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sábado, 22 de fevereiro de 2014

Ernest e Célestine, uma amizade para além de qualquer paradigma

Exemplar de animação tradicional em meio a tantas investidas no terreno do 3D, Ernest e Célestine (Ernest et Célestine, 2012) é também uma linda história de amizade que une dois mundos diferentes através dos seus representantes. Os personagens-título são, respectivamente, um urso marrom e uma rata, fadados à separação por conta das histórias que ouvem de ambos os lados sobre os perigos do contato entre as espécies. Na imensa cidade subterrânea em que vive, Célestine cresce ouvindo coisas terríveis sobre os ursos: eles gostam de pegar ratinhos indefesos e se alimentar deles das mais variadas formas, sejam cozidos, sejam fritos em óleo bem quente. Essas imagens horrendas são apresentadas pela "madre superiora" do colégio em que Célestine estuda com seus amigos, todos igualmente ratos. Não há personagens humanos no longa dirigido por  Stéphane Aubier, Vincent Patar e Benjamin Renner, o que confere um adorável tom de fábula ao enredo, com direito a uma lição de moral que soa sempre oportuna. 

Contrariando todas as histórias seculares que condenam a amizade entre ursos e ratos, os protagonistas se aproximam quando Ernest parte em busca de comida e se envolve em uma confusão com a Polícia ao cair de boca nos doces do estoque de um urso lojista. Então, o seu caminho se cruza com o de Célestine, que, a princípio, vê nele somente um aliado, já que precisa dar conta de uma missão: reunir a maior quantidade possível de dentes para levar ao consultório dentário da sua cidade. Então, uma das belas sacadas do roteiro de Daniel Pennac, que tem por base o livro de Gabrielle Vincent, é revelada: roedores por natureza, os ratos da cidade de Célestine ficaram com a dentição desgastada por conta do extenso trabalho de escavação das rochas, e acabam precisando de próteses adequadas. A solução encontrada pelos dentistas locais é se aproveitar de uma lenda corrente entre os ursos, que contam aos seus filhotes que eles ganham uma moeda quando deixam o dente de leite que acabaram de perder sob o travesseiro. Célestine e os demais ratinhos fazem o trabalho de coleta desses dentes, mas ela não anda bem-sucedida na tarefa.

Surge daí uma proposta irrecusável da parte dela a Ernest: em troca de ela livrá-lo de ir preso por invasão de domicílio, ele deve ajudá-la a reunir o máximo de dentes para levar à sua cidade e cumprir sua tarefa com louvor. De uma simples parceria com interesses individuais, nasce uma linda amizade entre os dois, que servem como um belo ensejo para a discussão sobre o peso dos preconceitos e o quanto deixá-los de lado podem ser a garantia de maravilhosas descobertas. Em pouco tempo, ambos deixam de levar em conta a natureza um do outro e se entregam de todo o coração a um relacionamento baseado no carinho e no querer bem, livre de quaisquer segundas intenções. Tudo isso envolto em uma atmosfera que remete aos livros infantis, com cenários e personagens coloridos com aquarela, uma técnica cada vez menos empregada pelos grandes estúdios. A sensação que se tem diante de Ernest e Célestine é de um delicioso retorno à infância, uma época em que a sinceridade dos sentimentos é maior e mais sólida. Faz parte do senso comum afirmar que, quando uma criança demonstra gostar de alguém, é porque gosta mesmo.


Em apenas 80 minutos, a animação também abre espaço a um debate sobre a luta de classes, questão que não perde a atualidade e é simbolizada aqui pelo confinamento dos ratos aos ambientes subterrâneos em contrapartida à permanência dos ursos na superfície. Ao se tornarem amigos, Ernest e Célestine bagunçam essa estrutura milenar, que entram em conflito direto depois de tanto tempo de guerra fria. Não há como não traçar paralelos com a realidade, mesmo porque toda história de ficção, por força, é minimamente ancorada em elementos do mundo que conhecemos, e aqui não poderia ser diferente. O rei de Célestine e dos demais ratos é símbolo de uma monarquia anacrônica, cada vez menos funcional e mais decorativa, que assume a posição de juiz imbuído de conceitos igualmente ultrapassados, mas que encontram na dedicação de Ernest, capaz de fazer o bem sem olhar a quem (outra máxima popular apropriadamente evocada), a dissolução perfeita. O mesmo vale para os outros ursos, cuja salvação vem de onde menos se espera. A essa altura, fica muito difícil manter a tal separação de cenários para cada espécie.

Ernest e Célestine é mais um sensacional representante da animação francesa, que já havia entregado ao seu público o mágico Contos da noite (Les contes de la nuit, 2011), e se tornou um dos cinco finalistas ao Oscar na categoria. Tanto o urso quanto a rata são irresistíveis em suas travessuras e pequenas gentilezas, e evocam a inocência de um tempo em que o público infantil dispunha de opções mais condizentes com a sua idade. Hoje, parece haver uma preocupação excessiva dos estúdios e diretores e cativar também os adultos, e sobram piadas cínicas e referências a práticas e pensamentos que ainda não fazem sentido para os menores. Não que Ernest e Célestine abrace apenas as crianças com sua premissa: pelo contrário, somos todos adultos cheios de preconceitos que limitam o alcance da nossas visões e corações precisando aprender sobre como abandoná-los e dar as mãos a pessoas que se podem revelar queridíssimas. Vendo o amor incondicional que nasce entre esses dois, aprender a superar estereótipos de todas as frentes se torna muito mais gostoso e nos parece bem mais palpável.

9/10

2 comentários:

  1. Como sempre, um ótimo texto, faz jus à beleza do filme. Parabéns, Patrick!

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  2. Obrigado, rapaz!
    É um filme lindo de se ver e de se escrever!

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