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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

BALANÇO MENSAL - SETEMBRO

Está cada vez mais raro eu usar meu tempo para escrever sobre filmes - tenho dado prioridade a assistir a eles -, por isso até mesmo os balanços mensais andam atrasadíssimos. Mas como ainda dou notas para todos eles e publico no álbum do Facebook, consigo manter o controle sobre os filmes, a ordem das sessões e as avaliações sobre cada um. E é isso que possibilita a publicação de mais um tradicional balanço, que compartilho com eventuais leitores logo abaixo. Entre os diretores de setembro, destaco alguns nomes, como Marc Forster, Ang Lee, Aaron Sorkin (em sua primeira experiência atrás das câmeras) e o veterano Clint Eastwood longe dos seus melhores dias. Depois desse rápido prefácio - para não dizer que não falei das flores, segue o balanço de setembro!

MEDALHA DE OURO

Abismo do medo (Neil Marshall, 2005)



Não é com frequência que dou chance ao gênero terror, simplesmente por falta de interesse por ele, e não por acreditar que seus exemplares sejam sempre ruins. Em uma investida aqui e ali, porém, confiro exemplares que me deixam satisfeito, como é o caso de Abismo do medo, produção australiana assinada por um nome pouco badalado, o inglês Neil Marshall, que faturou o prêmio de direção no British Independent Film Awards, reconhecimento muito do merecido. A trama é simples, como acontece em tantos outros terrores, mas seu grande trunfo é mexer habilmente com sons e sombras e deixar o espectador tenso enquanto acompanha um grupo de amigas que explora uma caverna isolada da civilização em solo australiano. Uma delas ainda está aprendendo a lidar com um trauma vivido um ano antes, e para temperar ainda mais a narrativa, conflitos e dificuldades emergem entre elas quando precisam lidar com uma ameaça desconhecida naquele interior escuro. Marshall consegue escapar do maniqueísmo no trato dessas relações e faz de seu longa um daqueles que merece estar presente em listas dos melhores.

MEDALHA DE PRATA 

A lua de Júpiter (Kornél Mundruczó, 2017)



O milenar tema da fé comparece no quarto longa de Mundruczó, um misto de drama e ficção científica que acompanha um rapaz até então comum que, inexplicavelmente, aflora a habilidade de levitar. O fato vem à tona depois que ele é baleado enquanto tentava imigrar ilegalmente, e chama a atenção de um homem até então coberto de incredulidade. Exibido em competição no Festival de Cannes, A lua de Júpiter é muito mais de perguntas que de respostas, e demonstra que seu realizador vem amadurecendo a cada novo trabalho. Sua filmografia ainda curta vem chamando a atenção da crítica e levando a reflexões oportunas. Aqui, reúne dramaturgia e técnica em doses equivalentes, compondo momentos nos quais o espectador pode se questionar e repensar certezas que até então pareciam inabaláveis. Afinal, o mundo é apenas aquilo que se pode ver com os olhos físicos, ou há uma outra dimensão intangível na qual há muito acontecendo? Esses mundos se encontram em alguma medida? O que sabemos de fato? Dúvidas instigantes como essa permeiam a obra, e deixam seu percurso muito mais sinuoso e distante do óbvio ululante.

MEDALHA DE BRONZE

Perfeitos desconhecidos (Paolo Genovese, 2016)



O cinema italiano ganhou mais espaço na minha agenda dos dois últimos meses, e um de seus exemplares recentes conquistou uma vaga no pódio do mês, embora a nota que lhe atribuí seja numericamente igual à de outros títulos. O critério, porém, foi a eficiência em prender minha atenção, e nesse sentido Perfeitos desconhecidos saiu ganhando. A narrativa se detém em uma única noite, quando um grupo de amigos de longa data se reúne para jantar e segredos e mentiras cultivados entre eles começam a aparecer depois que uma integrante da turma propõe um jogo simples: todos deixam seus celulares sobre a mesa e qualquer ligação ou mensagem que surgir será compartilhada com todos. O argumento sobre o qual se baseia o roteiro não poderia ser mais contemporâneo: celulares hoje são como caixas pretas, e o uso de padrões de deslizamento ou senhas alfanuméricas demonstram que todos querem manter a salvo algumas informações. Com uma pegada que lembra o teatro (nenhum demérito, diga-se de passagem), o longa consegue ir da comédia ao drama se perder o fôlego, talvez auxiliado também por sua curta duração.

INÉDITOS

285. Coraline e o mundo secreto (Henry Selick, 2009) -> 7.0
286. Christopher Robin - Um reencontro inesquecível (Marc Forster, 2018) -> 7.0
287. O último desafio (Kim Jee-woon, 2013) -> 6.5
288. As aventuras de Paddington (Paul King, 2014) -> 6.5
289. Razão e sensibilidade (Ang Lee, 1995) -> 7.0


290. A lua de Júpiter (Kornél Mundruczó, 2017) -> 8.0
291. Abismo do medo (Neil Marshall, 2005) -> 8.0
292. Os profissionais (Richard Brooks, 1966) -> 7.0
293. A grande jogada (Aaron Sorkin, 2017) -> 7.0
294. 15:17 - Trem para Paris (Clint Eastwood, 2017) -> 5.0
295. Em chamas (Lee Chang-dong, 2017) -> 7.0



296. Gênio indomável (Gus Van Sant, 1997) -> 7.0
297. O âncora - A lenda de Ron Burgundy (Adam McKay, 2004) -> 5.0
298. Não seja mau (Claudio Caligari, 2015) -> 7.0
299. As palavras (Brian Klugman e Lee Sternthal, 2012) -> 3.0
300. Perfeitos desconhecidos (Paolo Genovese, 2016) -> 7.0
301. Passageiros (Morten Tyldum, 2016) -> 5.0


