varda, 1965) -> 7.0

REVISTOS

Queime depois de ler (Ethan e Joel Coen, 2008) -> 7.5
Os imperdoáveis (Clint Eastwood, 1992) -> 8.0
Maridos e esposas (Woody Allen, 1992) -> 9.0
De volta para o futuro (Robert Zemeckis, 1985) -> 9.0
O fantástico Sr. Raposo (Wes Anderson, 2009) -> 8.0
Hora de voltar (Zach Braff, 2004) -> 8.0

MELHOR FILME: Mississipi em chamas
PIOR FILME: Domino - A caçadora de recompensas 
MELHOR DIRETOR: Alan Parker, por Mississipi em chamas
MELHOR ATRIZ: Toni Colette, por Já estou com saudades
MELHOR ATOR: Gene Hackman, por Mississipi em chamas
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Frances McDormand, por Mississipi em chamas
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Dourif, por Mississipi em chamas
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Chris Gerolmo, por Mississipi em chamas
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: William Goldman, por Todos os homens do presidente
MELHOR FOTOGRAFIA: Ping Bin Lee, por Café Lumière
MELHOR TRILHA SONORA: Harry Gregson-Williams, por Já estou com saudades
MELHOR CENA: O diálogo ameaçador entre Rupert e Clinton no bar em Mississipi em chamas
MELHOR FINAL: Já estou com saudades

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