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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A redescoberta do poder de escolha em Trem noturno para Lisboa

Baseado no best-seller de Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa (Night train to Lisbon, 2013) focaliza um indivíduo de cotidiano simples para discutir as consequências de se escolher entre a luta e a resignação. Raimund Gregorius (Jeremy Irons, de Dezesseis luas [Beautiful creatures, 2013]) é um professor universitário com décadas de sala de aula e uma vida pessoal absolutamente desinteressante. A caminho da faculdade para mais um dia esquemático, ele depara com uma jovem tentando o suicídio, prestes a se jogar de uma ponte. Num gesto rápido, consegue evitar o desatino e a leva para o trabalho, onde ministra aulas de línguas clássicas. A misteriosa mulher não permanece muito tempo em sala e parte deixando seu casaco, dentro do qual Raimund encontra um livro e um passagem de trem para Lisboa. Intitulado O Ourives das Palavras, o romance tem poucas páginas e, logo nas primeiras, impacta o professor, que deixa tudo para embarcar no tal trem, já que não consegue reencontrar a jovem. 

Está iniciada a longa e reveladora jornada do protagonista, que procura por detalhes a respeito de Amadeu de Almeida Prado (Jack Huston), autor do livro, e encontra com pessoas importantes em sua trajetória. A partir da visão de cada um sobre o falecido, Raimund vai sendo confrontado com suas escolhas da vida toda, constatando o quanto preferiu a apatia e o silêncio, enquanto Amadeu era um revolucionário por excelência. Nesse sentido, Trem Noturno para Lisboa, cuja direção é assinada por Bille August, é o contraponto entre Raimund, a morte em vida, e Amadeu, a vida soprada através da morte. E não faltam personagens com diferentes discursos e atitudes, entre eles Adriana (Charlotte Rampling), a irmã do escritor, que lhe devota gratidão por ele tê-la salvado depois de um engasgo ocorrido durante um jantar. Austera em gestos e palavras, ela é a primeira referência de Raimund.

Entretanto, o que mais depõe contra o longa é a sua estrutura narrativa excessivamente classicista. August investe em uma abordagem metódica, que alterna depoimentos dos que participaram da vida do escritor e flashbacks que mostram a história acontecendo, sempre sob um ponto de vista enviesado. Amadeu é bastante enaltecido, pintado como um revolucionário impetuoso e de retórica forjada a duras penas. No fim das contas, Trem noturno para Lisboa é muito parecido com tantos outros filmes, e tem um perfil muito próximo do que a Academia costuma indicar ao Oscar e premiar. Infelizmente, dada a natureza conservadora dos votantes, tal comentário não é elogioso, e o filme se mostra como um primo de produções como O discurso do rei (The king’s speech, 2010), exemplo recente de triunfo do convencionalismo sobre a ousadia cinematográfica. Faltou coragem da parte de August para arriscar: ainda que o material preexistente não tivesse em si essa possibilidade, valeria a pena ir um pouco além.


A maior qualidade do filme são os seus intérpretes, todos devidamente encaixados nos papéis que lhes foram confiados, a começar por Irons. Seu Raimund é a síntese de um homem profundamente arrependido de suas decisões, que experimenta sentimentos conflitantes a cada nova página lida e a cada novo encontro. Fazia tempo que o ator não protagonizava um filme, e sua experiência de anos no ofício contribui decisivamente para tornar o professor alguém verossímil, com quem se pode identificar. Não há informações específicas a respeito de seu passado, que vai sendo deduzido a partir de suas reações ao que lê e ouve sobre Amadeu. A sensação que perdura é a de que ele deixou muitas coisas passarem e o tempo, em seu curso sempre adiante, não lhe permite mais recuperá-las. No time dos coadjuvantes, há que se destacar Rampling, uma atriz que hipnotiza nos poucos minutos que tem em cena, e diz as primeiras verdades fundamentais de que Raimund se esqueceu. Ainda há espaço para o veterano Christopher Lee, em uma participação quase afetiva como o padre que lançou em Amadeu a semente da revolução.

O romance de Pascal Mercier é um calhamaço de 460 páginas, que já teve mais de 2,5 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Estruturado em quatro partes bem delimitadas, narra a partida de Raimund para a capital portuguesa, o encontro com o passado de Amadeu por meio dos encontros e diálogos com pessoas que fizeram parte da sua vida, a tentativa do professor de lidar e entender as ações e reações do escritor e, por fim, o seu retorno a Berna, cidade em que se passam as primeiras páginas da história – e os primeiros minutos do filme – e as mudanças efetivas que a viagem produziu no seu interior. August não vai tão longe em sua adaptação e prefere encerrar o filme em uma altura diferente da mostrada pelo livro. Não significa, necessariamente, que um ou outro seja melhor pelas escolhas distintas de seus realizadores, mas de uma constatação – mesmo porque, o juízo que sempre afirma ser um livro melhor que o filme no qual se baseia é precipitado e empobrecedor. Especificamente quanto ao filme, seu conjunto deixa a sensação de que August foi reverente demais à sua matriz e preferiu ficar rente ao chão em vez de alçar voos minimamente corajosos, a exemplo do que o protagonista fez a vida quase inteira.

7/10

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