302. A morte de um ciclista (Juan Antonio Bardem, 1955) -> 6.0
303. Sem segurança nenhuma (Colin Trevorrow, 2012) -> 5.5
304. Kung-fusão (Stephen Chow, 2004) -> 2.0
305. Han Solo: uma história star wars (Ron Howard, 2018) -> 4.0
306. Celeste e James para sempre (Lee Toland Krieger, 2012) -> 5.0
307. A prayer before down (Jean-Sthéphane Sauvaire, 2017) -> 6.5
308. Dogman (Matteo Garrone, 2018) -> 7.5



309. O salário do medo (Henri-Georges Cluzot, 1953) -> 8.0
310. O beijo da mulher aranha (Hector Babenco, 1985) -> 7.5
311. Batman: o cavaleiro das trevas ressurge (Christopher Nolan, 2012) -> 6.0
312. Uma noite de crime (James DeMonaco, 2013) -> 2.0
313. O sorriso de Mona Lisa (Mike Newell, 2003) -> 6.5
314. 10 segundos para vencer (José Alvarenga Jr., 2017) -> 6.0


REVISTOS

Um sonho de amor (Luca Guadagnino, 2009) -> 8.5
Foi apenas um sonho (Sam Mendes, 2008) -> 7.5
A doce vida (Federico Fellini, 1960) -> 8.0
Minha vida sem mim (Isabel Coixet, 2003) -> 7.5

MELHOR FILME: Abismo do medo
PIOR FILME: Kung-fusão
MELHOR DIRETOR: Neil Marshall, por Abismo do medo
MELHOR ATRIZ: Jessica Chastain, por A grande jogada
MELHOR ATOR: Marcello Fonte, por Dogman
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Sônia Braga, por O beijo da mulher aranha
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Neil Marshall, por Abismo do medo
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Henri-Georges Cluzot e Jérôme Géronimi, por O salário do medo
MELHOR TRILHA SONORA: Abismo do medo
MELHOR FOTOGRAFIA: A lua de Júpiter
MELHOR CENA: A perseguição pela caverna em Abismo do medo
MELHOR FINAL: Em chamas

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

Agosto voltou a ser um mês cinematograficamente enxuto devido ao recesso de filmes em que estive entre os dias 8 e 20, pouco mais de 1/3 de sua duração. Ainda assim, nos demais dias até que consegui inserir bastantes títulos na minha rotina, e a reunião de todos eles aparece logo abaixo. Como sempre, foi difícil chegar ao pódio final, especificamente por causa do terceiro lugar, porque os dois primeiros foram as únicas notas 8 do mês, enquanto para receber a medalha de bronze a concorrência era entre vários longas cotados com um 7.5. A vitória então foi dos diálogos, a maior justificativa para termos o filme que escolhi ocupando essa posição. 

Posso afirmar que foi um mês produtivo, sem muitos nomes badalados, mas com pessoal competente para contar suas histórias, despertar sensações e manter os olhos atentos. Entre os que posso citar na direção, figuram Kenneth Lonergan - realizador bissexto afeito aos dramas familiares, um dos meus interesses -, Vittorio de Sica - em um de seus encontros com Sophia Loren -, Kim Ki-Duk mais uma vez explorando a violência e Hirokazu Kore-eda mudando levemente de ares e reafirmando que sua vocação é assuntos de família.

MEDALHA DE OURO

Benzinho (Gustavo Pizzi, 2018)


O senso comum diz que "Mãe é tudo igual, só muda o endereço", e essa é uma das frases com a qual tendo a concordar e que encontra ilustração em Benzinho, sobre uma matriarca em vias de se despedir do filho mais velho, que está de partida para Alemanha, onde vai realizar seu sonho de jogar em um time profissional com toda a infraestrutura. Na pele de Irene está Karine Teles, atriz pouco conhecida dos telespectadores, mas que vem brilhando no cinema há quase uma década. Expressiva e autêntica, ela representa não apenas a mãe típica, de coração na mão com a "perda" de seu benzinho, mas também toda uma classe de brasileiros que se equilibra na corda bamba do orçamento apertado e tenta manter a família unida mesmo com os perrengues que, por vezes, surgem em efeito cascata. Pizzi fez de Benzinho uma comédia agridoce, na qual o sentimento de identificação acontece fácil, e que em seus momentos mais sérios exala ternura em vez de pieguice. 

MEDALHA DE PRATA 

Batman - O cavaleiro das trevas (Christopher Nolan, 2008)


À época de seu lançamentos nos cinemas, um crítico se referiu ao filme como "a alegoria política mais perturbadora de 2008". Essa frase nunca saiu da minha cabeça, mas levou 10 anos para que a surgisse a vontade de ver a sequência do "renascimento" do herói sombrio e eu pudesse tirar minhas próprias conclusões sobre a obra. Felizmente, tive um olhar positivo, que começou a ser construído no longa anterior e se consolidou aqui. De fato, são muitas as alusões políticas possíveis na história, assim como leituras sociais que demandariam uma crítica mais longa (quiçá um dia eu faça, mas já existem várias disponíveis enquanto isso), e não um mísero parágrafo. Por ora, cumpre destacar a direção sóbria de Nolan e a montagem de Lee Smith - parceiro habitual do diretor, bem como a atuação monstruosa (com trocadilhos) de Heath Ledger, de longe o Coringa mais icônico e acertado - e olha que não vi todos os outros, mas duvido muito de que esteja sendo irresponsável em minha colocação. E à parte as ressonâncias reflexivas, o roteiro também não negligencia a porção do entretenimento.

