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quarta-feira, 4 de junho de 2014

TOP 10 - Metalinguagem no Cinema

Em uma definição simples e rasteira, metalinguagem é a linguagem falando de si própria. O exemplo mais nítido de discurso metalinguístico é o dicionário, que utiliza palavras para explicar outras palavras. A arte, de uma maneira geral, vale-se da metalinguagem, costurando-a em histórias que revelam desde a angústia de um escritor em bloqueio criativo até o árduo processo de adaptação de uma obra para outro suporte, com sua linguagem específica, passando pelos comentários irônicos de quem entende muito bem do riscado. O Cinema, como arte que é, não poderia deixar de incorporar as delícias e os dilemas da metalinguagem em seu escopo, trazendo muitos exemplares de "filme dentro do filme".

Nesse artigo especial do blog, destaco 10 títulos cinematográficos que figuram entre os meus preferidos acerca do tema, com a ressalva de que não ofereço nem de longe uma lista exaustiva. Muito pelo contrário: cada filme pode abrir portas e janelas para vários outros, sem falar que eu mesmo ainda não consegui assistir a todos os filmes ditos metalinguísticos que me interessam. Portanto, será inevitável cometer injustiças - na medida do possível, elas não decorrem de esquecimentos, mas da decisão drástica de deixar alguns nomes de fora unicamente por preferi-los alguns décimos a menos, digamos assim. Em última instância, toda lista comporta erros e acertos, e lamentar sobre os primeiros impede a fruição dos segundos.

Também é interessante notar que alguns realizadores se lançaram sobre a metalinguagem, um manancial eterno de enredos. Acredito que, na ausência do que falar, o artista pode falar justamente sobre a ausência do que falar. Um dos claros exemplos da aplicabilidade dessa máxima é Federico Fellini, que fez do seu deserto criativo a matéria-prima de 8 1/2, reconhecidamente um clássico de sua carreira e um dos exemplares mais icônicos do tema, incluído nessa pequena lista. Um diretor que tem na metalinguagem o seu norte é Woody Allen, especialista em tipos neuróticos, muitos deles escritores, dramaturgos ou roteiristas, que tem dois de seus filmes representados aqui - não poderia fazer por menos com meu cineasta preferido. Como de hábito, ordenei os filmes cronologicamente, e não por preferência. A seguir, meus eleitos, acompanhados de breves comentários em que procuro justificar suas escolhas:

1. O desprezo (Le mépris, 1963), de Jean-Luc Godard


Quem conseguiria desprezar Brigitte Bardot no auge de seu charme e beleza? Michel Piccoli conseguiu. Pelo menos, quando os dois foram, respectivamente, Camille e Paul Javal no belíssimo ensaio de Godard sobre o descompasso entre amor e ambição, para citar apenas uma das facetas desse filme-lenda. Disposto a tudo para adaptar Odisseia para o Cinema, o roteirista Paul vai deixando cada vez mais de lado a companheira, passando a ter olhos somente para ninguém menos que Fritz Lang, diretor responsável por assinar a produção. O cenário é Roma, Cidade Eterna cuja famosa antonomásia contrasta de modo drástico com o amor evanescente do casal, mostrado em todo o seu fulgor nos primeiros minutos da narrativa, quando Camille pergunta se Paul ama cada parte de seu corpo. Se o amor é mesmo um jogo, difere de todos os outros por não possibilitar a vitória a nenhum dos jogadores.

2.  8 1/2 (1963), de Federico Fellini


Em seu período de deserto criativo, Fellini conseguiu produzir aquela que talvez seja sua obra mais celebrada. Para isso, elegeu seu parceiro Marcello Mastroianni, que encarna espetacularmente Guido Anselmi, seu alter ego: diretor bloqueado em sua capacidade de inventar histórias, ele se refugia em uma estância à procura de ideias. Ali, acaba mergulhando em um universo em que sonho e realidade não mais se distinguem, o que reflete um aproveitamento do Cinema como suporte para os mais acachapantes devaneios, tendo a viagem como um fim em si mesma. Uma lista de filmes metalinguísticos se torna bastante respeitável se tem 8 1/2 entre seus eleitos, e a minha se pretende como tal. Para além de ansiar por respeito, a inclusão do filme aqui é motivada por uma real paixão por sua narrativa de estranho magnetismo, que adere à memória e convida a revisitas periódicas.

