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quinta-feira, 27 de abril de 2017

QUINTETO DE OURO - NICOLAS CAGE

Uma rápida olhada no currículo cinematográfico de Nicolas Kim Coppola permite notar o quanto ele é extenso. São mais de 70 papéis sob o comando dos mais variados diretores, e numerosas derrapadas em meio a grandes acertos. Seus trabalhos dos anos 2010 podem afugentar muitos amantes do cinema em busca de descobri-lo: é preciso voltar mais no tempo para conferir o que esse cinquentão californiano é capaz de fazer quando não precisa filmar apenas para pagar as contas. Gente muito boa já o recrutou para seus longas, como David Lynch, Werner Herzog, Francis Ford Coppola (de quem é sobrinho), Brian De Palma, os irmãos Ethan e Joel Coen e Martin Scorsese. Portanto, apesar de o que vemos de Cage nos últimos, sei lá, 10 anos, não seja animador, ele ainda merece respeito porque rende muito bem com um bom realizador e um bom roteiro.

Seu nome artístico vem de um personagem da literatura em quadrinhos, Luke Cage, do qual é grande fã. Ele optou por fugir do sobrenome famoso da família e trilhar um caminho próprio, e até hoje muita gente nem imagina a relação de parentesco entre Cage e o realizador de O poderoso chefão (The godfather, 1972) e suas sequências. A estreia no cinema aconteceu nos anos 80, em Picardias estudantis (Fast times at ridgemont high, 1982), no qual também estava um certo Sean Penn. Cage se frustrou com o corte de várias cenas suas e acabou desistindo temporariamente das telas para ser vendedor de pipoca, chegando a dizer à época que seria a única carreira relacionada ao cinema que poderia seguir. Os anos passaram e provaram que ele tinha se equivocado. E lá se vão quatro décadas de uma filmografia irregular, da qual pincei os cinco melhores títulos, enfatizando seu desempenho em cada um e revelo a seguir.

1. Arizona nunca mais (Raising Arizona, 1987), de Ethan e Joel Coen


Até hoje a única parceria de Cage com os irmãos Coen é um dos seus melhores resultados em cena. Banhado no humor negro e corrosivo típico da dupla, ele se entrega como o aparvalhado McDunnough, que vive com a esposa Edwina (Holly Hunter) a frustração de não poder ter filhos biológicos. Que alternativa eles poderiam buscar? Uma das mais insanas possível: roubar um bebê de um casal. Daí em diante, a correria estrada afora parece sem fim e seu caminho é cruzado por desventuras em série, do tipo que figurariam em compilações anedóticas. Mesmo sendo um ladrão de bebê, McDunnough não perde a ternura, no melhor estilo adorável trapaceiro. Seu bigode lhe confere um ar de bonachão que não deveria acontecer, culpa do roteiro que ajuda e muito a estabelecer um relacionamento de cumplicidade com ele e a esposa. Uma loucura vez ou outra, quem nunca cometeu?

2. Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995), de Mike Figgis


Cage foi indicado ao Oscar de melhor ator somente duas vezes, e na primeira levou a estatueta por esse filme. Na pele de Ben Sanderson, um produtor recentemente demitido, ele mergulha em águas profundas, mostrando o ótimo ator que sabe ser. Não é fácil interpretar alguém sob o efeito do álcool sem resvalar na caricatura, e todo mundo sabe que piada de bêbado existe aos montes por aí. Pois Cage traz a humanidade de Ben à tona, uma humanidade afogada em litros de álcool, tentativa de mitigar o desencanto com o mundo e as pessoas. Até que uma figura feminina atraente e não menos problemática atravessa o seu caminho. A prostituta Sera (Elisabeth Shue) aparece como um sopro tardio (?) de esperança na cidade presente no título, à qual ele foi para se embriagar até a morte. O que pode fluir desse relacionamento fadado à finitude precoce? No roteiro de Figgis, baseado no romance de John O'Brien, a resposta é pouco alentadora.

3. A outra face (Face/off, 1997), de John Woo


A falta de semelhança física entre Cage e John Travolta não foi impedimento algum para que eles se revezassem nos papéis de Sean Archer (inicialmente Travolta) e Castor Troy (a princípio Cage), respectivamente mocinho e bandido. Na trama, uma técnica extraordinária permite que um assuma a face do outro, uma potencial confusão para personagens e público e o início de um eletrizante duelo de inimigos. O roteiro engenhoso e pouco rente à verossimilhança (o que importa?) permite aos dois brilharem, mas como o foco aqui é Cage, seu Castor/Sean é daqueles marcantes, indo além dos trejeitos e despertando ódio com sua malignidade. E não faltam olhares arregalados e risadas cruéis à medida que ele vira a vida de um sujeito comum pelo avesso. É um terrorista com sangue nos olhos, um tanto sem nuances, mas bem defendido pelo ator. Ainda hoje, A outra face continua como o melhor trabalho de Woo fora de sua China de nascimento, depois dos ótimos Bala na cabeça (Die xue jie tou, 1990) e Fervura máxima (Lat sau san taam, 1992). 

4. Adaptação (Adaptation, 2002), de Spike Jonze


O deserto criativo pode ser fonte transbordante de ideias, por mais paradoxal qeu sejam essas metáforas. Uma das provas é Adaptação, que põe Cage outra vez no posto de protagonista, dessa vez duplicado. Vivendo Charlie Kaufman (alter ego do roteirista do longa) e Donald Kaufman (invenção da mente do mesmo roteirista), gêmeos de pontos de vista diferentes, ele dá um banho de interpretação. Os conflitos de Charlie vêm da personalidade sanguessuga de Donald, um parasita sem talento que ainda consegue se dar bem aqui e ali. A tal adaptação do título é o tarefa da qual Charlie foi incumbido: verter para o cinema O ladrão de orquídeas, livro escrito por Susan Orlean - a escritora, de fato, existe, e foi interpretada por Meryl Streep. E pensar que Cage não era a escolha inicial para o papel, mas Tom Hanks. Vendo o trabalho de Cage em cena, fica bem difícil imaginar Hanks, especialista em homens ilibados, levando o personagem. A produção foi o primeiro grande acerto da carreira de Jonze, que voltaria a fazer gol de placa 11 anos depois com Ela (Her, 2013).

5. Vício frenético (Bad lieutenant: Port of Call New Orleans, 2009), de Werner Herzog


Tipos alucinados não são raros na carreira do ator, e nessa refilmagem do longa de 1992 de Abel Ferrara ele deitou e rolou como um tenente acometido de dores na coluna e visões bizarras que incluem uma iguana. O papel tinha sido de Harvey Keitel, em uma de suas interpretações mais antológicas, e Cage assumiu a persona de Terrence McDonagh, que tem sua patente elevada depois de ter salvado um prisioneiro de afogamento durante a passagem do furacão Katrina. Nessa versão dirigida por Herzog não faltam momentos de delírios que compõem quadros de humor negro. A bem da verdade, o longa é o encontro de dois surtados em suas respectivas carreiras que, cedo ou tarde, precisavam estar envolvidos no mesmo projeto. McDonagh é a personificação do caos e da bestialidade, um homem consumido pelas dores e pelo vício e tudo isso ainda permite que ele seja um sujeito possível. Não há justificativa, mas explicação para ele ser como é: o cotidiano de crimes e investigações desafia a sanidade e o equilíbrio de qualquer pessoa, afinal.

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