MEDALHA DE BRONZE 

O sol tornará a brilhar (Daniel Petrie, 1961)


Apesar de seu título otimista, O sol tornará a brilhar não apresenta muitos momentos alegres. Com sua essência teatral, o longa é formado por muitos diálogos e, somado ao seu elenco altamente coeso, forma a díade que responde por sua qualidade. Questões como o racismo, ainda em discussão na sociedade contemporânea, e a cisão entre conformismo e ambição se levantam a partir dos vários embates entre os membros de uma família de baixa renda, cuja chance de mudar de vida surge a partir de um evento fatídico: a morte de seu patriarca, que deixa uma quantia considerável de seguro e desperta o interesse do filho mais velho, Walter (Sidney Poitier), determinado a aplicar o dinheiro em um negócio, que segundo ele, não tem erro. Daí em diante, o roteiro de Lorraine Hansberry, também autora da peça em que o filme se baseia, evita reducionismos e generalizações, dotando seus personagens de uma genuína humanidade e fazendo entrever um pouco de nós em falas, atitudes e pensamentos, sejam eles bons ou maus. E o retorno do brilho do sol pode acontecer de uma maneira que não se espera.

INÉDITOS

260. Conte comigo (Kenneth Lonergan, 2000) -> 7.5
261. Fora de alcance (Jean-Baptiste Léonetti, 2014) -> 3.0
262. O sol tornará a brilhar (Daniel Petrie, 1961) -> 7.5
263. Duas mulheres (Vittorio de Sica, 1960) -> 7.0
264. A salvação (Kristian Levring, 2014) -> 7.5


265. Fortunata (Sergio Castelitto, 2017) -> 7.5
266. Dente por dente (Kim Ki-Duk, 2014) -> 7.0
267. Sexy por acidente (Abby Kohn e Marc Silverstein, 2018) -> 6.0
268. Hot summer nights (Elijah Bynum, 2017) -> 6.0
269. O professor aloprado (Jerry Lewis, 1963) -> 7.5
270. O exótico hotel Marigold 2 (John Madden, 2015) -> 4.0


271. Tracks (John Curran, 2013) -> 6.5
272. Upgrade (Leigh Whanell, 2018) -> 8.0
273. A dama dourada (Simon Curtis, 2015) -> 6.5
274. A câmera de Claire (Hong Sang-soo, 2017) -> 7.5
275. Benzinho (Gustavo Pizzi, 2018) -> 8.0
276. Lucky (John Carrol Lynch, 2017) -> 7.5
277. O terceiro assassinato (Hirokazu Kore-eda, 2017) -> 7.5




278. Atração fatal (Adrian Lyne, 1987) -> 7.0
279. Batman - O cavaleiro das trevas (Christopher Nolan, 2008) -> 8.0
280. Irma La Douce (Billy Wilder, 1963) -> 7.5
281. Coisas secretas (Jean-Claude Brisseau, 2002) -> 7.5
282. Summer of 84 (François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karl Whissell, 2018) -> 8.0
283. Eclipse total (Taylor Hackford, 1995) -> 7.0
284. Ghost stories (Jeremy Dyson e Andy Nyman, 2017) -> 7.0

REVISTOS

Scott Pilgrim contra o mundo (Edgar Wright, 2010) -> 8.0 Dúvida (John Patrick Shanley, 2008) -> 8.0

MELHOR FILME: Benzinho
PIOR FILME: Fora de alcance
MELHOR DIRETOR: Gustavo Pizzi, por Benzinho
MELHOR ATRIZ: Karine Teles, por Benzinho
MELHOR ATOR: Sidney Poitier, por O sol tornará a brilhar
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ruby Dee, por O sol tornará a brilhar
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Heath Ledger, por Batman - O cavaleiro das trevas
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Benzinho, por Gustavo Pizzi e Karine Teles
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: O sol tornará a brilhar, por Lorraine Hansberry
MELHOR FOTOGRAFIA: Mikiya Takimoto, por O terceiro assassinato
MELHOR TRILHA SONORA: Maximiliano Silveira, por Benzinho
MELHOR CENA: A mãe entre o choro e o riso em Benzinho
MELHOR FINAL: Benzinho

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Roda gigante ou o desequilíbrio diante da frustração

Personagens frustrados não são uma novidade no universo alleniano. A título de exemplos, alguns nomes de uma vasta galeria podem ser citados, como o Isaac Davis (Woody Allen) de Manhattan (idem, 1979) - interessado na amante de um amigo -, a Cecilia (Mia Farrow) de A rosa púrpura do Cairo (The purple rose of Cairo, 1985) - que encobria o sentimento com sucessivas idas ao cinema para ver seu filme predileto -, a Jeffrey (Julia Roberts) de Todos dizem eu te amo (Everyone says I love you, 1996) - tentada a conhecer a vida fora do casamento - e o Gil Pender (Owen Wilson) de Meia-noite em Paris, um saudosista de carteirinha que se considera nascido tarde demais. A protagonista de Roda gigante (Wonder Wheel, 2017) é mais uma integrante desse time: Ginny (Kate Winslet), simpático apelido de Virginia Rannell, uma dona de casa dos anos 50 que está longe de viver a vida de que gostaria. E dessa frustração começa a nascer a ação do 46º filme do realizador, que mantém o fôlego de um longa por ano desde 1982. 

