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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nuances sentimentais observadas em Entre o amor e a paixão

Desde que decidiu se aventurar atrás das câmeras, Sarah Polley vem demonstrando o quanto a sensibilidade aflorada é o seu norte. Em Longe dela (Away from her, 2006), seu olhar se voltava para a deterioração de um casal por conta do Mal de Alzheimer da esposa sem jamais cair na pieguice ou na manipulação. Essa habilidade para retratar sentimentos volta a se manifestar em Entre o amor e a paixão (Take this waltz, 2011), mais um longa-metragem a ser incluído na imensa lista de títulos nacionais que induzem a levar gato por lebre. Protagonizado por Michelle Williams, o filme conta a história de Margot, uma mulher casada há alguns anos com Lou (Seth Rogen) e um tanto desejosa de novidade na relação, cujo frescor vem se esvaindo sem que ele demonstre perceber. No plano de abertura, vemos a personagem cozinhando algo no forno e, enquanto espera o prato ficar pronto, medita longamente com o olhar vago, perdido e algo nostálgico. Em determinado momento, perderam-se alguns ingredientes fundamentais à harmonia e ao prazer do casal.

A mesmice se mostra a grande vilã desse casamento, e confere a Margot uma expressão de enfado. Apesar disso, ela empreende algum esforço com a intenção de alterar o rumo dos fatos, mas Lou não parece inclinado ao mesmo, até porque acredita que não haja qualquer problema a ser superado. Ele prefere seguir com seus testes de receitas de frango. É um cozinheiro prestes a lançar um novo livro e suas especialidades são, justamente, pratos elaborados com a ave. A própria Margot chega a comentar que está cansada de comer frango e anseia por novidade. Em uma de suas tentativas de seduzir o marido, ela se cansa diante da ausência de reciprocidade, o que parece ser a gota d’água para seu coração. O nó da narrativa se estabelece definitivamente quando surge Daniel (Luke Kirby), um artista plástico que ela conhece em uma excursão e, horas depois, descobre que é seu vizinho. Aos poucos, brota um sentimento de desejo em ambas as partes, mas o compromisso oficial de Margot com Lou é o grande impedimento ao avanço daquele contato.

Polley optou por um argumento extremamente simples e recorrente, seja no Cinema, seja na Arte em geral. Triângulos amorosos estão longe de perder a atualidade e sempre podem despertar algum interesse. A diferença, na verdade, é o tratamento que se dispensa ao tema, e não o tema em si. Nesse sentido, a realizadora é bastante feliz em apresentar sua história com uma mescla de dureza e ternura, exibindo um olhar que se alterna entre a esperança e o desencanto. Os relacionamentos, segundo Polley, são constantemente rondados pelo fracasso, e escapar a ele é um esforço diário que requer o empenho de ambos os parceiros. À medida que o esfriamento entre Margot e Lou se consolida, ela se aproxima cada vez mais de Daniel, que, como um homem solteiro, proclama a sua liberdade e, por vezes, encosta Margot na parede a fim de que ela se decida por manter ou desfazer seus laços matrimoniais. Entretanto, tudo o que envolve sentimentos se reveste de uma aura de complexidade: não se trata de apenas dizer adeus a um e, no instante seguinte, iniciar uma nova relação com o outro.


Entre o amor e a paixão se constrói, portanto, nas nuances. O roteiro, de autoria da própria diretora, centrifuga o maniqueísmo e reflete a sua preocupação em mostrar ao público que os conceitos de vítima e algoz não cabem no âmbito dos relacionamentos amorosos. Também não há lições de moral mastigadas para empurrar goela abaixo do espectador, o que é o caso de alguns exemplares fílmicos malsucedidos sobre o assunto. Polley sabe ser direta sem perder a porção de doçura, desvendando o que há de mais humano em Margot, Lou e Daniel, que poderia apenas não ter um ar de amante latino que o faz parecer irresistível para qualquer mulher que atravesse o seu caminho. Cabe, portanto, tecer comentários elogiosos aos intérpretes. Aliás, Williams já tinha uma experiência pregressa recente em um filme do tipo. Apenas um ano antes, ela deu vida à Cindy de Namorados para sempre (Blue valentine, 2010), outra protagonista desejosa de renovo em sua relação. O detalhe é que também estávamos diante de um título nacional equivocado. Nos olhos de Margot, existe uma chama que insiste em se manter acesa, mas cuja permanência não depende somente dela. Rogen, por sua vez, exercita seu lado mais contido como Lou, fazendo do personagem um homem comum e até carismático. Talvez seja um dos seus melhores personagens desde 50% (50/50, 2011).

Voltando ao roteiro, ele fazia parte da famosa The Black List, que relaciona os melhores roteiros ainda não filmados, até 2009. No ano seguinte, saiu do papel e sua direção ficou em ótimas mãos. Os diálogos sinceros são outra de suas qualidades, e ora despertam um sorriso, ora atingem o coração. A certa altura da história, já muito envolvida pelo charme de Daniel, Margot lhe conta o que faria com ele se não fosse casada e os dois pudessem ficar juntos. A personagem se libera em palavras, fazendo delas a sua catarse. Daniel a ouve atentamente e exibe um misto de surpresa e satisfação em seu olhar, desejando que cada ato que ela descreve se concretize no plano real. Margot fala de amor e sexo como nunca a vemos falar com o marido, cujo cotidiano de pequenas brincadeiras evidencia o quanto a relação entre eles ganhou uma conotação quase pueril. De alguma maneira, Lou contribuiu para essa atitude. Quando eles vão jantar fora em comemoração ao aniversário de casamento, Margot quer conversar, mas ele afirma que não há assunto entre eles que já não tenha sido conversado, frustrando a esposa. O apogeu de Entre o amor e paixão, contudo, está próximo de seu fim, em uma longa sequência que mostra as fases de uma relação ao som da canção homônima do título original, com uma câmera giratória e entontecedora que apresenta em imagens uma sentença cruel sobre o amor e os amantes.

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