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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O raio verde e a eterna procura por satisfação

"Ah, que chegue o momento dos corações em contentamento!" (Arthur Rimbaud)

A aspiração registrada pelo jovem poeta Arthur Rimbaud serve de epígrafe para O raio verde (Le rayon vert, 1986), mais uma delícia de filme nascido na mente fértil de Eric Rohmer e que compõe série Comédias e Provérbios. Simples em direta, a frase antecipa o espírito de toda a narrativa, centrada na procura de Delphine (Marie Rivière) por um lugar em que possa se sentir realmente satisfeita. A jovem acaba de conseguir seus trinta dias anuais de férias do trabalho, e não via a hora de viajar na companhia de uma amiga, até que fica sem sua companhia em virtude de um imprevisto a apenas duas semanas da viagem. Perdida com a solidão repentina, desiste da ideia de ir para um lugar onde não conhece ninguém, e fica suscetível aos conselhos de outras companheiras. Desde então, somos postos em contato com a personalidade complicada dessa secretária, cheia de idiossincrasias e restrições que fecham cada vez mais seu leque de alternativas para o divertimento genuíno. 

Quase nada acontece de fato em O raio verde. A exemplo dos demais filmes do realizador francês, morto aos 91 anos, os diálogos preenchem a projeção em sua quase totalidade, estendendo ao máximo a psicologia em torno dos personagens, sobretudo Delphine, tão complexa quanto qualquer outro ser humano. A cada novo encontro com um amigo, conhecido ou alguém a quem acabou de ser apresentada, a jovem exterioriza sua insatisfação com as pessoas e os lugares. É como aquele sujeito em cuja companhia vamos a uma festa e, menos de 10 minutos depois de ter chegado, já quer ir embora, sem saber explicar exatamente o motivo do seu desconforto naquele ambiente. Delphine passa suas férias à procura do encaixe perfeito entre si mesma, o lugar e as pessoas ao seu redor, mas nunca se encontra de fato aonde vai. Desse inquietude interior, nasce um filme que pode soar incômodo, mas que, paradoxalmente, não perde a leveza enquanto a (pouquíssima) ação vai transcorrendo. Mesmo porque, Rohmer investe nas conversas coloquiais, daquelas que travamos diariamente, e tornam Delphine e seus interlocutores francamente universais. A personagem, aliás, é graciosamente interpretada por Rivière, atriz que já havia trabalhado com o diretor apenas 5 anos antes, no igualmente envolvente A mulher do aviador (La femme du aviateur, 1980).

Enquanto ela vai pulando de galho em galho, permanece o questionamento sobre o que seria o tal raio verde do título. A solução para o "enigma" é dada - para variar - em um diálogo entre quatro personagens, do qual Delphine não participa. Trata-se de uma alusão à obra de Julio Verne, na qual uma garota acredita que encontrará o seu amor verdadeiro depois de ver o Raio Verde. Esse desejo se traduz em uma longa procura que pode ser atrapalhada por um jovem em quem ela despertou a paixão. Daí por diante, Delphine fica interessada em contemplá-lo, e seu desconforto interior fica levemente aplacado. A essa altura, a protagonista já rodou por alguns lugares, chegou a voltar à sua Paris do ano inteiro e esteve em Cherbourg, a adorável cidade na qual Jacques Demy ambientou Os guarda-chuvas do amor (Les parapluies de Cherbourg, 1964), um musical incorrigível estrelado por uma Catherine Deneuve no ápice de sua juventude. Nem mesmo tal lugar preencheu suas expectativas. Delphine quer algo que não seja nem tanto nem tão pouco, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. É como eu ou você, que codificamos nossos desejos e não damos conta de explicitá-los por meio da linguagem verbal, que, no fim das contas, é muito limitada.


Na verdade, o raio verde é um fenômeno imediatamente anterior ao anoitecer, que surge quando o Sol está se pondo e mostra o seu último facho de luz no céu. Não é possível observá-lo todos os dias  - se o tempo estiver nublado, por exemplo, a espera por vê-lo é inútil - nem em todos os lugares - é praticamente uma exclusividade da costa francesa - e exige uma certa dose de paciência e olhar fixo, pois dura um brevíssimo instante. Reza a lenda que, durante as filmagens do longa, Rohmer estava decidido a registrar o fenômeno com sua câmera para inseri-lo perto do final da narrativa, o que ele chegou a fazer. Ou não? Afinal, não vai além de uma ilusão de ótica, passível de ser experimentada pela profusão de cores que a luz do Sol permite se misturarem. O que acontece a Delphine é justamente se apegar a essa doce ilusão e encontrar uma fatia de entusiasmo para seguir em frente com a sua procura de toda uma vida. Então, nos seus últimos dias de férias, conhece um homem em uma estação e toma a iniciativa de conversar com ele, algo que lhe parecia impensável até pouco tempo antes, quando um outro desconhecido a seguiu e ela rapidamente se desvencilhou.

Do flerte iniciado com o pretexto da curiosidade sobre o livro que o rapaz estava lendo, surge uma fagulha de esperança para Delphine, que revela um pouco da sua inconstância a alguém que acabou de conhecer, mas com quem já consegue esboçar alguma intimidade. Para muitas pessoas, acaba sendo mais fácil se abrir para um desconhecido que para um amigo de longa data, e a jovem representa esse pensamento com a sua atitude. Sutilmente, ela se convida para acompanhá-lo em sua rápida viagem, o tempo conveniente para se encaixar em seus últimos dias de férias e tornar seus dias menos tediosos. Antes de chegar a esse encontro, porém, Delphine conhece uma turista russa, que lhe fala sobre os jogos que estabelece com os homens e com as pessoas em geral. A personagem esbanja humanidade e verbaliza alguns princípios universais no trato com o outro, embora sejam princípios que, dificilmente, assumimos para alguém. A sequência em que as duas conversam longamente em uma mesa de bar com vista para a praia é uma das mais deliciosamente verossímeis de todo o longa, e uma pequena amostra do quanto o manancial de palavras de Rohmer parecia inesgotável. O último plano de O raio verde se aproxima bastante do que se chama final feliz, trazendo uma chance de contentamento para Delphine e plantando uma semente de esperança no espectador.

9/10

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