Infelizmente, a produção sofreu um certo boicote por causa do ressurgimento (fato que ocorre de tempos em tempos) da acusação de abuso sexual contra Allen, e com isso a merecida indicação ao Oscar, bem como a vitória, para Winslet, simplesmente não aconteceram. E bastam poucos minutos de narrativa para constatar que a atriz está em um de seus cinco melhores desempenhos da carreira. Em olhares, gestos e falas, ela ilustra o psicológico de alguém que espera mais do que recebe, e está ocupando seus dias de maneira inócua. Por sua vez, o cenário em que a história se passa não poderia ser mais contrastante: Coney Island, espécie de balneário que tem como um de seus atrativos a multicolorida roda gigante que forma o título. As cores estouradas e vibrantes capturadas por Vitorio Storaro, em mais uma colaboração com Allen, viram personagem desde o plano de abertura, que traz Mickey (Justin Timberlake), o narrador personagem que prenuncia um pouco da ação sobre a qual vai fazer algumas ponderações. Sem dar certeza de que a história é real ou apenas fruto de sua imaginação de escritor (outra recorrência alleniana), ele se apresenta para o público do alto de sua cadeira de salva-vidas.

Já fazia tempo que Allen e Winslet deveriam se encontrar, sobretudo quando se considera que ela coleciona interpretações marcantes - a Clementine de Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004) é uma delas - e ele tem enorme talento na direção de atrizes, tendo várias delas ganhado o Oscar em filmes seus. E tal encontro não podia ser mais feliz, pois aqui tudo funciona em termos de dramaturgia e desenvolvimento. Winslet se mostra à vontade como uma das figuras femininas fortes escritas pelo cineasta, fugindo de cacoetes visuais que poderiam gerar o rótulo de maluca ou histérica. As neuroses de Ginny são palpáveis e muitas mulheres em sua faixa etária devem se identificar com o sentimento de tempo perdido e de plena incerteza sobre o que ainda é possível alcançar. Dito de forma simples, ela só quer uma vida que valha a pena. Daí o apego quase imediato a Mickey, no qual vê um sopro de frescor e a chance de desenterrar seu talento dramático, no qual deixou de investir desde o casamento com Humpty (James Belushi, em um grande papel depois de séculos), uma relação monocórdia e sem traços de paixão ou romantismo.



Não é somente Winslet, porém, que estreia no cinema alleniano. Os demais integrantes do elenco também selam aqui sua primeira parceria com o novaiorquino, cuja reconhecida habilidade na direção de atores mais uma vez se comprova. Muito se comentou sobre o desempenho de Timberlake ser engessado e destoar do de Winslet, mas não é o que se verifica com os dois em cena. Na verdade, enquanto seu personagem representa a inexperiência e o desejo de desenvolver sua veia artística e ter o seu lugar, a dela traduz a chegada à maturidade - ao menos a cronológica - e alguns tropeços já vividos. Outra que também entrega um bom trabalho é Juno Temple. Na pele da jovem enteada de Ginny, ela completa o triângulo amoroso capaz de gerar desdobramentos que trazem novamente à tona uma questão cara ao cinema do diretor: a moral, bem como a privação dela, ainda que por um breve instante, e a consciência. Diferentes resultados já vieram desses temas, com abordagens cômicas e dramáticas, e em Roda gigante Allen pende para o segundo gênero. Daí vem a acusação já batida de que ele se repete, o que em parte é verdade, mas também não é demérito. Estamos falando de um autor que elegeu sua assinatura, afinal. E não se trata de um caso singular.

A propósito da citada fotografia de Storaro (detalhe técnico que, se comentado, vale a pecha de cinéfilo chato), não é exagero o que se disse sobre ela ser um personagem dentro da narrativa. Houve quem dissesse que o esquema de cores adotado tornou a história teatral demais, o que não parece uma observação acertada. Cinema é basicamente imagem, logo uma iluminação que se incorpore ao enredo de tal forma a se sobressair junto com seus intérpretes e esteja servindo a alguma finalidade pode ser considerada um êxito. E, ainda que fosse verdade, qual o demérito de evocar ao teatro? Uma cena em específico reforça essa tese da luz personagem: é um dos diálogos de Ginny com Humpty, quando os dois estão perto da janela e a Roda da Maravilha (tradução livre do nome da atração do título) é visível ao fundo. À medida que os estados de ânimo dos dois vai se alterando, as cores vão mudando, revelando uma rica paleta carregada de significado. Com isso, Roda gigante também deslumbra as retinas e mantém o cinema alleniano em um patamar elevado, a despeito da corrente contrária de seus detratores. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

BALANÇO MENSAL - JULHO

A caminhada cinematográfica segue avante! Em mais um mês cheio de filmes, não pode faltar o balanço com todos os vistos e revistos, bem como os melhores em algumas categorias, tradição que já mantenho há cinco anos. É importante assinalar que depois de três balanços atrasados devido a uma junção de cansaço e pouco tempo disponível, com este de julho eu volto aos trilhos e apresento no devido tempo o que vi do cinema em mais uma porção de 31 dias. E parece que as escolhas também voltaram a andar mais na linha, porque surgiram ótimos filmes para tornar mais disputado o fechamento do pódio, que acabou ficando multinacional, e essa diversidade é um fato que me agrada bastante.

No geral, posso afirmar que julho foi um mês de mais acertos que erros, superando a sequência de decepções e perdas de tempo que prevaleceram nos últimos três meses. Assim como a quantidade: foram vários dias em que consegui assistir a dois filmes. Entre os nomes que considero dignos de destaque, estão Brian De Palma - dessa vez como retratado, e não como condutor da cena -, Andrea Pallaoro e seu retrato da solidão aberto a inferências, Kyoshi Kurosawa e sua tendência ao insólito com ressonâncias realistas, e Wes Anderson, nem tão em boa forma assim, mas ainda merecendo atenção.