3. O estado das coisas (Der Stand der Dinge, 1982), de Wim Wenders


É recorrente o diagnóstico de que o Cinema está agonizante. Em tempos de profusão de refilmagens e sequências caça-níqueis fabricadas por Hollywood, esse quadro parece bem real, mas sempre existe uma saída para a tragédia. No alvorecer da década de 80, Wenders já enxergava um percurso dessa arte rumo à falência, e não se contentou em apenas observar: erigiu um monumento caótico aos que vivem na corda bamba por viver de fazer filmes, como o protagonista Friedrich (Patrick Bauchau), que tem as filmagens de seu novo longa interrompidas quando precisa ir atrás do produtor, que desapareceu com os negativos do que já tinha sido rodado sem deixar a menor pista. Em paralelo à busca, os membros da equipe sentem a espera na pele e curtem o torpor, lidando com um reduzido horizonte de expectativas que acena para o que pode ser um final desagradável, para dizer o mínimo. De quebra, ainda surge ninguém menos do que Samuel Fuller, outro que se preocupava à época com a possível morte do Cinema. Em síntese, O estado das coisas é um épico da sobrevivência.

4. A rosa púrpura do Cairo (The purple rose of Cairo, 1985), de Woody Allen


De tempos em tempos, Woody Allen é perguntado sobre seu filme preferido entre os que dirigiu. As respostas tendem a variar - nem sempre ele realmente disse algo a respeito -, mas, em uma das ocasiões na qual teve de responder à pergunta, citou A rosa púrpura do Cairo. Olhar para essa adorável fábula sobre o fascínio que o Cinema exerce sobre a vida de um espectador comum é o suficiente para compreender a possibilidade de ela figurar como o filme preferido de alguém. Aqui, Mia Farrow (em uma de suas muitas parcerias com o diretor e então marido) vive Cecilia, dona de casa exausta dos maus tratos do marido (Danny Aiello) que se refugia no único cinema de sua cidade assistindo a várias sessões do filme que dá nome ao filme, até que o ator principal (Jeff Daniels), cansado da mesmice das cenas, sai da tela e os dois iniciam um romance. Amparados pela fotografia de Gordon Willis, os personagens são a quintessência da magia da Sétima Arte, capaz de oferecer calor aos corações desalentados.

5. Tiros na Broadway (1994), de Woody Allen


A iluminação pode vir de onde menos se espera. É o que nos dá a entender o roteiro de Tiros na Broadawy, coleção de acertos allenianos que ilustram o franco talento do realizador para engendrar tramas cuja tônica é a metalinguagem. Na pele de David Shayne, John Cusack se mostrou uma de suas melhores escolhas para a função de seu alter ego, aqui um dramaturgo incapaz de alcançar o público de teatro em decorrência do hermetismo de seu texto. Ao se comprometer em escrever um papel para a namorada do mafioso que financiará sua próxima peça, ele vende sua alma e começa a receber conselhos da figura mais improvável da galeria de ricos personagens esculpidos por Allen, tornando o filme um olhar espirituoso sobre o papel do artista no mundo, uma constante na obra do diretor sempre insatisfeito com os filmes que dirige. Dianne Wiest é um espetáculo à parte como Helen Sinclair, cujo bordão "Don't speak" ("Não fale!") a cada vez que David tenta se declarar está entre os mais antológicos do Cinema. Pena que, desde então, o diretor e uma de suas musas não têm mais se encontrado.

6. Os sonhadores (The dreamers, 2003), de Bernardo Bertolucci


Até que chegue a última cena de Os sonhadores, musicada por Je ne regrette rien, de Edith Piaf, o diretor Bernardo Bertolucci espalha referências a vários filmes clássicos e cultuados através dos jogos de Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green), gêmeos fraternos, com Matthew (Michael Pitt), estudante que chega à Paris em ebulição do maio de 68. Os jovens protestavam contra o fechamento da Cinemateca Francesa, reduto dos amantes da Nouvelle Vague e outros movimentos que ganhavam força na mesma década, inscrita na História como uma das mais intensas do século XX. Depois que formam um trio extremamente coeso, eles reproduzem cenas memoráveis do Cinema e se mantêm apoiados em ambiguidades, uma delas anunciada pelo título da obra. Afinal que tipo de sonhadores eles são: aqueles que não se abatem diante dos reveses e seguem esperançosos ou aqueles que se apartam do mundo real e permanecem em sua bolha imaginativa?

