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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Amizade, lealdade e peripécias em Up - Altas aventuras


Com direção de Peter Docter, Up - Altas aventuras (Up, 2009) é mais um legítimo exemplar da ótima safra de filmes dos estúdios da Disney/Pixar. Trata-se de uma animação que afagas os peitos onde batem corações de criança, e faz ver que há conceitos que são atemporais, como amizade, lealdade e gentileza. Os temas atravessam a história de um garotinho chamado Russell, de apenas 8 anos, e sua relação com um idoso de 78 anos que atende pelo nome de Carl Fredricksen. A princípio totalmente antagônicos, eles subverterão suas posições ao longo do período em que vão convivendo involuntariamente, depois que Russell embarca acidentalmente no sonho da vida de Carl. Há um quê de simples e de eficiente na premissa do filme: Carl sonha em viajar dentro de sua própria casa para a Amazônia, e decide concretizar esse desejo amarrando balões de gás a ela, até que "voe". Por coincidência, Russell está na varanda da casa no momento em que ela se suspende, e então acaba indo junto com Carl para a aventura.

Baseando-se nesse argumento tão interessante, Docter entregou um dos filmes mais ternos e amorosos dos últimos anos em termos de animação, comprovando a maturidade crescente da Diseney/Pixar a cada nova produção que lança, pavimentado uma estrada que ruma para a excelência. Basta pensar nos títulos anteriores, como Ratatouille (idem, 2007) e Wall-E (idem, 2008) para se dar conta de que há um estilo muito sofisticado e humanista sendo depurado filme a filme. A amizade que Carl e Russell travam é forjada a duras penas, e salienta a necessidade de fazer concessões que subjaz a qualquer relacionamento interpessoal. No começo, o garotinho é a grande dor de cabeça do senhor, mas essas concepções que cada um tem um do outro vão sendo jogadas por terra depois da entrada acidental dele na vida de Carl. Na verdade, o que leva o idoso a levar adiante sua viagem em casa são dois fatores: o primeiro é o fato de sua falecida mulher, como ele, desejar ardentemente morar na floresta; o segundo é a iminência da perda de sua casa, já que o terreno deverá abrigar uma nova construção, atendendo aos interesses de um empresário.

Depois que Carl reage com fúria à oferta desse tal homem, torna-se uma espécie de "ameaça pública", o que apressa a colocação em prática de seu plano mirabolante. As tais altas aventuras do subtítulo em português começam depois do alçamento da casa de Carl, e as imagens que passam a inundar a tela a partir daí revelam um trabalho de um exímio artista. É extremamente agradável a conjugação de bom conteúdo com arquitetura visual oferecida pela animação, que é elevada ao patamar de entretenimento reflexivo, um aparente oxímoro que deveria ser o ponto de chegada de boa parte dos filmes. Há um diálogo claro com a gramática tradicional de obras infantis do cinema estadunidense, mas Docter não deixa que Up - Altas aventuras se resuma a isso, e injeta carisma e humanidade aos seus protagonistas. Como não se encantar pela adorável rabugice de Carl? Como não adorar a educação forjada de Russell? A certa altura, ambos ganham a cumplicidade do público para que possam entrar em acordo.



A jornada dos personagens se enche de magia e de cor graças aos cenários deslumbranter por que eles passam, uma consequência da ambientação de parte da ação em terrar tropicais, devidamente reconstruídas com efeitos computadorizados. As paisagens são estonteantes, explodem em cores múltiplas, com uma fauna e uma flora riquíssimas que enchem os olhos da dupla. Eles se unem a dois companheiros de viagem igualmente cativantes: um cão que consegue falar graças a uma coleira especial e um pássaro endêmico policromático de comportamente muito extravagante, equivocadamente nomeado como Kevin, já que se trata de uma fêmea. Juntos, eles desbravam aquelas terras tão distintas de tudo a que estão acostumados, exceto o pássaro, exatamente por já ser dali. O prestígio alcançado pelo filme é merecido, e ele chegou a ser eleito para abrir o festival de Cannes em 2009, com sua ternura e docilidade em meio a pequenos rompantes de fúria, pelos quais responde Carl. Não é necessário ser criança para exultar diante da composição do filme, com bela direção de arte de Ralph Eggleston. A animação conquista facilmente por falar de pessoas comuns e por não se deixar levar por um espírito infantilizado, mas simples e meigo.

A beleza de Up - Altas aventuras também está em transmitir uma mensagem positiva. Para além de qualquer associação com uma porção de autoajuda, o filme auxilia a colocarem evidência o cultivo de virtudes que estão sendo deixadas de lado. É nítido para qualquer um de nós que praticamente não existem mais crianças como Russell. Sim, o menino é bastante travesso e leva Carl à loucura com suas pequenas armações. Contudo, ele sabe a horas certa de parar e, em um momento determinante da narrativa, é a ajuda exata de que o idoso precisa. Entre essas figuras simpáticas, desenvolve-se um afeto sincero, que leva a repensar valores que ainda valem a pena, como as pequenas gentilezas que fazemos aos amigos e a compreensão de que certos traços compõem a personalidade de uma pessoa, e há que se aceitar aquilo que não se pode mudar no outro, na medida em que essa imutabilidade não seja prejudicial ao indivíduo. Com suas diferenças justapostas durante a jornada pela floresta, Carl e Russel vão se dando conta dessas necessidades, e o carinho entre eles é regado por uma proximidade que os faz ver um ao outro bem de perto, amplificando defeitos, mas também assinalando qualidades.

No Brasil, o senhorzinho ganhou um charme a mais, já que sua voz foi dublada pelo talentoso Chico Anysio, um mestre na arte de incorporar trejeitos alheios para compor tipos. Ele traduz em um ritmo de fala peculiar o caráter bondoso de Carl, encoberto por uma carapaça de resmungos que a solidão lhe conferiu e que a presença de Russell ajuda a dissolver em grande parte. Dug, o golden retriver que usa a coleira tradutora de pensamentos caninos, por sua vez, é dublado por um dos filhos do humorista, o também talentoso Nizo Neto. O simpático cãozinho é um show à parte em termos de diversão, e exemplifica com destreza a fidelidade dos animais de sua espécie a quem lhes dá amor e cuidado. As bilheterias responderam a contento a um filme tão bem elaborado e cheio de coração, fazendo dele o terceiro mais rentável da história da Pixar, atrás apenas de Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003) e Toy story 3 (idem, 2010). Esta é uma das provas de que a animação é rica em potencialidades que se convertem em verdade e pulsa com alma e corpo diante de olhos ávidos de histórias cativantes.

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