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Dívida de honra (Tommy Lee Jones, 2014)


Até agora, Tommy Lee Jones investiu quatro vezes na carreira de cineasta, e desse total estou em dia com a metade. Exibido em Cannes, Dívida de honra é um tributo muito bem realizado ao que cada pessoa ainda guarda de humano dentro de si, equilibrando com cuidado e método a razão e a emoção. Na pele de um posseiro que não consegue comprovar que uma casa é sua e passa ser perseguido, ele é salvo da morte por uma dona de casa (Hillary Swank) destemida, à qual foi confiada a missão de escoltar três mulheres acometidas de distintos tipos de desordem mental. Em troca, ele se compromete a ajudá-la nessa longa empreitada, sujeita às intempéries da natureza e que vai obrigá-los a uma convivência nem sempre muito fácil. Valendo-se de um estilo clássico, Lee Jones consegue nos remeter à moda antiga sem soar datado, e entrega um conto de momentos e diálogos marcantes, queimando a língua de quem insiste em dizer que os bons filmes ficaram no passado. Alguns nomes do elenco figuram apenas em participações especiais, como Meryl Streep, que surge quase no finzinho como a benfazeja cristã.

MEDALHA DE PRATA

Os olhos de Julia (Guillem Morales, 2010)


Quando um bom roteiro é filmado, as chances de sair um resultado de qualidade são altas, e felizmente é caso aqui. A narrativa acompanha uma mulher que não se convence de que a irmã gêmea cometeu suicídio, e decide investigar se está com a razão mesmo a contragosto do marido e com as circunstâncias apontando para a versão oficial. Num crescente de medo e agonia, porém sem deixar o espírito inquiridor de lado, ela vai adiante e mergulha em um mundo de sombras, tendo que confiar cada vez menos em seus olhos, devido a uma doença degenerativa, a mesma de que sofria a irmã. Ambas são vividas pela espetacular Belén Rueda, cuja beleza não ofusca a grande atuação e de quem nos tornamos cúmplices incondicionais porque nosso faro também diz o tempo todo que algo está errado. Escrito por Oriol Paulo - que viria a nos entregar O corpo (2012) e Um contratempo (2016), também como diretor - e Guillem Morales, também realizador, Os olhos de Julia mexe com os nervos e garante o suspense até o fim, respondendo a certas perguntas de modo menos óbvio e figurando entre os grandes desta década em seu gênero predominante.

MEDALHA DE BRONZE

Arábia (João Dumans e Affonso Uchoa, 2017)



Existe vida inteligente e sensível pulsando no cinema nacional, e eis aqui uma prova dessa verdade. Contando com um argumento extremamente simples e narrativa idem, Arábia desvenda parte da história de vida de um homem comum, que tem seus escritos achados casualmente por um garoto que começa a lê-los. Ao abdicar de qualquer firula no conteúdo e na forma, a dupla de diretores faz emergir o que há de humano - e, portanto, universal - na jornada de Cristiano (Aristides de Sousa), mineiro que, como grande parte de seus conterrâneos, tem aquele olhar desconfiado e a mansidão na fala. O roteiro, porém, não abre espaço para estereótipos, como a afirmação da oração anterior poderia levar a crer. Tudo é calcado na suavidade e na paciência, e essas características fazem de Arábia um filme que conquista devagar, e vai ganhando espaço na memória de longo prazo também porque cada um de nós tem um pouco de Cristiano: sorte, reveses, medos, arrependimentos, lembranças, dores, pequenas alegrias. A vida tem porções de tudo isso e mais para todos. Sousa já tinha mostrado seu talento para tipos naturalistas em A vizinhança do tigre (idem, 2014), e aqui também serve de amostra da tenebrosa realidade proletária brasileira.

INÉDITOS

LONGAS

224. A família (Luc Besson, 2013) -> 6.5
225. A cordilheira (Santiago Mitre, 2017) -> 7.5
226. My way, o mito além da música (Florent Emilio-Siri, 2012) -> 7.0
227. De Palma (Noah Baumbach e Jake Paltrow, 2015) -. 7.0
228. Um negócio de risco (Jackie Earle Haley, 2015) -> 6.5



229. Homem Formiga e a Vespa (Peyton Reed, 2018) -> 7.0
230. Não ultrapasse (Adam Smith, 2016) -> 6.0
231. Arábia (João Dumans e Affonso Uchoa, 2017)
232. Selvagens (Oliver Stone, 2012) -> 7.0
233. Custódia (Xavier Legrand, 2017) -> 8.0
234. Mulheres alteradas (Luíz Pinheiro, 2018) -> 6.0


235. Os 33 (Patricia Riggen, 2015) -> 6.0
236. Os agentes do destino (George Nolfi, 2011) -> 6.0
237. Hannah (Andrea Pallaoro, 2017) -> 8.0
238. Os olhos de Julia (Guillem Morales, 2010) -> 8.5
239. O pescador de ilusões (Terry Gilliam, 1991) -> 7.0
240. Dívida de honra (Tommy Lee Jones, 2014) -> 8.5
241. Antes que tudo desapareça (Kyoshi Kurosawa, 2017) -> 8.0


242. Presságios de um crime (Afonso Poyart, 2015) -> 5.5
243. Ilha dos cachorros (Wes Anderson, 2017) -> 7.0
244. Superman: o filme (Richard Donner, 1978) -> 6.5
245. Uma quase dupla (Marcus Faustini, 2018) -> 6.0
246. Sala verde (Jeremy Saulnier, 2015) -> 2.0
247. Mar aberto (Chris Kentis, 2003) -> 8.0


