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terça-feira, 30 de setembro de 2014

O lobo atrás da porta e o suspense incrustado no cotidiano

Imprevisibilidade é um ingrediente fundamental a todo suspense que se preze. Não faltam exemplos, contudo, em que ela não se faz presente, jogando por terra toda a eficácia desejável junto ao espectador nesse gênero. Felizmente, esse não é o caso de O lobo atrás da porta (idem, 2013), realizado e escrito por Fernando Coimbra. O desaparecimento de uma criança é o ponto de partida da história, que alterna dois tempos e revela a perigosa dinâmica estabelecida entre Bernardo (Milhem Cortaz), Silvia (Fabiula Nascimento) e Rosa (Leandra Leal). Eles são, respectivamente, o marido, a esposa e a amante, e cada detalhe importa na (re)construção dos acontecimentos que culminaram com o tal sumiço, relatado por Silvia ao delegado (Juliano Cazarré). Desesperada, ela explica que a menina foi levada do colégio por um mulher de nome Sheila, uma desconhecida, acendendo a desconfiança do homem, calejado com tantos casos diários semelhantes àquele. Pouco depois, o marido chega para fornecer informações que podem elucidar os fatos, e então o relacionamento extraconjugal vem à tona. 

A essa altura, conhecemos duas versões para a mesma história, mas é quando Rosa é acionada pelos policiais que O lobo atrás da porta começa a desenhar o suspense, mostrando que o cotidiano pode ser sua fonte. Inicialmente assustada e afirmando não ter a menor ideia de onde a menina possa estar, Rosa apenas informa que a deixou com outra mulher e não sabia qual seria o seu destino. Entretanto, o delegado sente que há mais do que a superfície leva a crer, e instiga a jovem a desenvolver melhor sua versão da história. É quando somos transportados para um longo flashback cujo clímax, a depender da audiência, pode ser mais ou menos esperado. Para quem se encaixar no primeiro grupo, ainda existem elementos de tirar o fôlego e manter a atenção concentrada, como a extraordinária atuação de Leandra Leal, completamente entregue ao papel de uma simplória ex-operadora de telemarketing que cai de amores por um homem casado e não se importa com o fato de não ser a única em sua vida.

Não faltam sequências de franca inspiração de Coimbra, que assina um enredo de base na realidade, um episódio nefasto ocorrido no bairro da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. Entrar em detalhes tanto sobre o caso real quanto sobre a narrativa apresentada no filme é entregar de bandeja metade do monumento pacientemente construído pelo diretor, que fez desse seu primeiro longa, depois de ter realizado três curtas, entre eles, Trópico das cabras (idem, 2007). Coimbra se vale da cor local de uma região habitada por tipos banais, cujas histórias não interessam - ao menos, a priori - para além das páginas policiais, quando explode um conflito de alguma ordem em seus domínios. Ao mesmo tempo, é capaz de carregar o enredo de tintas universais, evidenciando que o ciúme, o adultério e a insanidade podem fazer parte de qualquer cultura, em qualquer lugar. O escolhido aqui é um Rio desglamourizado, o outro lado de uma cidade à qual a antonomásia Maravilhosa cabe melhor quando nos reportamos à zona sul. Existem muitas outras facetas que o turista não acessa em sua estadia na capital cultural do Brasil.


Assim, cena após cena, o faro detetivesco do público é atiçado, e os olhos devem ficar bem atentos aos passos de Rosa, que exibe um misto de resignação com possessividade. Cada vez mais desejando estar inserida na vida de Bernardo, ela se aproxima de Sylvia, forja outra identidade e cativa a filha do casal, detalhe que colabora para uma de suas atitudes, a mais importante de todo o filme e que responde à pergunta crucial lançada no início do percurso acidentado através do qual Coimbra nos conduz. Por sua vez, Sylvia é uma personagem contida, cujo valor está justamente nessa contenção, e reitera o talento de Fabiula Nascimento, exímia tanto na comédia quanto no drama sem perder um pingo de credibilidade. Sem dúvida, a dona de casa é a parte mais afetada nesse triângulo amoroso em que não há vencedores, apenas vencidos, em maior ou menor grau. Milhem Cortaz é outro que tem um ótimo papel nas mãos, e lhe imprime notável verossimilhança.

Já que o tópico é o formidável elenco, não é exagero tecer muitos elogios ao desempenho de Talita Carauta, demolidora na pele de Bete. Para quem associa a atriz somente à Janete do humorístico (??) televisivo Zorra total, vê-la em cena aqui é um belo de um atestado de versatilidade. Pode-se dizer que a personagem funciona como uma espécie de alívio cômico para uma história tão densa. Eventuais acusações de uma composição estereotipada são facilmente refutadas se se conhece bem a região em que a história transcorre e se constata o quanto pessoas como Bete são comuns por ali. Apesar de ser uma presença de curta duração, a personagem faz por onde ter importância no desdobramento dos fatos - e vale lembrar que tudo que está sendo contado a essa altura é filtrado pelo olhar de Rosa. Disso pode resultar uma tendência a retratá-la como a parte ofendida na situação, mas várias de suas atitudes deixam entrever uma mulher sorrateira, e quem verdadeiramente faz jus ao título da obra.

Entrevistado por um site de Cinema, Coimbra afirmou que o roteiro de O lobo atrás da porta passou por vários tratamentos ao longo de 15 anos, e seu interesse estava em apresentar o lado humano das partes envolvidas em um caso abordado com sensacionalismo pela mídia - uma praxe do setor que não vem de hoje. Sobre os atores, afirmou que não tinha nomes em mente à medida que ia escrevendo, mas quando começou a visualizar intérpretes para Rosa, percebeu que Leandra Leal era a escolha mais apropriada, e basta conferi-la atuando, por todos os motivos citados e mais alguns outros, para constatar que ele tinha razão. Os segredos entrelaçados por sua narrativa um tanto labiríntica apontam, em última instância, para a complexidade humana, tão fascinante quanto lacerativa. Histórias como essa também servem para ilustrar como um erro pode conduzir a outro e outros, formando um rastro de destruição que, no fim das contas, resultou em um dos filmes mais perturbadores do Cinema recente, para além de fronteiras de nacionalidade e gênero.

8.5/10

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