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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

RETROSPECTIVA: 2012 NO CINEMA (parte IV)

A quarta parte da retrospectiva reúne adaptações literárias de resultados díspares, a estreia de um europeu em solo estadunidense com muito estilo, uma dupla de titãs atestando sua capacidade para tornar o banal em interessante e alguns outros bons exemplares de cinema. Segue abaixo:

31. Na estrada (On the road, 2012), de Walter Salles

Comparações são potencialmente perigosas, mas é quase irresistível recorrer a elas quando se pensa em alguns filmes sobre jovens que antecederam Na estrada. Talvez seja forte afirmar, porém o filme definitivo sobre a inquietude juvenil já foi feito, e trata-se de Os sonhadores (The dreamers, 2003), que, de quebra, oferece uma maravilhosa inserção do discurso metalinguístico, do qual o filme de Salles não tem sequer a sombra. Em termos de despudor, Na estrada também perde para o longa de Bertolucci, assim como para E sua mãe também (Y tu mamá también, 2001), outro retrato caloroso dos arroubos de paixão e fúria que pautam os anos da juventude. 

http://impressoesdeumcinefilo.blogspot.com.br/2012/08/na-estrada-e-os-arroubos-febris-de-uma.html

 Nota: 7.0

32. Fausto (Faust, 2011), de Aleksandr Sokurov

De fato, não é fácil abraçar o convite de Sokurov para adentrar os meandros do coração e da alma atribulados de Fausto, mas vale ao menos tentar um mergulho na obra, que incorpora cenas lúgubres e dantescas – como a do banho nas termas, em que o corpo do Agiota é inteiramente mostrado e a estranheza do personagem se acentua- e, também por essa razão, está longe de ser palatável. Parte da crítica se referiu ao filme como vertiginoso, o que não deixa de ser uma verdade, sobretudo nos instantes espamódicos da câmera que atravessam a narrativa pouco ortodoxa. 

 Nota: 8.0

33. Aqui é o meu lugar (This must be the place, 2011), de Paolo Sorrentino

O filme permite a conclusão de que este é um cineasta promisor, capaz de renovar o fôlego de temáticas esgarçadas para lhes assegurar a atualidade, extraindo interpretações marcantes de seu elenco e chamando a atenção para a história a ser contada e não para si, como parece ser a intenção de alguns realizadores. Antes de mais nada, Aqui é o meu lugar flagra o homem deambulante, de afeto desastrado e à procura de sua autorreinvenção. 

http://impressoesdeumcinefilo.blogspot.com.br/2012/10/aqui-e-o-meu-lugar-e-procura-por-um.html

 Nota: 8.0

34. Um divã para dois (Hope springs, 2012), de David Frankel

Um daqueles filmes perfeitamente encaixáveis em uma tarde de domingo, para ver em boa companhias. Não é filme apenas para casais formados há tempos ou em vias de formação, mas também para amantes de boas comédias e de elencos talentosos orquestrados por uma direção que não se presta a exercícios ególatras, deixando todo o espaço para que o longa em si cresça e apareça. Os tais clichês que fazem parte do rearranjo das harmonias de Kay e Arnold são usados de modo orgânico, beneficiando a narrativa com pitadas reflexivas ou com boas risadas. Enquanto eles aprendem suas lições de amor e desejo, o espectador também tem a chance de descobrir algumas verdades sobre relacionamentos sem esbarrar em um discurso didático chato ou pesado. 

 Nota: 7.0

35. 360 (idem, 2012), de Fernando Meirelles

Espargidos em cenários multinacionais que incluem cidades como Londres, Bratislava, Paris e Viena, os personagens de 360 têm poucas chances de se mostrar para além de uma construção de tipos chapados. É de se espantar o quanto o elenco rende um pouco mais do que medianamente na pele de personagens de contornos esquemáticos e perfis rasos, que não são aprofundados principalmente por conta do excesso de tramas, constatação que soa óbvia diante da ambição do diretor e do roteirista em abraçar tantas realidades diferentes em tão pouco tempo. 


Nota: 6.0

37. Intocáveis (Intouchables, 2011), de Olivier Nakache e Eric Toledano

É um filme bastante abrangente, que cativa nos seus primeiros instantes e discute valores fundamentais para uma boa convivência e um relacionamento amigável duradouro. No seu transcorrer, o filme traz à tona carinho, respeito, admiração, cuidado, apreço, bondade, sinceridade e tantas outras virtudes que, vez por outra, parecem confinadas a um espaço-tempo distante dos nossos dias. E todos esses sentimentos vêm entremeados de boas doses de riso, o que torna o longa uma eficiente comédia dramática sobre a importância de se permitir ter sensações.

Nota: 10.0

38. Cosmópolis (idem, 2012), de David Cronemberg

Cosmópolis abarca as relações humanas, demonstrando o quanto seu truncamento se acentuou com o advento de tantas parafernálias que, supostamente, serviriam como elo comunicativo e consequente redutor de distâncias espaciais. É fato notório que estamos inseridos em um tempo no qual todos podem se relacionar com todos: não há barreiras locativas, por assim dizer. Ao mesmo tempo, estamos mais sozinhos do que nunca, circunscritos a quartos e outros ambientes individualizantes que nos tornam virtualmente próximos e pessoalmente longínquos, uma condição que detona ou, no mínimo, trava manifestações concretas de carinho.

http://impressoesdeumcinefilo.blogspot.com.br/2012/11/cosmopolis-e-o-pulsar-da-decadencia.html

 Nota: 7.0

39. As sessões (The sessions, 2012), de Ben Lewin

John Hawkes é a versatilidade em pessoa. Irreconhecível para quem o viu na pele do asqueroso tio da protagonista de Inverno da alma (Winter's bone, 2010), ele transborda humanidade e carisma encarnando um tetraplégico de limitações ainda maiores que o de Intocáveis. Em sua procura pelo prazer a dois, comove e faz pensar na urgência da vida, ensaiando a formação de um par romântico com uma desinibida Helen Hunt, à vontade em várias cenas de nudez. Sem cair na esparrela do achatamento de personagens, Lewin retornou à direção após um hiato de 11 anos e acertou em vários aspectos.

Nota: 8.0

40. Holy motors (idem, 2012), de Leos Carax

Questionam-se limites em Holy motors, a ponto de nascer uma séria dificuldade em classificar o filme ou até mesmo parametrizá-lo. A produção é o inferno dos cartesianos e o apogeu dos aleatórios e instáveis, que podem se ver refletidos na figura permanentemente oscilante do protagonista, que coloca em discussão até mesmo a noção de personagem e, consequentemente, de interpretação e encenação. Afinal de contas, não estamos encenando o tempo todo? Simulamos emoções e reações, nem sempre por má fé ou canalhice premeditada mas, muitas vezes, porque nem mesmo sabemos como expor e traduzir tudo o que sentimos.

http://impressoesdeumcinefilo.blogspot.com.br/2012/10/holy-motors-e-o-embaralhamento-da-logica.html

 Nota: 10.0

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