248. Tinha que ser ele? (John Hamburg, 2016) -> 5.0
249. Dark crimes (Alexandros Avranas, 2016) -> 7.0
250. Tully (Jason Reitman, 2018) -> 7.5
251. Foxtrot (Samuel Maoz, 2017) -> 6.0
252. Batman begins (Christopher Nolan, 2005) -> 7.0



253. O mercador de almas (Martin Ritt, 1958) -> 8.0
254. Comeback - Um matador nunca se aposenta (Erico Rassi, 2017) -> 8.0
255. Missão impossível - Efeito fallout (Christopher McQuarrie, 2018) -> 7.5
256. Antes só do que mal acompanhado (John Hughes, 1987) -> 8.0
257. Por aqui e por ali (Ken Kwapis, 2015) -> 4.5
258. Miss Bala (Gerardo Naranjo, 2011) -> 7.5
259. Calvário (John Michael McDonagh, 2014) -> 7.5

REVISTOS

Quero ser John Malkovich (Spike Jonze, 1999) -> 9.0
O amor não tira férias (Nancy Meyers, 2006) -> 8.0
Para Roma, com amor (Woody Allen, 2012) -> 7.5
O labirinto do fauno (Guillermo del Toro, 2006) -> 8.5

MELHOR FILME: Dívida de honra
PIOR FILME: Por aqui e por ali
MELHOR DIRETOR: Tommy Lee Jones, por Dívida de honra
MELHOR ATRIZ: Belén Rueda, por Os olhos de Julia
MELHOR ATOR: Jérémie Renier, por My way - O mito além da música
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Meryl Streep, por Dívida de honra
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Orson Welles, por O mercador de almas
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: João Dumans e Affonso Uchoa, por Arábia
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Tommy Lee Jones, Kieran Fitzgerald e Wesley A. Oliver, por Dívida de honra
MELHOR FOTOGRAFIA: Dívida de honra
MELHOR TRILHA SONORA: Dívida de honra
MELHOR CENA: A decisão de continuar o transporte em Dívida de honra
MELHOR FINAL: Arábia

sexta-feira, 27 de julho de 2018

QUINTETO DE OURO - AMIZADE

Uma das possíveis definições de amizade nos é dada por um dicionário encontrado na internet: sentimento de grande afeição, simpatia e apreço entre pessoas. Quem pode viver sem experimentar isso? No meu conceito pessoal, amizade também envolve certas prerrogativas, como companheirismo, interesse pelo que se refere ao outro, torcida, bons momentos compartilhados e relembrados, carinho verbal e físico, entre outras. Acaba que cada um tem seu ponto de vista sobre esse sentimento, mas essa diferenças acabam se diluindo à medida em que uma verdadeira amizade é cultivada. Momentos de crise e briga também existem, afinal estamos falando de um relacionamento entre pessoas, e todos nós somos difíceis. Porém, quando o amor supera as divergências, é certo que a amizade vai longe...

O cinema está cheio de exemplos de histórias de grandes amigos, e selecionar apenas cinco títulos para figurar neste artigo deu bastante trabalho e doeu no coração. Na minha lista original havia quinze filmes, e peneirá-los para chegar à quantidade que justifica o termo Quinteto de Ouro exigiu que eu deixasse não necessariamente os melhores em termos de realização, mas aqueles pelos quais tenho mais carinho. Interessante notar que apenas dois deles - Mary & Max - Uma amizade diferente e Intocáveis - eu vi duas vezes, mas os outros três ainda seguem vivos na minha cabeça e foram vistos há menos de cinco anos. E para todos eles já tenho críticas prontas, o que me conduziu mais facilmente à escolha do tema.  O outro detalhe é que este mês se celebra o Dia do Amigo, e que ocasião melhor do que essa para trazer o assunto? Os textos colocados abaixo são fragmentos dessas críticas, todas disponíveis aqui no blog. Seguem, portanto, os eleitos, dispostos em ordem cronológica, porque não sou doido de listá-los segundo a preferência...


1. Conta comigo (Rob Reiner, 1986)



A verdade é que, independente dos rumos posteriores de seu elenco, Conta comigo é uma ilustração caprichada do quanto é importante ter com quem contar, exatamente o que os títulos original e nacional indicam. Poucas frases podem ter um efeito tão tranquilizador e emocionante quanto essa, ainda mais quando dita por alguém que já se tornou querido. Caminhar sozinho é sempre mais difícil. A seu favor, a história também traz o fato de que nenhum dos meninos é unidimensional. Em seus olhares e falas, está sintetizada boa parte de uma fase da vida em que tudo é imenso, para o bem e para o mal. Gordie, Chris, Teddy e Vern se amam, embora nem sempre saibam dizer isso. Quem faz a leitura é o espectador, que vê melhor por estar de fora, mas que reconhece o sentimento porque também tem os seus amigos do coração. Nas horas em que tudo o que importa é um abraço apertado, calam-se os lábios e flui a linguagem universal do carinho. Amigos, como viver sem vocês?


2. Bala na cabeça (John Woo, 1990)



O foco está sobre três amigos de longa data cuja obstinação por uma vida mais confortável os empurra para longe da Hong Kong dos anos 60, cidade onde sempre moraram, e é justamente a busca insistente por ganhar suas vidas que, de variadas formas, os faz perdê-las. Ben (Tony Leung Chiu-Wai), Paul (Waise Lee) e Frank (Jacky Cheung) selaram um pacto de companheirismo e lealdade que parece inabalável, e mantém sua firmeza até onde o dinheiro permite. É quando o vil metal entra em cena que todos os anos de experiências em comum acumuladas parecem jamais ter existido. Baseado em uma premissa de apelo universal, Woo concebeu um longa-metragem pungente em que há muito mais balas do que singular do título faz supor. O cineasta não economiza munição e coloca seus personagens em situações-limite que testam constantemente sua resistência e desafiam sua fidelidade um ao outro. Para além de toda a violência a que os espectadores de filmes de ação se habituaram, Bala na cabeça é uma história de feridas abertas e nunca totalmente cicatrizadas, que laceram muito mais do que uma infinidade de disparos.