7. Cópia fiel (Copie conforme, 2010), de Abbas Kiarostami


Um passeio de uma tarde pela Toscana. Resumido a essa frase nominal, o trabalho de Kiarostami sobre a recorrência do plágio no universo artístico soa apenas idílico, e encobre muitas de suas camadas de representação. Juliette Binoche, cuja personagem nunca é nomeada, e William Shimell, na pele do escrito James Miller, discutem sobre seu novo livro, em que ele valida a cópia, sustentando principalmente que ela lança luz sobre a obra original. Entretanto, os diálogos que ambos travam perpassam muitas outras questões envolvendo o jogo cênico da vida, embaralhando perspectivas e deixando uma dúvida deliciosa no ar: são dois velhos amantes que se reencontraram e fingiam não se conhecer ou dois estranhos que, em poucas horas, passaram a agir como parceiros de longa data? Iluminados por uma fotografia que aproveita o máximo dos espaços abertos, eles semeiam essas e outras incertezas, a depender do espectador, e sintetizam com categoria o quanto fazemos das nossas relações um baile de máscaras.

8. O dia em que ele chegar (Book chon bang hyang, 2011), de Hong Sang-soo


Embebidos na metalinguagem, os protagonistas desse hábil realizador sul-coreano interagem consigo mesmo e com interlocutores externos na tentativa de traduzir suas interdições. Sang-soo costuma alternar o sexo desses protagonistas, e aqui elege o homem para a função: Sang-Joon (Jun-Sang Yu) é professor do Departamento de Cinema de uma universidade e já dirigiu alguns filmes, mas anda empacado em seu ofício. Enquanto espera pelo irmão, um crítico de Cinema, ao sul da cidade em que vive, encontra, reencontra e se desencontra de pessoas que fizeram e fazem parte de sua história de vida, em um ciclo de repetições e reescrituras cuidadosamente arquitetado pela porção roteirista de Sang-soo, que, por causa do eixo temático de sua filmografia e do comportamento verborrágico de seus personagens é comparado a Woody Allen e Eric Rohmer. A filiação a dois nomes de peso é legitimada em seus fotogramas, mas ele alça seus próprios voos e salienta que, na condição de humanos, somos um livro cheio de páginas em branco a serem preenchidas pelas experiências.

9. Holy motors (idem, 2012), de Leos Carax


Um dos exercícios mais radicais de construção e desconstrução, de abadono e retomada do cinema recente foi entregue pelo inquieto Carax, que deu fim a um jejum de 13 anos sem dirigir longas-metragens para apresentar o que ele chamou de um filme, "no fundo, muito simples". Após colocar os olhos sobre o arsenal pesado de imagens plurissignificativas que ele reuniu em pouco menos de 120 minutos, a certeza que fica é a de que o cineasta usou da mais fina ironia para "definir", seu trabalho, que se define justamente pela indefinição. Tendo Denis Lavant como a metamorfose ambulante, Holy motors discute a pasteurização do cinema moderno, denuncia a plateia apática, analisa a angústia do conflito identitário e realiza através do Sr. Oscar o sonho de ser muitos outros em um único dia. Não há convicções duradouras aqui. A cada novo ato, o que fica é a "beleza do gesto".

10. Tabu (idem, 2012), de Miguel Gomes


Nem só de grandes navegações entendem os nossos colonizadores. Em se tratando de oferecer um olhar especular sobre o Cinema, Portugal também se mostra altamente capaz, e o grande nome responsável por assegurar essa afirmação é Miguel Gomes. Provindo de um outro exercício metalinguístico e de fusão entre real e fictício, ele amarra três atos em Tabu, mostrando o quanto essa arte e a própria vida podem ter fronteiras difusas. Os nomes de seus protagonistas são, em última instância, um ápice irônico que funciona como o toque de Midas de uma narrativa de roupagem simples, mas base rica: Aurora e Ventura. E tal constatação (ou a sua negação veemente) só se torna possível ao se colocar os olhos sobre o filme, revestido de um preto e branco que garante o aspecto legendário de cada fotograma de uma história que envolve os sentimento mais básico que pode habitar o coração humano: o amor. Amor pela vida, amor pelo outro, amor pelo Cinema.

Um comentário:

  1. Só a fina flor na lista. Parabéns por todos os textos. Confesso que não sou um entusiasta de Tiros na Broadway, mas nem dá para reclamar de nada, principalmente pelo bom senso de colocar uma maravilha como O Estado das Coisas, do grande Wenders.

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