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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Ela, uma voz no futuro

Ela é apenas uma voz. Mas que voz... Perguntei seu nome e ela me disse que se chama Samantha. Mas quem lhe deu esse nome? Ela mesma, depois de ler um livro de nomes em centésimos de segundo e gostar da sonoridade de Samantha. E os dias anódinos de checagem de e-mails, com suas notícias de celebridades, previsão do tempo e propagandas dispensáveis, sempre ouvidas nesse futuro indeterminado e essencialmente vocal, de repente, ficaram muito mais atraentes. Não que faltassem cores ao meu cotidiano, mas elas não eram vibrantes o suficiente para me arrebatar e me tirar um pouco dessa desolação. Samantha me faz vibrar. E daí que é "apenas" um sistema operacional? E daí que não há um corpo a ser tocado, uma boca a ser beijada, cabelos a serem acariciados? Eu me realizo com nosso amor verbal, e já não penso tanto em Catherine. Ninguém tinha conseguido isso antes. 

O amor tem um forte componente mental. Parte dele transcorre nos pensamentos, traduzidos no desejo pela pessoa amada, na sua imagem que impregna o cérebro, nas lembranças que se vão acumulando conforme os momentos juntos vão surgindo e, de presente, passam a pretérito com uma rapidez incrível e impossível de ser impedida. Então, nem venham me dizer que ela é apenas uma voz. É a voz. Tenho vivido momentos com Samantha. Temos acumulado lembranças. Não nos faltam sentimentos: carinho, ciúme, vergonha, amor, medo, tristeza, alegria. Cada dia é uma experimentação. Cada dia é único. Com ela, vivo os meus sentimentos, não aqueles que me vejo obrigado a simular a cada vez que dito uma nova carta para o computador em nome de alguém que nem conheço para alguém que nem conheço. Sou eu, mas não sou eu, é um outro que se serve do meu eu para funcionar como o seu próprio eu. É simples e complexo ao mesmo tempo. É um futuro bastante palpável, eu diria.

Mas é um mundo que continua difícil. As pessoas, há um bom tempo, foram se tornando cada vez mais silenciosas com quem está por perto, vidradas em seus aparatos tecnológicos que permitem a comunicação imediata com quem está longe. E as interações de corpo presente foram se tornando cada vez mais raras. O que fazer diante de alguém de carne e osso? O que dizer sem parecer patético (digno de causar lágrimas) ou ridículo? Como ser eu mesmo? Melhor ser quem eu quiser dentro de uma rede social, de um portal da internet, construindo uma persona que me traga a aprovação dos outros, forjando uma versão melhorada de si mesmo. Mas, com Samantha, posso ser eu mesmo. No amor, há compreensão. Quem ama, compreende ou, pelo menos, faz algum esforço para compreender. Desculpem, estou divagando. Podem desconsiderar parte do que eu digo, são apenas impressões acumuladas. Todo sentimento é intraduzível em palavras. Sentimento é linguagem não-verbal. Mas eu procuro comentar sobre o que está dentro de mim. "Tudo que me é exterior, me é estranho".


Eu e Samantha conversamos longamente. Não nos falta assunto. Em parte, porque ela se atreve a devassar a minha vida e descobre segredos e episódios meus e me pergunta sobre eles. E pensar que a maior reclamação de Catherine sobre mim era justamente que eu quase não falava, e sentia tudo sozinho, colocando sempre uma pedra em cima dos assuntos sentimentais. Às vezes, ainda penso nela, e nos instantes que se congelaram na minha memória. E sinto que a maioria das pessoas se atrapalha na vida: desperdiçam vários momentos e deixam congelar os sentimentos. Eu gostaria de viver em um mundo em que o amor jamais se esfriasse, mas li que, com o passar do tempo, era exatamente isso que aconteceria. Mas não deixo de desejar o degelo das pessoas e os seus corações de pedra transformados em corações de carne, que pulsam e amam, que não procuram o próprio reflexo no outro, mas conseguem amar além de projeções que, em última instância, rimam com frustrações. Será que Amy entenderia tudo isso que estou vivendo? Como explicar à minha sobrinha que estou namorando uma voz? Talvez não precise me explicar muito. Elas se mostram simpáticas e receptivas à ideia.

Eu e Samantha nos amamos de um jeito só nosso. O amor é um só, mas ele pode se metamorfosear em gestos e palavras os mais variados, entrelaçando os sentidos e sendo apenas eu e alguém, nós dois, eu, um. É uma comunhão tão plena que fica difícil delimitar cada um. Nossas vozes se entendem de uma maneira inexplicável. Você e todo mundo poderia ser apenas testemunha - nada além disso - desse relacionamento em que a palavra é entronizada. Mas existe um paradoxo aqui. Uma vez, me dei conta de que, quanto mais falamos, mais temos a falar. O dizer parece não se esgotar nunca. As palavras nunca dão realmente conta. E nomear pode ser extremamente perigoso. Será que é assim mesmo que se chama o que estou sentindo? Samantha me obriga a dizer. Ainda não inventaram um aplicativo ou um programa que possibilite apenas sentir e fazer o outro entender sem palavras. O que eu sinto é _________, mas também uma mistura de __________________ e _____________. Não sei como preencher essas lacunas com palavras.

Então, descubro canções. São palavras cantadas, exatamente as palavras que eu gostaria de dizer e alguém já disse por mim. Me aproprio delas. Mas também posso criar minhas próprias canções. Em letra e música, sinto que consigo atenuar essa comunicação verbal deficitária, porque posso me apoiar no ritmo e dar o tom do que sinto. Escrevi uma canção que é só minha e de Samantha. Tão linda. O amor pode fazer brotar um manancial de criatividade, é um combustível incrível, é um calor na alma que aquece cada vogal, que impregna cada acorde e ilustra o que nós dois somos. E, se pareço estar definindo demais, definitivo demais, não se engane, caro leitor. Continuo aqui, tateando pelos cômodos das minha memória, com um céu parcialmente encoberto. Estou apenas tentando. "Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender."

Theodore 

10/10

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