3. Um sonho de liberdade (Frank Darabont, 1994)



Acima de tudo, Um sonho de liberdade é um filme que trata sobre o quanto é importante não perder a esperança, e a conciliar esse sentimento com uma conduta pró-ativa, lição áurea para qualquer ser humano, independente de suas demais crenças particulares. E, na trilha difícil que Andy (Tim Robbins) percorre, é fundamental ter com quem contar, o que ele encontra em Red (Morgan Freeman), um homem capaz de pequenas negociatas com os colegas e que obtém qualquer material que lhe peçam. Fica nítido o quanto ele gostou de Andy gratuitamente, numa demonstração de empatia imediata, que só não é rapidamente desdobrada por conta da opção inicial de Andy pela distância. Passado esse gelo, podemos enxergar o carinho e a preocupação de um com o outro, e um desejo de ver o mundo externo de novo, mesmo que seja para morrer logo em seguida. 

4. Mary & Max - Uma amizade diferente (Adam Elliot, 2009)



Uma das mais gratas surpresas do ano de 2010 foi, sem sombra de dúvida, Mary e Max -Uma amizade diferente. A animação australiana, dirigida por Adam Elliott, é simplesmente um grande achado em termos de narrativa, de enredo e de como tocar fundo o coração de qualquer ser humano, mesmo aqueles que parecem não ter um. [...] Tudo começa quando Mary, uma garotinha retraída e solitária de 8 anos,começa a aumentar seus questionamentos sobre o mundo e as pessoas. Incapaz de se relacionar normalmente com os colegas de sua escola, ela decide começar a se corresponder com uma pessoa escolhida ao acaso em uma lista telefônica. Para quem imaginava uma animação nos moldes daquelas produzidas pela Disney/Pixar ou pela Dream Works, a surpresa já começa pelo início da sinopse, comentado acima. E Mary e Max - Uma amizade diferente, vai muito além disso. Na verdade, logo se percebe que o filme, apesar de um animação, não é exatamente recomendável para todos os públicos, já que oferece um tipo de reflexão de que, normalmente, filmes desse "nicho" não dão conta. 

5. 3 idiotas (Rajkumar Hirani, 2009)



Com uma narrativa tão longa, sobra tempo e ocasião para 3 idiotas discutir amizade e várias outras questões, como o direito dos filhos à escolha de seus caminhos, promovida através de Farhan, que alimenta o sonho de ser fotógrafo e só está cursando engenharia por causa do pai, e também de Raju, que toma uma atitude drástica ao ver que corre o sério risco de desapontar a mãe necessitada, que aposta todas as fichas em sua graduação. Não faltam momentos em que pode ser muito difícil segurar as lágrimas, já que o cuidado e o apreço dos amigos um pelo outro é incondicional e se traduz em gestos emocionantes, como fazer uma festa para um deles voltar à consciência. O grande herói da história é mesmo Rancho, interpretado por um dos atores mais requisitados do país, que também exibe vocação para galã com sua estampa visualmente agradável, por assim dizer. Sua figura já foi até matéria-prima de uma monografia da área de Comunicação Social que versa justamente sobre a representação do herói, mais um atestado do valor do filme para além de algumas horas de entretenimento - embora cumprir esse papel já o legitimasse o suficiente. 

domingo, 22 de julho de 2018

BALANÇO MENSAL - JUNHO

O tempo realmente não para... Cá estamos em junho, o mês que encerra o primeiro semestre de mais um ano que parece ter começado há apenas umas semanas. Perplexidades à parte, apresento mais um percurso cinematográfico, no qual deparei pela primeira ou pela segunda vez com produções dos mais diversos naipes e alcances, e o resultado dessa caminhada se encontra logo abaixo, com um desfile de nomes como Mike Newell, David Ayer, Martin Campbell, Jacques Tati e Antoine Fuqua. Não foi um mês de tantos filmes, tendo em vista as quantidades alcançadas em meses anteriores, mas ainda tenho conseguido manter a marca de ao menos um filme por dia. Também não foi um mês de grandes filmes, o que o alto índice de notas abaixo de 8 revelam. Porém, só se confirma a qualidade (ou o defeito) de um filme assistindo a ele. Sendo assim, até os ruins servem de exemplo. Do que não fazer.

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Os produtores (Susan Stroman, 2005)


Desde que entrou em cartaz no cinema - foi uma das últimas estreias do circuito comercial carioca em 2005 -, estava de olho nesse aqui, e o tempo avançou quase 13 anos até que eu enfim visse o quanto se trata de uma comédia realmente divertida. A proposta inicial demonstra inteligência: um ganancioso produtor teatral (Nathan Lane), que ludibria velhinhas lascivas se dá conta de que um fracasso de público e crítica pode ser muito mais rentável. Partindo dessa ideia, alicia um contador incauto (Matthew Broderick) e, mas adiante, ganha a companhia de uma estonteante sueca (Uma Thurman, com um sotaque bem arranjado). Tudo embalado com muita cantoria e tiradas irônicas, que tornam a experiência bem gostosa e também dão o que pensar. O enredo também já foi musical na Broadway, e sua versão para o cinema triunfa como o elenco principal em notável coesão e capaz de causar umas boas risadas em seu público. Se há verdadeiramente um fracasso aqui, é o de serem ruins.

MEDALHA DE PRATA

Direções (Stephan Komandarev, 2017)


O cinema possibilita viagens que, de outra maneira, talvez fosse improváveis. Que tal embarcar com alguns motoristas de táxi pela noite búlgara e conhecer um pouco das histórias de pessoas comuns, com suas mazelas, agonias e dificuldades? Por mais dramática que possa soar a ideia, o realizador não pesa a mão em suas escolhas narrativas e apresenta um pequeno mostruário do que é viver a realidade de um país tão pouco lembrado quando se pensa no continente europeu. Um dos passageiros transportados está de volta ao país depois de anos, e é considerado um traidor pela taxista, que também revela uma conexão do passado entre eles. Distante dos tradicionais cartões-postais, a Bulgária compõe a Europa do Leste, com suas terras geladas e as vacâncias de seus habitantes, uma espécie de primo pobre da França, da Alemanha e de outros grandalhões econômicos. O tom realista adotado aqui imprime força às histórias, e tornam a sessão um importante painel reflexivo e uma viagem para além do conceito turístico.

MEDALHA DE BRONZE

Os incríveis 2 (Brad Bird, 2018)



Demoraram demais para produzir a continuação de Os incríveis, mas enfim ela chegou. O resultado não é dos mais incríveis - trocadilho irresistível -, mas não se pode negar o poder de atração vindo dessa família de heróis que tem seus percalços dignos de qualquer ser humano normal. E talvez aí esteja o maior atrativo da animação: por mais que façam estripulias inacreditáveis devido às suas habilidades extraordinárias, eles são gente como a gente quando têm de lidar com problemas cotidianos, como o ciúme de Bob diante do protagonismo de Helen numa missão e a paixonite de Violet por um menino que teve sua memória apagada por saber demais - e acabou se esquecendo dela também. O senão do enredo é a previsibilidade do vilão, que pode ser intuído com pouco tempo de história, mas ainda assim Os incríveis 2 é uma diversão gostosa que vale a pipoca.


INÉDITOS

194. Deadpool 2 (David Leitch, 2018) -> 7.0
195. Os produtores (Susan Stroman, 2005) -> 8.0
196. Direções (Stephan Komandarev, 2017) -> 8.0
197. Agarra-me se puderes (Hal Needham, 1977) -> 7.0
198. Quatro casamentos e um funeral (Mike Newell, 1994) -> 7.0
199. Corações de ferro (David Ayer, 2014) -> 7.0



200. Cada um na sua casa (Tim Johson, 2015) -> 5.0
201. O dobro ou nada (Stephen Frears, 2012) -> 6.0
202. Lições em família (Zach Braff, 2014) -> 6.0
203. Throughbreds (Cory Finley, 2017) -> 3.5
204. Welcome to me (Shira Piven, 2014) -> 6.0
205. Noite silenciosa (Piotr Domalewski, 2017) -> 6.5


206. O gosto do dinheiro (Sang-soo Im, 2012) -> 7.0
207. O estrangeiro (Martin Campbell, 2017) -> 6.0
208. Nick & Norah: uma noite de amor e música (Peter Sollett, 2008) -> 7.0
209. Valentino - O ídolo, o homem (Ken Russell, 1977) -> 7.0
210. Nocaute (Antoine Fuqua, 2015) -> 6.0
211. Jurassic world - O mundo dos dinossauros (Colin Trevorrow, 2015) -> 7.0
212. O outro irmão (Israel Adrián Caetano, 2017) -> 7.0



213. As férias do Sr. Hulot (Jacques Tati, 1963) -> 7.0
214. Jurassic world - Reino ameaçado (Juan Antonio Bayona, 2018) -> 7.0
215. Hereditário (Ari Aster, 2018) -> 5.0
216. Planeta dos macacos - A guerra (Matt Reeves, 2017) -> 7.5
217. Oito mulheres e um segredo (Gary Ross, 2018) -> 7.0
218. A noite devorou o mundo (Dominique Rocher, 2018) -> 6.0
219. Ruína azul (Jeremy Saulnier, 2013) -> 5.0


220. Hurricane - O furacão (Norman Jewinson, 1999) -> 7.5
221. Trama internacional (Tom Tykwer, 2009) -> 7.5
222. O último amor de Mr. Morgan (Sandra Nettelbeck, 2013) -> 6.0
223. Os incríveis 2 (Brad Bird, 2018) -> 7.5

REVISTOS

O homem que não estava lá (Ethan e Joel Coen, 2001) -> 8.0
O discreto charme da burguesia (Luis Buñuel, 1972) -> 8.0
O porto (Aki Kaurismäki, 2011) -> 8.0
A parte dos anjos (Ken Loach, 2012) -> 8.0

MELHOR FILME: Os produtores
PIOR FILME: Throughbreds
MELHOR DIRETOR: Stephan Komandarev, por Direções
MELHOR ATRIZ: Rebecca Hall, por O dobro ou nada
MELHOR ATOR: Clive Owen, por Trama internacional
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Uma Thurman, por Os produtores
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Leonardo Sbaraglia, por O outro irmão
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Os produtores, por Mel Brooks e Thomas Meehan
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Brad Bird, por Os incríveis 2
MELHOR FOTOGRAFIA: Noite silenciosa
MELHOR TRILHA SONORA: Trama internacional
MELHOR CENA: O tiroteio no Guggenheim em Trama internacional
MELHOR FINAL: Os produtores